Doença e poder

A meningite censurada dos anos 1970 e a covid: diferentes, mas com fatores sociais em comum

Professora e pesquisadora lembra da epidemia dos anos 1970, censurada pela ditadura. Ela considera a situação atual muito mais grave, critica a atuação das autoridades e ressalta a importância do SUS

Reprodução/Governo SP (Fotos Públicas)/Lucas Pedretti
Nos anos 1970, casos de meningite se concentravam no Emílio Ribas. Situação atual é tida como mais grave e desafiadora. Durante a ditadura, governo censurou noticiário

São Paulo – A professora Rita Barradas Barata, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, cursava o quarto ano da graduação, em 1973, quando trabalhou na coleta de dados para uma pesquisa epidemiológica sobre a epidemia de meningite que atingia a região. Vem daí seu interesse pelo tema, que entre atividades acadêmicas e profissionais resultou na obra O livro da meningite – Uma doença sob a luz da cidade (Segmento Farma, 2004), com o também médico José Cássio de Moraes e a escritora e roteirista Cristina Fonseca.

É um trabalho que não apenas disseca as epidemias de meningite que atingiram São Paulo no século passado, em especial nos anos 1970, mas radiografa as condições de vida na metrópole. O livro, nesse sentido, preserva a memória. “Existe uma relação direta entre doença e poder. E, mais precisamente, entre classe social, doenças e poder”, afirma Cristina na introdução. Há um fator comum nessas crises, de raiz econômica e social.

O governo ditatorial da época, que conta com a simpatia do atual, passou parte do tempo simplesmente proibindo notícias sobre a epidemia de meningite. Uma situação que foi se tornando insustentável, do ponto de vista da saúde pública.

Desmando total

“Com relação à epidemia de doença meningocócica, enquanto a população infectada se alastrava pela cidade e morria, num desmando total e durante a maior parte do tempo, as autoridades recusaram-se a fornecer dados exatos a respeito de sua magnitude”, afirmam os autores no livros. “Quando a simples recusa de informações não era mais um mecanismo eficaz para impedir o acesso da imprensa aos dados, sob o olhar alarmado dos médicos diante de tal situação, passou a haver censura prévia aos meios de comunicação, invocando-se na defesa dessa medida a ‘segurança nacional’.”

Alguns fatores contribuíram para que as autoridades tivessem que ceder, resultando em um processo de vacinação em massa. A própria extensão da epidemia dificultava a ação da censura. Além disso, a mudança do general-presidente de turno em 1974, de Emílio Garrastazu Médici para Ernesto Geisel, começou, aos poucos, a mudar a situação. Mas os autores do livro lembram que os boletins diários da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo eram enviados ao Serviço Nacional de Informações (SNI), que repassava os documentos a Geisel.

Recentemente, o pesquisador Lucas Pedretti – que atuou como assessor na Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro e integra o Núcleo de Memória e Direitos Humanos do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE), da Federal daquele estado (UFRJ) – trouxe a público um documento revelador do período. Em telegrama de 1974, o diretor-geral da Polícia Federal, coronel Moacyr Coelho, explicita a proibição de notícias sobre meningite (confira na imagem que acompanha esta matéria). Diretor da PF de 1974 a 1985, ele morreu no ano passado.

Crianças e ossadas

A descoberta de uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus, zona noroeste de São Paulo, em 1990, despertou várias dúvidas, além da provável presença de ossadas de militantes políticos entre o material encontrado. Como havia várias ossadas de crianças, especulou-se que poderia haver também vítimas da meningite. Mas o professor Edson Teles, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que acompanha a situação das ossadas, lembra que “não há comprovação” de que isso tenha ocorrido.

A professora Rita, da Santa Casa, recorda de casos considerados muito graves, em que ocorria a chamada a meningococcemia, a forma septcêmica da doença. “As crianças adoeciam e morriam em poucas horas. Esses casos eram muito dramáticos”, lembra.

Situação atual é mais grave

Ela observa, no entanto, que havia recursos diagnósticos disponíveis e tratamento “bastante eficaz” com antibióticos. “Então, se as pessoas conseguiam ser atendidas a tempo elas podiam esperar uma recuperação em 90% dos casos. Para a maioria dos pacientes a recuperação já era visível no segundo ou terceiro dia de internação.”

