Covid-19

Falta de coordenação federal da pandemia pune mais o Norte e Nordeste

Vírus que chegou por aeroportos e circula livre pela extensa malha viária e hidroviária, ganha espaço em regiões com déficit histórico de investimentos

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São Paulo – Das capitais brasileiras, Manaus foi a que mais vem sofrendo com a covid-19. Teve o sistema de saúde em colapso, taxa de ocupação de leitos em 96%, contêineres frigoríficos instalados em diversas unidades e a sobrecarga no serviço funerário. Mas segundo dados do governo estadual divulgados nesta quinta-feira (4), até a véspera não haviam sido registradas novas internações pela doença em todo o estado, que contabiliza mais de 46,4 mil doentes confirmados e mais de 2,1 mil mortes. Desse total, 19.962 na capital e 26.511 do interior.

A tímida diminuição dos casos, porém, não significa que tudo está sob controle, pelo contrário: a flexibilização das medidas de isolamento e a reabertura gradual do comércio tendem a ampliar ainda mais a transmissão do vírus e trazer uma segunda onda de contaminação e aumento dos casos de covid-19, conforme temem epidemiologistas.

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A situação da pandemia é complicada também nos demais estados da região. Em Roraima, por exemplo, são 3.850 casos confirmados, com 120 mortes e outras 26 sob investigação. Há pelo menos 193 pessoas internadas em um hospital geral na capital, Boa Vista.

O Acre já tem mais de 7.020 infectados e 181 mortos. A taxa média de ocupação de leitos de UTI é de 82,6% em todo o estado, mas há regiões que chega a 94,4%. Por isso o isolamento social está mantido no estado até o dia 15 deste mês, pelo menos. No Amapá foram registradas mais de 11,5 mil infectados e 254 mortos. Segundo boletim do governo estadual, mais de 440 testaram positivo. A maioria dos leitos estão em Macapá e os do interior só recentemente começaram a receber respiradores. Na última terça-feira (2), o isolamento foi afrouxado no estado.

“O Norte tem curva de casos crescendo. Embora a mídia não dê destaque, no Acre o serviço de saúde está colapsando. Ninguém fala do Amapá, com 99% de taxa de ocupação. Estamos na curva ascendente”, disse hoje (5) em entrevista ao Uol o neurocientista Miguel Nicolelis, coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste. Assista vídeo no final da reportagem.

Tragédia

De acordo com ele, há dados promissores de estabilização do contágio em São Luís e em Fortaleza, onde o número de óbitos estacionou e o de casos e a procura pelas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) começaram a cair. Já na região metropolitana de João Pessoa, os prefeitos “trancaram tudo”. Algo semelhante está acontecendo no Rio Grande do Norte, onde a taxa de ocupação aumentou de 86% para 91%. Em Natal, faltam vagas em hospitais públicos devido a falta de equipamentos e de profissionais.

“O momento é de sincronizar as políticas de isolamento no país. Mas se tranca em um lugar e não se tranca em outro. Em São Paulo a curva não está acelerada como no começo, mas está subindo. E querem flexibilizar o isolamento. E sem querer ser alarmista, a reabertura nesse momento pode levar a uma tragédia”, disse Nicolelis.

No último dia 28, o Instituto Aggeu Magalhães, vinculado à Fiocruz em Pernambuco, divulgou dados que indicam maior aceleração da covid-19 em estados do Norte e Nordeste. De acordo com o epidemiologista Wayner Vieira, que comparou números da plataforma Covid-19 no Mundo, no Brasil e em Pernambuco, da Secretaria de Planejamento e Gestão de Pernambuco, 13 estados situados nessas regiões tiveram crescimento na taxa de casos por milhão de habitantes superior ao da média brasileira, de sete vezes.

Em maio, esse crescimento foi de 49,8% em Tocantins e 47,8% em Sergipe. Em Alagoas, Pará e Paraíba foi de mais de 20 vezes, enquanto Roraima, Piauí, Acre, Maranhão, Amazonas e Amapá cresceram mais de 10 vezes e Bahia, Roraima, Ceará e Pernambuco viram a taxa ser multiplicada por 9. O Rio Grande do Norte foi o único estado nordestino abaixo desse número, com 6,6.

Vieira, que comparou os números sem analisar as causas, avalia que os dados encontrados apontam para algumas coincidências. “Há uma lacuna histórica de investimentos sociais e de infraestrutura nessas regiões. Tanto que nesses estados estão os menores índices de desenvolvimento humano (IDH)”, disse à RBA.

Mortalidade

A hipótese converge em parte com a conclusão de um estudo do epidemiologista Jessem Orellana, pesquisador do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia). Ao analisar dados de mortalidade do período de 15 de março a 25 de abril fornecidos pela Central de Informações do Registro Civil (CRC) Nacional e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), concluiu que a desigualdade social e fragilidade das políticas públicas e dos serviços estão por trás da alta mortalidade de saúde na capital e municípios vizinhos.

O alarmante e inédito aumento do número de mortes, inclusive em casa e nas ruas, que multiplicou por três o número diário de sepultamentos, coincidiu com o colapso da rede pública hospitalar. Ou seja, a consolidação de uma crise sócio-sanitária sem precedentes.

Conforme lembrou, em meio a tudo isso, de maneira atabalhoada, foram enviados profissionais de saúde e ventiladores a Manaus – o que não é suficiente, já que não são tomadas medidas para evitar que mais pessoas continuem a adoecer.

“Em suas entrevistas espalhafatosas, o ex-ministro da Saúde (Luiz Henrique) Mandetta dizia que o pico da pandemia no Brasil seria em abril, que era desnecessário testagem em massa. O governo transferiu toda a responsabilidade para a população, mas não transferiu renda para melhorar o isolamento, e a curva não parou de subir”, disse Jessem à RBA.

Algo terrível

Situação inédita no mundo, a ausência de coordenação nacional da pandemia pelo governo federal é apontada como “algo terrível” por Nicolelis. Sem fechar o espaço aéreo – a questão foi discutida tarde demais pelo então ministro da Justiça Sergio Moro, quando muitos turistas infectados já estavam na costa brasileira – o governo não interferiu para controlar o fluxo no extenso ramo rodoviário nacional.

“O país está integrado por corredores. Pelo oeste de São Paulo é possível descer pelo Paraná e pelo oeste de Santa Catarina chega-se ao Rio Grande do Sul. Recife, que tem o maior aeroporto do Nordeste, se liga com Feira de Santana, que se interliga com o Centro Oeste. Pela Belém-Brasília também espalha-se o vírus. É possível saber por onde acontece a contaminação. Mas sem uma política nacional, isso não se resolve”, disse.

Nesta que é a maior tragédia da história do país, segundo ele, não há guerra sendo travada contra o novo coronavírus e muito menos um quartel-general. “É uma briga difícil. Os estados não recebem apoio financeiro, logístico e nem uma mensagem centralizada. Todo país que teve uma mensagem centralizada se deu bem no combate à covid-19”.

Assista entrevista com Miguel Nicolelis: