Reconhecimento

‘O que mais nos atrapalhou foi a falta de unidade nacional’, diz Edinho Silva sobre combate à covid

“Tive, no começo da pandemia, mobilização contra mim. Dávamos uma orientação e o presidente da República dava outra”, lembra prefeito de Araraquara

Divulgação
Política de enfrentamento da pandemia de Araraquara foi elogiada pelo jornal Libération

São Paulo – “O que mais nos atrapalhou no começo da pandemia foi a falta de unidade nacional no enfrentamento da doença. As prefeituras davam uma orientação de distanciamento social, os governadores também, na sua maioria, encaminhavam dessa forma, e o presidente da República desautorizava os governadores e o prefeitos o tempo todo.” A explicação é do prefeito de Araraquara (interior paulista), Edinho Silva (PT), cuja administração tem sido considerada como um exemplo no combate à pandemia da covid.

As políticas púbicas do prefeito foram objeto de matéria do jornal francês Libération nesta segunda-feira (28). Antes, no início da pandemia, Araraquara apareceu em redes sociais, após uma mulher ser presa em uma praça depois de se recusar a cumprir as regras de isolamento. “Ela não foi presa por ter descumprido a quarentena, foi presa por desacato e agressão”, explica o prefeito, em entrevista à RBA.

A mulher chegou a morder uma guarda municipal. O caso foi citado por Bolsonaro várias vezes, inclusive na posse do ex-ministro da Saúde Nelson Teich. “Aquela cena de prender mulher na praça, da mulher sendo jogada no chão, sendo colocada algemas, eu não consigo entender”, disse o presidente na ocasião.

“Usaram aquilo para atacar politicamente o nosso governo. Bolsonaro usou isso para atacar Araraquara”, lembra o prefeito. Depois, descobriu-se que a desobediente era ativista bolsonarista.

Orientar antes

Segundo ele, a linha da prefeitura é orientar antes de multar ou autuar. Mas nem sempre a prática funciona. No último final de semana, a gestão fechou três bares por desrespeito às normas. “Se você flexibiliza sem nenhum critério, a consequência é o aumento da doença, e, principalmente, o aumento do contágio nos grupos de risco. E contágio em grupos de risco significa aumento de letalidade.”

A prefeitura mede as taxas de infecção calculando o percentual de testados positivo em relação ao total de exames realizados. “Tínhamos conseguido um patamar abaixo de 20% de positivados. Depois do Dia dos Pais teve um crescimento e, após o 7 de Setembro, voltou à faixa dos 30%, taxa que tínhamos em junho e julho”, diz.

Segundo Edinho Silva, o sucesso do combate à pandemia de covid se deve essencialmente ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Atendemos muitos pacientes dos planos privados, porque eles entendem muitas vezes que a rede da prefeitura é mais eficaz, dá uma resposta melhor ao atendimento do sintomático da covid do que a rede privada”, afirma Edinho Silva.

Leia a entrevista de Edinho Silva, sobre como Araraquara lida com a pandemia de covid-19

Como recebeu a matéria do Libération falando de sua gestão em contraposição à política “desastrosa” de Bolsonaro?

Desde o mês de abril  começamos a estabelecer um protocolo, a organizar a rede de saúde. Construímos um hospital de campanha em cinco semanas, tomamos as medidas necessárias para que a cidade fosse estruturada, não faltasse assistência à população positivada. Resolvemos a questão dos exames, que era um problema, porque o (Instituto) Adolfo Lutz não conseguia dar uma resposta rápida e conseguimos, em parceria com a Unesp e com a faculdade de medicina da cidade, da Uniara (Universidade de Araraquara ), resolver a questão do inquérito epidemiológico, dos exames. Depois, investimos numa máquina que faz exame por antígeno, que dá mais agilidade para você detectar o positivado, e garante um protocolo que temos adotado, que é a internação precoce. A cidade criou uma estrutura para atender a população e isso tem dado resultado, por isso nossa letalidade é tão baixa.

Quantos casos tem a cidade hoje (segunda-feira, 28)?

Temos 4.334 casos e 46 óbitos.

Como a postura de Bolsonaro interfere na política adotada de Araraquara?

O que mais nos atrapalhou no começo da pandemia foi a falta de unidade nacional no enfrentamento da doença. As prefeituras davam uma orientação de distanciamento social, os governadores também, na sua majoria, encaminhavam dessa forma, e o presidente da República desautorizava os governadores e prefeitos o tempo todo.

