Mais vidas em risco

Sem coordenação nacional, Brasil terá problemas na distribuição de vacina contra covid-19

Oficialização de Pazuello à frente da Saúde não acaba com o risco de que a falta de articulação também prejudique a distribuição de um possível imunizante

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"O governo nos abandonou, não temos um comando no ministério da saúde para tratar da pandemia", avalia Arthur Chioro

São Paulo – O anúncio de que o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, será efetivado nesta quarta-feira (16) está longe de indicar que o Brasil tenha uma coordenação nacional para o enfrentamento da pandemia. Ao contrário, o país, que já pagou um preço alto em vidas – 132 mil pessoas morreram em decorrência da covid-19 –, corre o risco de fracassar também na distribuição da vacina por conta da falta de uma articulação por parte do governo federal. É o que adverte o médico sanitarista e ex-ministro da Saúde Arthur Chioro. 

Em entrevista a Glauco Faria, do Jornal Brasil Atual, Chioro comenta sobre a produção das candidatas à vacina que estão em curso e o que deveria ser feito pelo Ministério da Saúde neste momento. A Universidade de Oxford, no Reino Unido, por exemplo, retomou nesta segunda (14) os testes do imunizante da farmacêutica AstraZeneca. Esta é a vacina com que o governo federal trabalha para a produção junto com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Há ainda a Sinovac, uma das empresas chinesas que está à frente da produção de doses de seu imunizante, desenvolvido em parceria com o governo de São Paulo e do Instituto Butantan.

O instituto e a Fiocruz são apontadas como a grande esperança, por serem os únicos polos com plantas industriais capazes de produzir uma vacina, como explica o ex-ministro. Há ainda outros governos estaduais que se movimentam para garantir a compra de outras possíveis vacinas contra o novo coronavírus. Mas, de acordo com ele, nesses acordos, as doses de vacinas chegariam ao Brasil com um volume limitado, incapaz de atender a toda a demanda.

Um Brasil apartado

“Nessa hora, seria fundamental a coordenação do Ministério da Saúde, inclusive para estabelecer que tal empresa consegue entregar tantas milhões de doses que irão para determinada região do país, e se serão produzidas, envasadas ou só rotuladas. Essa organização sempre foi feita pelo programa nacional de imunização por conta do ministério. Agora, o que a gente vê é uma troca recente na coordenação do programa de imunização de vacinas”, comenta Chioro, sobre a recente nomeação de Laurício Monteiro Cruz

“Um médico veterinário, e nada contra, veterinários podem ser excelentes profissionais sanitaristas. Mas, no caso, é alguém sem nenhuma experiência, background, de lidar com estratégias de vacinação, produção e negociação. Hoje nós estamos apartados”, lamenta o ex-ministro. 

Apesar de incerta, a perspectiva da vacina já coloca como imediata a necessidade de se pensar na logística de distribuição. Ainda que, de acordo com o médico sanitarista, dificilmente ocorrerá a imunização total da população antes de 2022. Em conjunto, o país não deveria permitir que as medidas de distanciamento social e prevenção adotadas inicialmente fossem flexibilizadas como estão sendo. 

Cenário pior do que na guerra

Já no próximo dia 26, o Brasil completa sete meses da primeira notificação oficial de um caso de covid-19 no Brasil. Com mais de 4,3 milhões de registros da doença, a recente queda na média móvel de mortes para 711 registros por dia está longe de indicar que o problema tenha sido superado. 

Chioro calcula que foram 14 semanas seguidas registrando novos 7 mil óbitos semanais. “É como se duas torres do World Trade Center (do atentado de 11 de setembro, nos EUA) desabassem a cada semana no Brasil. É como se 35 aviões, com 200 passageiros a bordo, caíssem em solo brasileiro a cada semana, durante 14 semanas seguidas. Ou seja, um cenário que talvez nem em uma guerra nós pudéssemos esperar”, descreve. 

“É por isso tudo que vejo com muita preocupação esse movimento que a gente vive (de flexibilização). Não temos um comando no Ministério da Saúde para tratar da pandemia. O infarto agudo de miocárdio e os derrames, os AVCs, eram as doenças que mais matavam. Eram por volta de 100, 110 mil óbitos, o que já era uma exorbitância. Estamos com mais de 132 mil óbitos registrados na história do país, a doença (covid-19) é a que mais matou. Vai continuar matando e parece que tudo está normalizado”, lamenta. 

Confira a entrevista 

Redação: Clara Assunção. Edição: Glauco Faria