descaso e morticínio

Brasil se aproxima de 110 mil mortes pela covid-19. Pandemia não retrocede

“A falha em tomar medidas para evitar um novo aumento de casos e no número de mortes é de responsabilidade dos governos federal, estaduais e municipais”, afirma publicação científica

Fernando Crispim/La Xunga/Amazônia Real
"Estamos praticamente vencendo a pandemia", disse hoje (11) o presidente, Jair Bolsonaro. Os fatos apontam para a direção oposta

São Paulo – O Brasil soma 684 vítimas de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus. O número registrado nas últimas 24 horas deixa o país próximo das 110 mil mortes, marca que deve ser batida nesta semana. De acordo com o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), hoje são 108.536 óbitos desde o início do surto, em março.

Já o número de infectados chega a 3.359.570, com 19.373 no último período. Às segundas-feiras, o número de registros cai em relação aos demais dias da semana, já que existe um menor número de profissionais de saúde trabalhando no fim de semana provoca um represamento dos dados.

O Brasil apresenta média acima de mil mortes por dia há 10 semanas, e não existem sinais claros de recuo. O mesmo se repete quanto à curva epidemiológica do número de infectados que, após seguir uma tendência de estabilidade no fim de julho, passou por uma explosão nas semanas seguintes.

Números da pandemia no Brasil, de acordo com o Conass

Ondas

O descaso do poder público no combate ao vírus explica o fato de a pandemia não retrocer. Enquanto o governo Bolsonaro desde o início desdenhou da pandemia, governadores e prefeitos cederam a pressões e também passaram a suspender medidas protetivas. Bolsonaro chegou a dizer que a covid-19 era uma “gripezinha” e pressionou o tempo todo contra o isolamento social. “Abrir o comércio é um risco que eu corro: se agravar, vai cair no meu colo”, disse em abril.

Enquanto países europeus, asiáticos e até mesmo vizinhos temem pela “segunda onda” de contaminações e mortes, o Brasil ainda não saiu da primeira e vive no topo do ranking de mortes há semanas. O Brasil é o segundo país mais afetado pelo vírus, atrás apenas dos Estados Unidos – que, no entanto, aplicammuito mais testes à população.

Mesmo sem sair do topo, uma segunda onda pode afetar o Brasil e agravar, ainda mais, a maior crise sanitária dos últimos 100 anos. Isso pode já estar ocorrendo na Amazônia, como defende especialista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na última semana, a revista britânica de ciência Nature também publicou um artigo neste sentido.

Manaus foi uma das primeiras cidades afetadas do país. A capital amazonense viu o sistema de saúde colapsar e enterros em valas comuns. Mesmo diante da ameaça, as autoridades locais suspenderam de forma precoce medidas protetivas, e agora os riscos voltam a assombrar a região.

Reabertura precoce

A Nature traz dados científicos e a informação de que um isolamento social eficaz deve ser superior a dois meses, algo que não aconteceu no Brasil. Mesmo em locais com medidas sanitárias, elas foram fracas e insuficientes. “Em 6 de maio, a Assembleia Legislativa do estado do Amazonas aprovou uma lei que permitia a reabertura de templos e igrejas. A reabertura de lojas “não essenciais” ocorreu em 1º de junho. As informações científicas foram ignoradas pelos tomadores de decisão”, afirma o texto da revista científica.

Mesmo hospitais de campanha já passam a ser fechados ao menor sinal de estabilidade da pandemia. “A falha em tomar medidas para evitar um novo aumento de casos e no número de mortes é de responsabilidade dos governos federal, estaduais e municipais. O rápido aumento do número de casos no interior do estado (inclusive em comunidades indígenas) pressionará as UTIs em Manaus. No entanto, mesmo nestas condições, o prefeito de Manaus decidiu fechar os hospitais de campanha, o que deixa a região vulnerável a uma segunda onda de infecção.”

Os estados brasileiros mais afetados pela covid-19