Fazendo negócios

Alexandre Padilha: privatização do SUS pode facilitar desvio de recursos

Ex-ministro da Saúde considera assustadora proposta do governo de privatizar UBSs e avalia que empresas privadas não teriam interesse real no atendimento ao povo

TVT/REPRODUÇÃO
Para Padilha, governo Bolsonaro retirou recursos, desmontou programas e agora anuncia decreto para expansão de UBSs: muito estranho

São Paulo – Assustador! Assim o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha qualificou o decreto do governo Jair Bolsonaro que prevê a realização de estudos para a transferência à iniciativa privada da construção, modernização e operação das Unidades Básicas de Saúde (UBS) de todo o Brasil. O Decreto 10.531 inclui as UBS no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), de concessões e privatizações do governo federal.

“Na semana passada Bolsonaro deu declarações absurdas sobre o tema das vacinas. Agora, com esse decreto, estão anunciando a possibilidade de negócios com as unidades de saúde”, criticou Padilha, que é médico infectologista, em entrevista na manhã de hoje (28) à jornalista Denise Campos de Toledo, na Jovem Pan. “O que é muito absurdo? Primeiro acontecer no meio da pandemia, onde como você bem falou os profissionais de saúde do SUS foram fundamentais. Depois, não envolver municípios, nem o Ministério, nem os secretários de Saúde (na decisão).”

Parlamentares se movimentam contra privatização de unidades de saúde

Deputado federal (PT-SP), Padilha fez uma analogia para explicar o absurdo dessa privatização das UBSs do SUS, explicando que seria como se alguém colocasse à venda o prédio onde está a Jovem Pan, sem sequer informar a empresa de comunicação, “vendendo um prédio que não é dele”. “O governo federal quer prospectar negócio que não é competência do governo federal, mas dos municípios, que são responsáveis pelas unidades de saúde”, reforçou.

Rifando a Saúde

Questionado pela jornalista sobre qual seria o interesse das empresas privadas em administrar UBSs, se haveria lucro para elas, o médico foi taxativo: “Só se fosse por desvio absurdo de recursos”.

Para Padilha, que esteve à frente do Ministério da Saúde entre 2011 e 2014, se na semana passada Bolsonaro já tinha rifado o Ministério, ao desautorizar fala do ministro Eduardo Pazuello sobre a compra de vacinas, esta semana está vendendo. “Fazer isso nesse momento da pandemia, é mais uma atitude irresponsável. Talvez a coisa mais importante agora seja o Brasil deter a soberania de vacinas para garantir estratégia global de vacinação. Num momento como esse fazer anúncio de que vai colocar à venda UBSs, profissionais de saúde, serviços decisivos para a vacinação, é uma irresponsabilidade.”

A jornalista lembrou que o decreto fala em “projetos-piloto”, como solução para unidades de saúde ainda em obras, para abrir novas unidades. Padilha rebateu, destacando que o Ministério da Economia, único mencionado no decreto de Bolsonaro, não mostra a situação real em que estão essas unidades. “O atendimento piorou por falta de investimento. Em 2019, apenas 37% dos domicílios tiveram visita mensal dos agentes de saúde. O governo federal vem retraindo recursos, desmontou o programa Mais Médicos que ficavam exatamente nessas unidades de saúde.” Ou seja, avaliou o ex-ministro, é muito estranho anunciar que está preocupado com expansão quando tem sido o governo Bolsonaro que vem freando os recursos para o setor.

Padilha fala contra decreto de Bolsonaro que ataca o SUS (Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados)

Segunda onda

O ex-ministro falou contra a privatização e reforçou a importância do SUS. E da estratégia pública de vacinação diante da segunda onda de casos de covid-19, que já assola países da Europa. E o Brasil corre esse risco, disse. “No começo eu fazia comparação com a pandemia do H1N1. Eu era ministro do presidente Lula (da Secretaria de Relações Institucionais, entre 2009 e 2010). O Brasil tinha vacina que produzimos rapidamente, em transferência de tecnologia com o Instituto Butantã. E mesmo assim a pandemia de H1N1 durou 14 meses no mundo. Acredito que pelas informações, pela evolução, a pandemia do novo coronavírus tem tudo para ser mais duradoura. E enquanto durar Brasil corre riscos com a segunda onda.”

O país, avalia, tem tudo para ter uma estratégia robusta de vacinação, com mais de uma técnica vacinal, atendendo diferentes grupos, como idosos, gestantes. A vacinação, destaca ele, é a forma de impedir ou reduzir os impactos da segunda onda, tanto para saúde como para a recuperação econômica. “Países que detiverem vacina, terão mais chance de recuperar.”

Para o médico infectologista, que trabalhou por muito tempo no Norte do país, o Ministério da Saúde teria de estar muito atento com os estados da região. “Essas doenças respiratórias começam lá antes. E agora tem o período de chuvas, quando há maior concentração de pessoas em espaços fechados.”