NOVO COLAPSO

Covid em alta e orçamento do SUS para 2021 preocupam, alerta ex-presidente da Anvisa

Neste domingo (20), o Brasil bateu o recorde na média móvel de casos de covid-19

Josenildo Almeida
O estado de São Paulo registrou 50.596 novos casos e 1.108 mortes causadas pela covid-19, só na última semana (13 a 19 de dezembro)

São Paulo – A pandemia de covid-19 segue batendo recordes no Brasil e um cenário ainda mais preocupante é projetado para o próximo ano. Na sexta-feira, já havia sido atingida a maior média móvel semanal de casos no país, com 46.948 registros, segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). No domingo (20), novo recorde, agora com 48.093 infectados. O relaxamento da população em relação às medidas de distanciamento social e a perspectiva de um orçamento reduzido para o Sistema Único de Saúde (SUS) em 2021, há a possibilidade de enfrentarmos um novo colapso na saúde.

A avaliação é do médico sanitarista e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) Gonzalo Vecina Neto, que se diz preocupado com o cenário atual e com o que se aproxima. “Estamos acelerando a pandemia e isso é fruto do nosso comportamento. Se nós relaxamos, mantendo as aglomerações, os números vão crescer. No fim de ano, haverá encontros que não deveriam ocorrer, com um clima de que a vacina já chegou, mas seus efeitos só serão notados no segundo semestre de 2021”, alertou, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual.

O estado de São Paulo registrou 50.596 novos casos e 1.108 mortes causadas pela covid-19, só na última semana (13 a 19 de dezembro). O crescimento do número de novos casos chegou a 55% e o de mortes a 41% no último mês. De outubro para cá, os jovens passaram a ser os responsáveis pela maior parte das infecções e internações pela covid-19 no país. Os pacientes dos 20 aos 39 anos representam atualmente 40% dos casos e 3,6% das mortes contabilizados entre os paulistas.

“Há pais se encontrando com filhos jovens que não respeitam o distanciamento. Essa doença mata os mais velhos, tanto é que 86% dos óbitos, no Brasil, são de pessoas acima de 50 anos. Os jovens precisam entender que, apesar de sua resistência, seus pais morrem dessa doença”, adverte o médico.

Orçamento para o SUS

Em meio à pandemia do novo coronavírus, entidades de saúde coletiva foram surpreendidas com o anúncio do governo federal de retirada de R$ 35 bilhões do orçamento do SUS, dos atuais R$ 168 bilhões. 

A previsão para o próximo ano é que a saúde pública será sobrecarregada com a demanda de procedimentos que foi reprimida em 2020, assim como pelos casos de covid-19 que hoje estão em curva de crescimento. Até os tratamentos de recuperação da doença, que vêm deixando sequelas em parte da população, e a própria elaboração de um plano de vacinação que alcance toda a sociedade. 

O ex-presidente da Anvisa alerta que o orçamento do SUS não é suficiente para montar uma estrutura capaz de atender à população diante dessas demandas. Ele não descarta a possibilidade de um colapso no sistema público de saúde. “Nós temos problemas estruturais que precisamos resolver. A pandemia vai continuar forte no ano que vem e a rede de serviços hospitalares continuará sofrendo um estresse. O Ministério da Saúde precisa continuar credenciando leitos de UTI, senão teremos outro colapso”, criticou.

O médico explica ainda que os hospitais públicos terão que lidar com uma terceira onda de pacientes que não tem ligação direta com a covid-19: as vítimas de problemas cardíacos, de doenças respiratórias e câncer, que ficaram em casa durante a pandemia e terão que buscar seus auxílios médicos.

“Não espero que o Paulo Guedes enxergue a necessidade desses investimentos, porque esse governo não enxerga causa social, só dinheiro. Agora, espero que o Congresso veja as necessidades da sociedade e resolva o financiamento do SUS para 2021. No mínimo, precisa colocar o que se colocou neste ano, pois estão suprimindo R$ 35 bilhões dos R$ 165 bilhões, do ano passado”, afirmou Vecina Neto.

Novo vírus

Neste domingo, o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, confirmou que uma nova variação do coronavírus estava “fora de controle” e, por isso, o governo ordenou o confinamento de Londres e parte da Inglaterra. O sinal amarelo provocou uma reação em cadeia, com diversos países anunciando restrições a viajantes do Reino Unido e de outras nações onde há indicativos ou casos confirmados dessa mutação da covid-19.

Em entrevista à rede britânica BBC, a líder técnica da Organização Mundial da Saúde (OMS), Maria Van Kerkhove, afirmou que os dados atuais indicam que a nova variante surgiu na Inglaterra, entre o sudeste do país e a capital, Londres. Maria afirmou que casos de covid-19 causados pela cepa mais contagiosa foram verificados na Dinamarca, na Holanda e na Austrália. No final do domingo, ao menos um caso já havia sido registrado também na Itália.

Gonzalo Vecina acredita que essa variação deve chegar ao solo brasileiro. “Essa nova variante não é totalmente diferente da atual, não reproduz outra doença, apenas torna mais fácil de se disseminar mais rápido. Acho que ela chegará aqui no Brasil, mas não sei quais as consequências.”