Alerta

Reabertura sem limites amplia riscos à atenção básica de saúde

Profissionais do setor alertam que a situação, que já é frágil, pode piorar: falta estrutura para atender novos casos e pacientes com sequelas da de covid-19

Secom
Já faltam insumos, remédios e profissionais capacitados para os atendimentos. No interior do país, a situação é ainda mais grave e o número de infectados só cresce

São Paulo – A reabertura econômica promovida por alguns estados preocupa os profissionais de saúde. Na linha de frente do combate à covid-19, eles alertam que a estrutura de atenção básica do país não está preparada para atender pacientes com sequelas da doença e uma possível nova onda de infectados. Já faltam insumos, remédios e profissionais capacitados para os atendimentos. No interior do país, a situação é ainda mais grave e o número de infectados só cresce. Segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, o Brasil tem mais de 3,6 milhões de infectados pela doença e são 115 mil pessoas mortas. Para os mais de um milhão de trabalhadores representados pela Rede Sindical Brasileira UNISaúde sobra apreensão.

A enfermeira Líbia Bellusci é uma desses trabalhadoras preocupadas com a reabertura. Vice-presidenta do Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro, ela atua no Samu do estado – que vive uma situação caótica na pandemia. São mais de 190 mil infectados e 14 mil óbitos pela doença. O governo estadual, de Wilson Wietzel, trocou o secretário de Saúde três vezes e 5 mil profissionais de saúde estão com os salários atrasados há mais de dois meses. Apesar dos números alarmantes, o governo anunciou retorno às aulas na rede privada, em setembro, e na rede pública, em outubro.

“Estamos preocupados com a reabertura, porque muito se focou no atendimento aos pacientes graves e pouco se fala nos sequelados. Além disso, não há transparência nos números divulgados pelo governo estadual em relação aos infectados”, avalia a enfermeira.

Interiorização da doença

No estado de São Paulo não é diferente. Passam de 754 mil os casos confirmados da doença e mais de 28 mil mortos. Edna Alves, presidenta do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Jaú está apreensiva com o desrespeito aos protocolos de combate à doença na região. Técnica de enfermagem na Fundação Dr. Amaral Carvalho, ela destaca os impactos que isso pode ter na saúde dos profissionais do setor e no atendimento à população dos 17 municípios abrangidos pelo sindicato. “Após serem curados, os trabalhadores voltam à atividade sem que sejam testados continuamente. Vemos também uma baixa no controle do isolamento social. Por isso nossa preocupação sobre como vai ser o tratamento dos doentes com sequelas e novos casos da doença”, avalia.

A Bahia também autorizou a reabertura de bares, salões de beleza, restaurantes e preocupa os profissionais de saúde. Entre 8 e 15 de agosto, o estado contava 214 mil casos de covid-19 e 438 mortes, segundo Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Lúcia Duque Moliterno, enfermeira do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Camaçari, destaca a preocupação com a interiorização da doença. “Temos visto uma mudança de comportamento na questão do isolamento social e a impressão que se tem é que a pandemia acabou – e nós sabemos que isso não é verdade”, avalia Lúcia, que é presidenta do Sindicato dos Enfermeiros do Estado da Bahia. “Se houver aumento de infectados – e vamos torcer para que isso não aconteça –, não teremos estrutura para atender a todos.”

Risco aos profissionais

Com 171 mil casos e cerca de 4 mil óbitos causadas pela covid-19, Minas Gerais também promove a reabertura da economia e instala o temor de adoecimento dos profissionais de saúde. A situação, segundo a técnica de enfermagem Flávia Tatiana da Silva, está longe de ser tranquila. Diretora do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Belo Horizonte e Região, ela atua no Hospital Baleia e relata o medo dos profissionais de saúde diante dessa situação. “Há muito hospitais fornecendo EPIs (Equipamento de Proteção Individual) de péssima qualidade, o que fragiliza e expõe os trabalhadores ao coronavírus, tanto na atenção básica como na UTI”, denuncia.

O Boletim Epidemiológico de 8 a 15 de agosto informa que o número de casos confirmados de covid-19 entre profissionais de saúde com Síndrome Gripal (SG) foi de 257.156, distribuídos entre 53 categorias. Já aqueles com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) com a covid confirmada, foi de 1.034. Foram 226 óbitos e o número total de profissionais infectados subiu em 83 mil, em pouco mais de um mês.

A Rede Sindical Brasileira UNISaúde orienta os trabalhadores de saúde a fazerem a abertura da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). “Só a abertura da CAT lhes assegurará os direitos, em caso de afastamento, de salário, e a contagem para aposentadoria”, avisa a entidade ligada à UNI Américas, federação internacional de sindicatos da saúde privada nas Américas.