A pesquisadora faz distinção entre os fatores que desencadearam a epidemia de meningite nos anos 1970 (entre outras) e a crise atual. Mas observa que “a situação atual é incomparavelmente mais grave e o mundo se mostrou muito menos preparado na medida em que as agências de saúde pública, de um modo geral, estavam sucateadas e despreparadas para o desafio”.

A professora e pesquisadora Rita Barradas Barata (Foto: Marcus Vilela/Abrasco)

A pior situação, avalia, vem do governo federal, “que adota uma postura negacionista, anticientífica, autoritária e, além de tudo, de confrontação com a parcela da sociedade que detém o conhecimento necessário para o enfrentamento da pandemia”. E, apesar das dificuldades, ressalta a importância de o país contar agora com um sistema único (SUS). “No caso da covid, chegamos a ter em uma única semana o número de casos que tivemos durante todo o ano de 1974 para a doença meningocócica. Então, sem o sistema único de saúde, certamente nossa situação seria tão grave quanto a dos Estados Unidos.”

Antes de entrar na questão da saúde, gostaria de saber se é possível comparar a atuação do governo daquele período (meningite) e do atual. A sra. já falou que, apesar da ditadura, os governantes da época não ousavam desafiar o conhecimento científico e médico…

Nesse sentido, como avalia a atual política brasileira para o gerenciamento da crise? Entre outros problemas, dois ministros da Saúde deixaram o cargo em curto intervalo, por divergências internas no governo e desacordo em relação às medidas a serem implementadas.

Creio que de um modo geral o gerenciamento da crise no país está bastante mal em todas as instâncias de governo: municipal, estadual e federal. Mas, sem sombra de dúvida, a pior atuação é a federal. Evidentemente, por se tratar de uma nova doença a preparação para enfrentá-la foi razoavelmente precária em todo o mundo. No nosso caso, creio que há nítidos sinais e sintomas de má condução. Um governo federal que adota uma postura negacionista, anticientífica, autoritária, e além de tudo de confrontação com a parcela da sociedade que detém o conhecimento necessário para o enfrentamento da pandemia, define o pior dos cenários.

No âmbito estadual, aqui em São Paulo, apesar de o governador tentar se mostrar como o defensor da ciência e da saúde, nós que somos da área sabemos que não é bem assim. Ele em pouco tempo de governo destruiu estruturas centenárias de saúde pública no estado: a Sucen (Superintendência de Controle de Endemias), o Instituto Pasteur, a Fundação Oncocentro, a Furp (Fundação para o Remédio Popular).

No comitê de crise, até onde sei, não há epidemiologistas com experiência em epidemias. É fácil fazer um contraponto ao desempenho grotesco do nível federal, mas a atuação aqui também não é das melhores. Há apenas um aspecto positivo no município e no estado, que foi a preocupação em ampliar a capacidade de atendimento aos doentes que necessitam de internação e de cuidados intensivos. Quanto às questões epidemiológicas, os governos parecem colocar todas as fichas no distanciamento social como se ele, por si só, fosse capaz de resolver o problema. Há pouquíssimo, se algum, investimento na vigilância epidemiológica.

Como pesquisadora e residente, testemunhou muitos casos extremos durante aqueles anos?

A doença meningocócica é uma doença bastante grave. Havia, no entanto, uma vantagem que era a disponibilidade de recursos diagnósticos e um tratamento bastante eficaz com antibióticos. Então, se as pessoas conseguiam ser atendidas a tempo elas podiam esperar uma recuperação em 90% dos casos. Para a maioria dos pacientes a recuperação já era visível no segundo ou terceiro dia de internação.

Os casos extremamente graves eram aqueles em que ocorria a meningococcemia, que é a forma septicêmica, na qual as crianças adoeciam e morriam em poucas horas. Esses casos eram muito dramáticos. Naquela época não tínhamos leitos de UTI no Hospital Emílio Ribas.

Do ponto de vista sanitário, é possível estabelecer alguma comparação entre a epidemia de meningite nos anos 1970 e a pandemia de covid-19 dos tempos atuais?

As epidemias de doença meningocócica ocorriam em São Paulo desde o início do século 20, embora nenhuma tenha tido a magnitude daquela que ocorreu na década de 1970. Quais eram as circunstâncias que favoreceram aquela epidemia? Foram várias, mas as mais relevantes poderiam ser elencadas como econômico-sociais: apesar do chamado milagre brasileiro, a economia crescia, mas a população estava bastante empobrecida. A situação de pleno emprego era contrabalançada por um enorme arrocho salarial e um desgaste enorme das classes trabalhadoras. Ou seja, os trabalhadores não ganhavam o suficiente para repor as perdas energéticas do trabalho habitualmente estendido em jornadas acima de 8 horas diárias. As condições de moradia e transporte eram ruins e tudo isso facilitava a instalação e disseminação da doença.