Tive, no começo da pandemia, mobilização contra mim, carreata em frente à prefeitura, contra as medidas de distanciamento. Dávamos uma orientação e o presidente da República dava outra. Isso atrapalhou muito. Depois fomos vendo a letalidade da doença, (agora com) 140 mil brasileiros mortos, uma tragédia humana incomparável,  do ponto de vista histórico.

Tratamos a doença com seriedade, temos rigor na fiscalização, e criamos uma rede de assistência à Saúde e também cuidamos do impacto econômico da pandemia: aumentamos a abrangência do nosso programa de segurança alimentar, instituímos os programas de combate à vulnerabilidade. Cuidamos das pessoas que estavam sofrendo do ponto de vista econômico, com os reflexos da pandemia, e cuidamos da assistência à saúde.

O Libération destaca o papel do SUS, no contexto de Araraquara…

Temos um orgulho imenso, porque temos a nossa estrutura, que é saúde pública, que é SUS. Atendemos muitas vezes pacientes dos planos privados, porque eles entendem muitas vezes que a rede da prefeitura é mais eficaz, dá uma resposta melhor no atendimento do sintomático da covid do que  a rede privada.

E aquele vídeo que ficou famoso, de uma mulher que foi presa por desrespeitar as normas na praça?

Bolsonaro usou isso para atacar Araraquara. Isso foi destacado fora de contexto, porque ela não foi presa por ter descumprido a quarentena. Foi uma denúncia que os vizinhos de uma praça fizeram.

A Guarda Municipal foi lá, conversou com as pessoas que estavam na praça, e todo mundo respeitou, menos ela. Ela foi presa porque desacatou a Guarda. Quem comanda a Guarda de Araraquara é uma mulher (Juliana Záccaro), depois mandamos o corregedor, tudo para convencê-la. Depois descobrimos que é uma ativista política. Ela chegou a morder uma guarda, outra mulher, e foi presa por desacato e agressão.

Deram uma dimensão imensa àquilo, mas tínhamos  certeza do que estávamos fazendo. Usaram para atacar politicamente o nosso governo, depois o Ministério Público mesmo arquivou a denúncia contra a prefeitura e, ao contrário, denunciou a mulher. O presidente da República citou esse caso várias vezes.

Ou seja, não dá para ter uma política de combate à pandemia sem energia do Estado?

Você tem que fiscalizar, eu sempre oriento o secretário de Segurança Pública, um coronel reformado (João Alberto Nogueira Júnior) da PM muito democrático, de muito diálogo. Eu sempre digo a ele o seguinte: se puder não multar, não autuar, mas orientar, essa tem que ser a linha da prefeitura.

Mas neste final de semana tivemos que fechar três bares, por desrespeito às normas. Autuamos áreas de lazer. No interior tem muito isso, as pessoas com mais recursos compram chácaras e transformam em áreas de lazer, que depois viram um negócio. Eles alugam, como um local de eventos. Se você flexibiliza sem nenhum critério, a consequência é o aumento da doença e principalmente o aumento do contágio dos grupos de risco. E contágio em grupos de risco significa aumento de letalidade.

Como está a curva epidemiológica da covid na cidade?

Está num platô. Tínhamos conseguido uma redução das contaminações. Isso foi bem até o Dia dos Pais. Algumas semanas após esse dia, sentimos um crescimento e tivemos um aumento muito significativo do contágio uma semana, dez dias depois do 7 de Setembro. Estamos num platô, mas com uma curva de ascendência.

Como vocês medem a curva? Quanto subiu?

A gente mede calculando o percentual de testados positivo em relação ao total de exames realizados. Tínhamos conseguido um patamar abaixo de 20% de positivados. Depois do Dia dos Pais teve um crescimento e, após o 7 de Setembro, voltou à faixa dos 30%, que tínhamos tido em junho e julho. Todos os dias temos positivado 30%.

Qual a expectativa sobre a queda dessa taxa?

Vai depender muito de quanto a gente vai conseguir segurar as aglomerações de pessoas. Está muito ligado ao número de ocorrências de aglomerações. Se crescem os eventos de aglomeração que você fiscaliza, pode contar que vai ter aumento. Você reduz esses eventos, tem queda na positivação e, principalmente, dos doentes em grupos de risco