Vozes do mercado

Doria ignora recorde de novos casos de covid-19 e afrouxa quarentena em São Paulo

Governador considera gestão da crise “um sucesso” e anuncia que vai atender pedido de prefeitos para permitir abertura de comércios por mais horas diárias

Secom/GovSP
Membros do comitê de saúde seguem defendendo que a situação está melhorando

São Paulo – O estado de São Paulo registrou, nesta quinta-feira (2), 12.244 novos casos confirmados de covid-19 nas últimas 24 horas, número recorde desde o início da pandemia. A capital paulista, que deve passar para a fase 3-amarela do Plano São Paulo, na próxima segunda (6), também bateu recorde de novos casos em 24 horas ontem (1º), com 8.923 registros.

Também ontem completou-se um mês do início da abertura do comércio implementada pelo governo João Doria (PSDB). Os dados podem ser um indicativo importante de que a situação está se agravando novamente, já que o aumento de casos seria a primeira consequência negativa da reabertura.

O secretário-executivo do Comitê de Contingência do Coronavírus de São Paulo, João Gabbardo, considera que o estado vive o momento em que um eventual agravamento da pandemia, em decorrência da reabertura do comércio, vai se tornar visível. Em coletiva do comitê de combate à pandemia do governo paulista, ele explicou que existe uma sequência de acontecimentos que demonstrariam um agravamento da situação.

“Como o período de incubação da doença é de cinco a oito dias, primeiro você teria um aumento constante do número de novos casos. Posteriormente, uma pressão no sistema de saúde, com o aumento do número de pessoas que precisam de atendimento médico. E, por último, o aumento no número de mortes, que se dá bem depois”, explicou.

Gabbardo, no entanto, considera que esse recorde de novos casos de covid-19 registrado hoje é decorrente do aumento da testagem e não de um agravamento da pandemia. Dados do comitê mostram que 70% dos novos casos estão ativos – são de pessoas que podem transmitir a doença.

Como a RBA mostrou ontem, a reabertura do comércio implementada pelo governo Doria completou um mês acumulando retrocessos, com muitas regiões voltando a ter medidas de isolamento mais restritas. No início da abertura, três regiões estavam em restrição máxima. Atualmente, são nove, com 306 cidades na fase 1-vermelha. Além disso, o estado registrou aumento de 155% nos casos e 92% nas mortes. E hoje, além do recorde de novos casos de covid-19, o estado acumula 302.179 casos confirmados e 15.351 mortes.

O secretário da Saúde, José Henrique Germann, afirmou que o governo Doria prevê que São Paulo chegará a até 470 mil casos confirmados e 18 mil mortes até o dia 15 de julho. Os números representariam um aumento de aproximadamente 56% nos casos e 18% nas mortes nas próximas duas semanas.

Apesar dessa situação, o governo Doria trata a reabertura do comércio como um caso de sucesso. Tanto que hoje a secretária de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen, anunciou um afrouxamento das regras do Plano São Paulo, para atender pedidos de prefeitos e empresários.

Cidades que estão na fase 3-laranja, em que o comércio só pode abrir por quatro horas diárias, passarão a poder abrir seis horas por dia, limitando a abertura a quatro dias por semana. Além disso, segundo a secretária, outras alterações estão sendo estudadas e serão anunciadas na próxima terça-feira (7).

Aumento de mortes naturais

Levantamento feito pelo médico epidemiologista e professor titular da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Lotufo mostra que houve aumento de 40% nas mortes por causas naturais no estado de São Paulo, no período de 1º de março a 30 de junho, em relação a igual período de 2019. Destas, 70% foram casos confirmados de covid-19.

Para Gabbardo, os dados derrubam o mito de que muitas mortes ocorridas por outras causas estariam sendo registradas como covid-19, inflando os números. “O número de mortes por causas naturais está muito acima de qualquer estimativa relativa aos anos anteriores”, ressaltou.

Apesar disso, São Paulo registrou crescimento nessas mortes significativamente menor que outras metrópoles. Levantamento feito pelo jornal britânico Financial Times mostra que Lima, no Peru, teve aumento de 289% nas mortes naturais em meio à pandemia. Em Nova York, o aumento chegou a 231%. No Brasil, os dados de Manaus, que sofreu colapso no sistema de saúde e no serviço funerário, mostram aumento de 152%.

Edição: Fábio M. Michel


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