Por outro lado, a população de jovens e adultos apresentava alguma imunidade pelo fato da doença meningocócica ocorrer de forma endêmica na cidade, ou seja, a cada ano ocorriam cerca de três casos por 100 mil habitantes.

No caso da pandemia pela covid-19, a crise do capitalismo financeiro que afetou todas as políticas públicas de bem-estar social nos países de renda alta e média alta e aumentou profundamente as desigualdades sociais também fornece as condições favoráveis para o surgimento e disseminação de uma doença emergente. O processo acelerado de urbanização nos países da Ásia e da África, intensificado nos últimos 40 anos também é um processo importante e facilitador de doenças de transmissão respiratória. O convívio com animais silvestres, seja por razões econômicas ou recreativas, facilita a adaptação de vírus desses animais para os humanos. E as viagens aéreas encurtam os tempos de disseminação entre áreas epidêmicas e as demais áreas. O fato de toda a população ser suscetível é outro aspecto importante e bastante diferente nesse caso.

Resumidamente, embora existam alguns pontos que se assemelham, a situação atual é incomparavelmente mais grave e o mundo se mostrou muito menos preparado na medida em que as agências de saúde pública, de um modo geral, estavam sucateadas e despreparadas para o desafio.

Há alguma semelhança, por exemplo, quanto à incidência por região da cidade de São Paulo ou grupos sociais?

Ainda não é possível dizer nada disso. Temos apenas indícios indiretos de que os grupos mais marginalizados parecem estar sendo desproporcionalmente mais afetados, mas como não conhecemos realmente a incidência e a distribuição dos casos não dá para afirmar nada nesse sentido, que não seja meramente especulativo. Em epidemiologia precisamos trabalhar com taxas populacionais para comparar riscos. Não temos informações suficientes para analisar as desigualdades sociais. As proporções de óbitos por cor, ou local de residência não medem risco.

É preciso conhecer as populações que geraram aqueles casos para saber se efetivamente o risco é maior entre cada um dos grupos. Infelizmente como o raciocínio populacional é muito pouco desenvolvido entre os não epidemiologistas, as pessoas geralmente não têm condições de analisar dados de saúde corretamente. Por exemplo, é voz corrente no último mês que o Brasil é o atual epicentro da epidemia. Não é. O risco de ter a doença é muito maior nos Estados Unidos (mais que o dobro), no Peru e no Chile do que no Brasil, para mencionar apenas o continente americano.

O fato de hoje termos o SUS faz muita diferença? No caso de São Paulo, por exemplo, é possível imaginar o que seria se só tivéssemos o Emílio Ribas como hospital de referência?

Basta pensar no número diário de casos que necessitam de internação para saber que um único hospital não poderia dar conta do atendimento. No caso da covid, chegamos a ter em uma única semana o número de casos que tivemos durante todo o ano de 1974 para a doença meningocócica. Então, sem o Sistema Único de Saúde, certamente nossa situação seria tão grave quanto a dos Estados Unidos, que não tem sistema de saúde. As pessoas dependem dos planos de saúde privados, que geralmente requerem co-pagamento ou dos grandes prontos-socorros municipais, não havendo rede básica de atenção.

Aqui, a maioria dos casos leves e médios da covid estão sendo atendidos pelas unidades básicas de saúde e monitorados pelos profissionais desses serviços, desafogando os hospitais para que esses se concentrem nos pacientes com maior gravidade.

Se o SUS estivesse na situação de 10 anos atrás em que, pelo menos em São Paulo, o financiamento era mais substancial, regular e o estado dos hospitais públicos e da rede básica muito melhor do que a situação atual, talvez pudéssemos ter respondido melhor a essa emergência. Infelizmente a saúde, pouquíssimas vezes na história do nosso país, recebeu a atenção necessária.

Não sei se passada a emergência, as pessoas vão se conscientizar de que somente um sistema público de saúde bem organizado, equipado, com recursos humanos suficientemente remunerados e adequadamente treinados, dirigidos por sanitaristas, pode fazer frente a emergências como essa representada pela pandemia.