Sem condições

Volta às aulas: risco de pegar covid-19 em locais fechados é até 20 vezes maior do que ao ar livre

Cientistas e médicos apontam que o coronavírus se acumula no ar e contamina mais em ambientes com pouca ventilação e muitas pessoas, como no caso da volta às aulas

Pixabay
Volta às aulas pode ter efeitos devastadores com confirmação da transmissão da covid-19 a longas distâncias, por aerossóis

São Paulo – Um novo risco para a volta às aulas em meio à pandemia de covid-19 foi apontado por cientistas e médicos na revista Science. Segundo artigo publicado no periódico científico, o risco de contaminação pelo coronavírus em ambientes fechado é até 20 vezes maior do que em áreas abertas. O Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos também reconheceu recentemente o potencial de risco dos ambientes fechados. Uma sala de aula com 12 alunos e um professor, conforme a proposta do governo paulista, nos ambientes típicos da rede pública – salas pequenas, janelas estreitas e, muitas vezes, travadas –, pode ser um ambiente de alta contaminação.

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Segundo os cientistas, além do risco direto de uma gota de saliva ou secreção nasal, existe um alto risco de contaminação pela covid-19 na aspiração de aerossóis exalados por pessoas com ou sem sintomas da doença, emitidos por tosse, fala, espirro ou canto, por exemplo. Com a volta as aulas, as salas de aula serão ambientes propício para transmissão da covid-19.

“Há evidências esmagadoras de que a inalação do novo coronavírus representa uma importante via de transmissão para a covid-19. Portanto, é muito mais provável inalar aerossóis do que uma gota. Por isso, a atenção deve estar focada na proteção contra a transmissão aérea”, afirma o grupo liderado pela pesquisadora Kimberly Prather, da Universidade da Califórnia.

Ainda segundo o documento, os aerossóis podem percorrer distâncias muito maiores do que os dois metros que as gotículas podem chegar. Por isso, recomendam a máxima ventilação de locais fechados e o uso contínuo de máscaras em ambientes onde houver outras pessoas. E também que o maior número possível de atividades seja transferido para o ar livre.

Transferir atividades

“Instamos as autoridades de saúde pública a adicionar instruções claras sobre a importância de transferir as atividades para o ar livre, melhorar o ar de interiores por meio da ventilação e filtração e melhorar a proteção para trabalhadores de alto risco”, dizem os cientistas.

Duas evidências foram definitivas para que os cientistas emitissem o alerta. Primeiro, pesquisas que conseguiram encontrar partículas em aerossóis com carga viral suficiente para contaminar uma pessoa, flutuando no ar a quase cinco metros de distância de uma pessoa doente. Segundo, o registro de vários casos de infecções de grande número de pessoas, que apenas uma transmissão por meio de aerossóis poderia explicar. Casos assim ocorreram na China, nos Estados Unidos e na Coréia do Sul. E podem ocorrer no Brasil, com a volta às aulas.

De acordo com os cientistas, houve uma confusão quanto à mitigação de riscos de contaminação pela covid-19. Enquanto o comércio, bares, restaurantes e academia são reabertos, com limites de capacidade, parques e outros espaços abertos ficaram fechados por mais tempo. Os limites de capacidade também foram aplicados em espaços comerciais com áreas abertas. No entanto, a diluição das partículas é muito maior em espaços abertos, reduzindo o potencial de contaminação.

Ainda o risco

Um simulador de dispersão da covid-19, elaborado por pesquisadores de sete universidades mostrou que, mesmo com todos os protocolos de segurança sendo seguidos, a volta às aulas em São Paulo causaria contaminação pela covid-19 em até 46,35% dos estudantes e professores após três meses.

Isso considerando apenas estudantes dos ensinos fundamental e médio. Mesmo seguindo as regras estabelecidas pelo governo João Doria (PSDB), de até 35% dos alunos participarem das atividades presenciais de cada vez. E partindo de apenas uma pessoa infectada.

Segundo a pesquisa, seria necessário um limite de presença de 6,86% dos estudantes para garantir a segurança da comunidade escolar, o que tornaria a volta às aulas inviável. As simulações utilizaram dois tipos de escolas, com base em dados do Censo Escolar 2019: uma de periferia, com espaços menores e maior quantidade de alunos (comprimida); e outra em bairro rico, com ambiente espaçoso e menos estudantes (dispersa).

Os testes consideraram que a maioria das pessoas respeitaria as regras de higiene, o uso de máscaras e o distanciamento social de 1,5 metro. E que só haveria três cruzamentos entre elas por dia: na entrada, na saída e no recreio.