Pandemia sem férias

Deputado questiona Doria sobre plano para evitar explosão de covid-19 nas praias de SP

Ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha teme que milhões de paulistas sejam expostos ao coronavírus nas praias superlotadas no início do verão

arquivo pessoal
Aumento de casos e de mortes nas cidades do litoral paulista já preocupa especialistas, que alertam para o risco do período de superlotação das praias

São Paulo – O ex-ministro da Saúde e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) questionou o governo de João Doria (PSDB) sobre um plano para impedir a explosão de novos casos de covid-19 nas praias de São Paulo, tradicionalmente superlotadas no final do ano e início de janeiro. E que se houver, quando o plano deverá ser apresentado. Em ofício enviado ao secretário estadual de Saúde, Jean Carlo Gorinchteyn, Padilha manifesta preocupação com o aumento de casos e de mortes nas cidades do litoral paulista.

“Os números da contaminação pela covid-19 na Baixada Santista estão subindo a níveis muito preocupantes. E soma-se à essa preocupação a chegada do verão, feriados do fim de ano e o período de férias, em que milhões de paulistanos se deslocam para as cidades da região”, diz trecho do documento assinado por Padilha. O deputado, que é médico, integra a Comissão Externa da Câmara dos Deputados que discute ações contra o avanço da covid, que já matou mais de 185 mil pessoas no país – cerca de 45 mil delas no estado do São Paulo.

Covid-19 no litoral

A região da Baixada Santista, que engloba os municípios de Santos, São Vicente, Guarujá, Cubatão, Bertioga, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe, tinha mais de 77 mil casos confirmados de covid-19 e mais de 2.724 mortos na última quarta-feira (16). Há ainda 2.863 casos suspeitos, 116 óbitos sob investigação. O número oficial de mortes diárias é 19. Conseguiram se recuperar 64.423 pacientes. As praias localizadas nesses municípios estão entre as mais procuradas pelos paulistas no fim de ano e férias.

Em São Vicente, a prefeitura ampliou o horário de funcionamento do comércio dos dias 12 a 23. Galerias, lojas de rua e camelódromos podem ficar abertos das 9h às 22h. Shoppings têm permissão para funcionar das 10h às 23h. A prorrogação, segundo a prefeitura, tem o objetivo de evitar aglomerações durante as compras de fim de ano. Na entrada do ano de 2020, mais de 1,2 milhão de veículos desceram a Serra, segundo a Ecovias, empresa que administra o sistema Anchieta-Imigrantes.

Sem plano nem data

Em nota enviada à reportagem, a Secretaria de Desenvolvimento Regional informou ter recebido dos prefeitos dos nove municípios da Baixada Santista pedido de apoio do governo estadual para a conscientização de turistas durante os períodos de Natal e Ano Novo. A pasta disse também que as estâncias turísticas do estado, inclusive as cidades litorâneas “terão apoio em ações conjuntas sobre a importância do distanciamento social, uso obrigatório de máscaras e de se evitar aglomerações para mitigar o contágio do coronavírus”. Medidas essenciais contra a covid-19, seja em São Paulo ou em qualquer lugar do planeta.

Ainda segundo a nota, o estado reforça que a quarentena continua em vigor, com observância às regras do Plano SP e que a conscientização da população é fundamental para a preservação de vidas nos 645 municípios paulistas. No entanto, afirma a Secretaria, cabe às prefeituras fiscalizar os estabelecimentos comerciais, assim como as praias e demais espaços turísticos das cidades. O governo estadual informou ainda que os detalhes sobre as ações serão definidos em reunião do secretariado, mas não informou a data do encontro e nem do anúncio do plano.

Gás na pandemia

Mais do que o uso de máscaras e o distanciamento social, são necessárias medidas mais drásticas das autoridades para evitar mais casos de covid-19, conforme afirmou à RBA o epidemiologista e pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia.

“A gente precisa lembrar que estamos em um momento de aumento sustentado da circulação viral, que provavelmente foi bastante potencializada no primeiro turno das eleições municipais, em novembro. Há um resíduo da exposição da população ao coronavírus nessa época. E a agitação do comércio, das vendas, das confraternizações, das atividades de lazer de fim de ano, a circulação viral, que já é forte no Brasil, torna-se ainda maior”, disse.

Segunda onda de covid-19

O pesquisador, que há meses já falava em segunda onda e novo descontrole da pandemia de covid-19 no Amazonas, destacou que com o aumento da circulação do vírus, a expectativa é de mais doentes, mais internações e mais mortes – daí a necessidade de os municípios, estados e o governo federal adotarem medidas mais duras em relação ao funcionamento do comércio, restaurantes, bares, cinemas, teatros e outras atividades que promovem aglomeração de pessoas.

“É muito provável que o mês de janeiro seja bem pesado, bem diferente do que estamos acostumados. Em vez de ser um período de repouso, de reorganização da vida, o mês será marcado por maus momentos para muita gente, seja internada, ou com parentes internados em UTIs, ou mesmo com a morte de entes queridos.”

E a situação atual, com média de mil mortes diárias, deve piorar, segundo Orellana. “Se não houver nenhuma restrição na movimentação de pessoas nesse fim de ano e começo de férias, vamos ter um quadro muito grave.”