Logística bolsonarista

Quase 10 milhões de testes para a covid-19 estão parados no Ministério da Saúde por falta de insumo

Governo Bolsonaro comprou lotes de exame sem ter a garantia de que haveria reagentes específicos para processar as amostras, que agora estão paradas nos estoques da pasta

Leopoldo Silva/Ag. Senado
"Está faltando só competência. Falta só disposição do Estado para distribuir, coletar e processar", avalia professor de Saúde Pública da USP sobre ministério, agora ocupado por militares

São Paulo – Considerado um dos países com os menores índices de teste para a covid-19, o Brasil tem 9,85 milhões de amostras de exames que estão paradas no estoque do Ministério da Saúde. De acordo com a pasta, faltam insumos usados em laboratórios para processar as amostras dos pacientes. Isso porque o governo Bolsonaro comprou todos esses lotes sem ter a garantia de que haveria os reagentes específicos para processar os exames. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

O número de testes encalhados hoje é quase o dobro dos cerca de 5 milhões de unidades entregues até agora a estados e municípios. A partir de documentos internos do ministério, a reportagem observou que os exames estocados são do tipo PT-PCR. Esse tipo de teste é considerado “padrão-ouro” para diagnosticar a doença causada pelo novo coronavírus. 

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) confirma que os insumos são indispensáveis para a realização dos exames. Mesmo assim, segundo os secretários, estes produtos não são entregues “com regularidade” pela pasta.

Com mais de 2,5 milhões de infectados e 90.134 vidas perdidas, o Brasil é o segundo país mais afetado no mundo pelo vírus, atrás somente dos Estados Unidos. Mas, diferente dos estadunidenses, que realizam cerca de 120 testes para cada positivo, este índice não chega a quatro exames para cada positivo no Brasil. Ao mesmo tempo, os estados têm locais de armazenamento lotados com os testes recebidos. Mas que também estão parados à espera dos demais produtos, como mostra o Estadão

“Agora está faltando só competência. Falta só disposição do Estado para distribuir, coletar e processar”, avalia à reportagem o professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Gonzalo Vecina, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

Militarização na saúde 

O Ministério da Saúde alegou ter tido “dificuldades para encontrar os reagentes no mercado internacional. Mas que está estabilizando a distribuição conforme recebe importações de fornecedores”. Na falta de testes, enquanto isso, o país têm uma alta cada vez maior no número de casos sem o diagnóstico adequado.

O ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello, contudo, vem minimizando a baixa testagem, argumentando que é preciso “ter o diagnóstico médico para dizer que é coronavírus”. A declaração polêmica vem acompanhada ainda de uma série de outras medidas que são tomadas por ele desde que assumiu a pasta, em 15 de junho.

Entre elas, a militarização do ministério. Pazuello, embora interino, vem mexendo na estrutura da pasta em meio à maior emergência sanitária do país. Mais de 20 postos são agora ocupados por militares da ativa e da reserva, até mesmo por filhas de generais e amigos de confiança. De acordo com ele, experiência na área de saúde não é um pré-requisito para ocupar o ministério. 

Mortes não mobilizam defesa da pátria

Pazuello também é um dos responsáveis pela tentativa de mudar os critérios de divulgação dos dados sobre a pandemia. Além de transformar o Sistema Único de Saúde (SUS) em um mero receptador de toneladas de cloroquina – remédio sem comprovação científica contra a covid-19 produzido pelo Exército.

Bolsonaro, no entanto, continua afirmando que ele permanecerá interinamente por um “um bom tempo” no ministério. A médica sanitarista Ligia Bahia, professora de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), define esse momento do país no jornal O Globo: “‘Enfrentamento’, ‘controle’ e ‘campanha’, metáforas de guerra, adotadas pela ciência para delinear estratégias de ação durante a pandemia, perderam significado para quem impávido assiste o país perder vidas”.


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