Não está tudo bem

‘Bolhas locais’ explicam redução da covid-19 em São Paulo, mas situação é instável

Infectados pela covid-19 já não encontram pessoas suscetíveis para contaminar, mas situação pode mudar se quarentena for encerrada em São Paulo

Guilherme Gandolfi/Fotos Públicas
Isolamento social e uso de máscaras para sair ajudaram a frear a pandemia em São Paulo, mas situação não está consolidada

São Paulo – A queda nos casos de covid-19 registrada nos últimos dias na cidade de São Paulo está relacionada à formação de bolhas locais de proteção. Elas dificultam que uma pessoa contaminada encontre pessoas suscetíveis a serem infectadas na região em que vive. Essa situação tem limitado a transmissão do novo coronavírus, reduzindo também as internações e mortes. No entanto, o cenário pode mudar se a quarentena for totalmente encerrada, já que vai provocar maior circulação e consequente cruzamentos entre as pessoas de diferentes regiões e bairros. Essa é a avaliação de pesquisadores de cinco universidades, de três países, que analisaram a situação da pandemia na capital paulista.

Os pesquisadores usaram um sistema desenvolvido pelo Ação Covid-19, grupo interdisciplinar que estuda a evolução da pandemia no Brasil. A equipe também apoiou a simulação da disseminação da covid-19 consequente da volta às aulas em São Paulo. Utilizando a taxa de isolamento social divulgada pelo governo paulista e aplicando uma hipótese de redução dessa taxa para 20% até meados de outubro, o que se viu foi que o aumento de casos não se tornou significativo.

“A curva epidêmica média após 238 dias de simulação (equivalente a segunda quinzena de outubro), contados desde o primeiro caso da doença, registrado em 25 de fevereiro, mostra uma taxa de 12,71% de infectados e 0,12% de mortes, ou seja, 0,9% de letalidade. A simulação mostra a curva de transmissão diminuindo, mesmo com uma redução drástica do isolamento social, com um aumento leve e temporário a partir do 150º dia”, explicou a pesquisadora Gerusa Maria Figueiredo, do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMTSP).

Riscos sem isolamento

O resultado aparentemente contraditório não indica que se atingiu a imunidade de rebanho contra a covid-19 em São Paulo – quando o número de pessoas que têm anticorpos contra uma doença impede que ela continue se propagando. Mas sim que houve a formação de bolhas locais de proteção em São Paulo, onde pessoas infectadas pela covid-19 não encontram pessoas suscetíveis à transmissão.

“Assim, as bolhas reduziriam a velocidade de propagação do vírus, causando reduções curtas e temporárias na curva epidêmica, mas se manifestam como um equilíbrio instável. Isso ocorre quando o vírus está presente em uma parte da população por um período relativamente longo, nesse caso, de 138 dias desde o primeiro caso registrado. Um número substancial de infectados não encontra muitas pessoas suscetíveis no ambiente para infectar durante o período de transmissão, o que seria suficiente, a princípio, para diminuir a taxa de transmissão”, disse Gerusa.

Segundo ela, resultados semelhantes ocorreram nas cidades de Manaus, no Amazonas, e Estocolmo, na Suécia, que também tiveram queda de casos mesmo após o relaxamento das políticas de quarentena e isolamento social. Porém, é uma situação que funciona em nível local, mas que pode perder o efeito se todo o isolamento for encerrado.

Ampliar testagem

“Essas bolhas de proteção podem estourar ou as redes podem ser reiniciadas, ou seja, novas ondas de transmissão podem ocorrer se o distanciamento social cair muito ou houver uma reintrodução do vírus em regiões da cidade onde poucas pessoas foram infectadas e, portanto, não se tornaram imunes à doença. Prever essas ‘bolhas estouradas’ é difícil, mas não é um fato improvável”, afirmou a pesquisadora. Para ela, o melhor método de conter uma nova onda é ampliar a testagem e rastrear os contatos de casos confirmados de covid-19.

A pesquisa teve a participação dos pesquisadores José Paulo Guedes Pinto, da Universidade Federal do ABC, Patrícia Camargo Magalhães, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, Gerusa Figueiredo, da Faculdade de Medicina da USP, Domingos Alves, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP e Diana Maritza Segura-Angel, da Escola de Aviação do Exército, da Colômbia.

Com informações do Jornal da USP