desigual e cruel

Enquanto São Paulo reabre comércio, mortes pela covid-19 na periferia não param de crescer

Os 20 distritos mais pobres da capital paulista respondem por quase 30% das mortes ocorridas desde 17 de abril e acumulam 2.127 óbitos

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Abertura de covas no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, o maior da América Latina

São Paulo – As mortes causadas pela covid-19 nos distritos mais pobres da capital paulista seguem crescendo em ritmo acelerado e deveriam ser razão suficiente para barrar a proposta de reabertura do comércio na cidade, como anunciou o prefeito Bruno Covas (PSDB), sob justificativa de que a situação está sob controle. Os 20 distritos mais pobres registraram crescimento de 348% nas mortes pela infecção entre 17 de abril e 27 de maio, partindo de 474 para 2.127 óbitos. Este número representa 28,4% do total de mortes registradas na cidade no período, segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde obtidos pela RBA.

As piores situações seguem sendo as dos distritos de Brasilândia, na zona norte, com 209 mortes, e Sapopemba, na zona leste, com 205. A zona sul teve crescimento significativo, com vários distritos superando os 100 óbitos no período: Grajaú (183), Capão Redondo (163), Jardim São Luís (157), Jardim Ângela (156), Cidade Ademar (151), Jabaquara (123) e Capela do Socorro (110).

Na zona leste, que tem o maior número de mortes, sete distritos registram mais de 100, além de Sapopemba: Itaquera (139), Cidade Tiradentes (131), Itaim Paulista (122), São Mateus (121), Cangaíba (106), Jardim Helena (103) e Lajeado (102).

Na zona norte, além da Brasilândia, ultrapassaram as 100 mortes dos distritos: Tremembé (149), Cachoeirinha (140), Freguesia do Ó (124), Vila Medeiros (106), Pirituba (105) e Jaraguá (101).

Um dos agravantes para o enfrentamento da pandemia na periferia é a que eles possuem menos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com um máximo de oito para cada 100 mil habitantes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 30 para cada 100 mil. Na capital paulista, 60% dos leitos de UTI estão concentrados em três distritos: Sé, Vila Mariana e Pinheiros.

Já nos 20 distritos mais ricos da cidade, o total de mortes chegou a 1.062, em 27 de maio. Ou 14,3% do total ocorrido no município. Nenhum desses distritos, no entanto, chegou a 100 mortes, com a região oeste, onde o primeiro caso de covid-19 foi confirmado, tendo menos casos que as demais. Santana, com 92 mortes, Saúde, com 83, Vila Mariana (79), Tatuapé (77), e Santa Cecília (71 óbitos) são os que registram mais casos.

No sábado (30), a capital paulista registrava 8.252 mortes em casos suspeitos ou confirmados. Eram 2.040 pacientes internados, sendo 767 em UTIs. A taxa de ocupação de UTI chegava a 84%.

Lockdown

Para o ex-ministro da Saúde e médico sanitarista Arthur Chioro, a situação mostra a consolidação de uma “periferização” da covid-19. Para ele, o grande desafio agora é conseguir efetivar o isolamento das pessoas contaminadas assintomáticas ou sintomas leves, que podem espalhar ainda mais a pandemia. “Nesse momento, (o mais preocupante é) a inexistência de centros de isolamento para pessoas infectadas, que vivem em situações precárias, poderem ficar esses catorze dias, à semelhança do que foi organizado na favela de Paraisópolis, por exemplo, é gritante”, afirmou.

Chioro considera urgente a decretação de lockdown em São Paulo, mas sem esses espaços de isolamento, a medida já não seria tão efetiva.

“Se não associar estas medidas de ampliação do isolamento – como o lockdown – com a criação desses centros de isolamento, para as pessoas que vivem em situações precárias, que é imensa maioria da população paulistana, nós não teremos sucesso no controle da transmissão de casos. Porque as pessoas infectadas, mesmo com sintomatologia leve, voltam para suas casas e ficam sendo transmissíveis durante até 14 dias e não têm como fazer isolamento. As situações econômicas, sociais, de moradia, são determinantes tanto quanto o processo de lockdown”, afirmou.


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