No Brasil bolsonarista

Epidemiologista cobra independência da Fiocruz sobre dados da covid-19

Pesquisador Jesem Orellana diz que Fiocruz ‘reforça narrativa de Bolsonaro’ ao negar segunda onda de covid-19 em Manaus

Altemar Alcantara/Semcom
"Naturalizar adoecimentos e mortes é algo grave, desumano e antiético. Como epidemiologista, meu dever é o de antecipar o pior", disse o epidemiologista, que previu a segunda onda de contaminação de covid-19 que atualmente ocorre em Manaus

São Paulo – A retomada da covid-19 em Manaus provocou uma crise na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em uma segunda onda de contágio pelo novo coronavírus, a capital do Amazonas vê um crescimento de 50% de novos casos nos últimos 15 dias. Um cenário que foi antecipado pela RBA – a partir de dados e entrevistas fornecidos pelo epidemiologista da entidade Jesem Orellana – e que desagradou a matriz da Fundação, no Rio de Janeiro.

O epidemiologista argumenta que a matriz da Fiocruz, no Rio, possui ligação direta com a Presidência da República, de Jair Bolsonaro, que desde o início da pandemia minimizou a covid-19 e estimulou aglomerações. Agora, Jesem cobra independência da entidade. “A comunicação da Fiocruz-RJ me orientou a não me identificar como sendo da Fiocruz em entrevistas sobre lockdown e, foi além, ao afirmar que ‘a entidade não recomenda lockdown‘. Antes de tudo, isso é, no mínimo, desprovido de amparo científico e apenas reforça a narrativa do presidente”, disse.

Provas

O especialista mantém sua posição sobre o (lockdown) que, inclusive, chegou a ser ventilado (tardiamente) pelo próprio prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB). “Apenas reforço, que em todas as entrevistas disse que quando falhamos com medidas menos extremas, caso de Manaus, só resta o lockdown“, completou

Jesem aceitou se abster de comentários sobre a situação de Manaus nos mais diferentes meios, mas afirma que fez de tudo que estava ao seu alcance. “Este é o meu limite. Daqui em diante, cabe à sociedade e ao poder público decidirem nosso futuro (…) Obviamente, não teremos nada parecido com a primeira onda nos próximos meses. Mas, naturalizar adoecimentos e mortes é algo grave, desumano e antiético. Como epidemiologista, meu dever é o de antecipar o pior, ajudando a poupar vidas e mais sofrimento.”

Produção tutelada

Sobre o vínculo dos diferentes polos da Fiocruz à matriz fluminense, Jesem defende o potencial da produção de análises e estudos nas unidades regionais sobre a covid-19. “Respeito o trabalho dos colegas de outras unidades. Mas, cedo ou tarde, esses mesmos colegas irão entender que temos gente qualificada o suficiente na Fiocruz-AM para produzir análises robustas e originais, com um olhar que o agente externo não pode ter, por mais qualificado que ele seja ou se julgue.”

Por fim, o cientista reafirma a transparência de sua posição em defesa da vida e que é “uma pessoa comum, que resolveu se despir do manto sagrado do cientista ‘isentão’. Aquele que só se manifesta por meio de artigos científicos para relatar o que aconteceu e fazer recomendações inócuas, perpetuando essa hipocrisia institucional.”

Apoio

Diante da repercussão do conflito, o Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus (Asprom/Sindical) se manifestou em defesa do cientista. “O sindicato vem manifestar toda solidariedade e apoio ao renomado epidemiologista Jesen Orellana, da Fiocruz-AM, por estar sendo censurado pela assessoria de comunicação da Fiocruz-RJ, que desautorizou o epidemiologista a falar em nome da Fundação. Mais grave ainda, o orientou a não se identificar como integrante da referida instituição.”

A entidade argumenta que os estudos e alertas de Jesem se mostraram coerentes com a realidade desde o início da pandemia, assim como agora, com a segunda onda de contágio. “Todos os alertas feitos por Jesem, de que uma nova onda de covid-19 estava se avizinhando na cidade de Manaus, foram desconsideradas pelo governo Wilson Lima (PSC). Estamos agora arcando com a consequência da irresponsabilidade do governador e estamos constatando um aumento de pessoas infectadas.”

Edição: Fábio M. Michel