Christian Dunker

Bolsonaro e a negação do processo de luto a serviço da necropolítica

“Nossas autoridades simbólicas, em nível político e religioso, estão negando o processo de luto, a existência da pandemia. Isso favorece o individualismo”, aponta o psicanalista Christian Dunker

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"Todos os nossos recursos devem estar disponíveis para todos. Senão estamos falando de Auschwitz, de alguns que vão morrer em vez de outros", defende Christian Dunker

São Paulo – Com o crescimento no número de mortes em função da pandemia de covid-19 e os efeitos do isolamento social, o sofrimento psíquico das pessoas, de uma forma geral, tende a aumentar. Contudo, sem lideranças que reconheçam a gravidade da situação atual – tanto do ponto de vista discursivo quanto em termos de ações práticas –, o cenário para a saúde mental da população se torna ainda mais preocupante.

“As nossas autoridades simbólicas, não só em nível política, mas em nível religioso, estão negando o processo de luto, inclusive negando a existência
da própria pandemia. Isso não favorece a empatia, mas o individualismo: aqueles que estão com a nossa crença serão salvos; os que não estão, não nos interessamos por eles”, avalia o psicanalista e professor da USP Christian Dunker. “É um processo contrário à empatia que abre para algo que, na gente, quando estamos feridos pelo luto, é muito tentador: procurar culpados, transformar a perda em raiva de alguém.”

Para ele, trata-se de uma “instrumentalização dos afetos e sentimentos” que acaba desperdiçando o potencial de empatia e solidariedade que o coronavírus, ao equalizar todos diante da perspectiva da vulnerabilidade frente à doença, poderia trazer. Em entrevista a Marilu Cabañas e Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual, Dunker, que está lançando o livro A Arte da Quarentena para Principiantes, pela Boitempo Editorial, fala a respeito dos efeitos da necropolítica do governo Bolsonaro nas pessoas em tempos de pandemia. Confira abaixo os principais trechos.

A pandemia expõe nosso reflexo

Essa ideia de ser um reflexo da gente é pertinente, tanto o reflexo no sentido de expor essa política de “deixar morrer”, que existem vidas que são invisíveis e não precisamos nos ocupar do saneamento básico delas, elas não entram na conta de nossas políticas de desenvolvimento. Estão ali, deixadas ao seu próprio processo, como uma forma de desocupar o território, de desincumbir o Estado e os governantes de se ocuparem daquelas vidas. O filósofo camaronês Achille Mbembe mostrou como essa necropolítica vem de certos processos colonizatórios em que regiões da África eram isoladas, deixadas à própria sorte, para que depois pudessem ser reocupadas, com a chegada dos brancos europeus.

O processo da covid-19 acentua que temos uma despreocupação não concernente aos nossos limites, sendo ela mesma uma política, mas também mostra a fragilidade de nossa biopolítica. De como o processo de implantação do SUS foi parcial, como o repasse de verbas para ele foi precarizado, como não conseguimos nos organizar para estabelecer uma fila única, como temos uma disputa narcísica e inaceitável entre o presidente e seus ministros da Saúde. É um reflexo.

E um reflexo também, e falamos nesse livro, do processo de enfrentamento na saúde mental no país, de como esse mesmo sucateamento da saúde envolveu a saúde mental e a promoção de certas modalidades de sofrimento que agora também se tornam mais agudos por conta do processo da quarentena.


A sanidade mental é democrática. Não devemos reduzir ao sofrimento das classes mais baixas ser material e o das classes mais elevadas ser um sofrimento espiritual, moral… Isso é falso


A equalização do vírus

A experiência que estamos enfrentando vai mostrar que há pessoas com recursos muito diferentes, há uma distribuição desigual dos recursos para enfrentar esse inimigo comum que vem da natureza – não foi criado pela China ou pelos EUA, não é um ser encantado que usamos para culpar alguém pelo nosso infortúnio – mas, por outro lado, há um potencial de equalização nesse sofrimento. Claro que um tem mais acesso ao respirador do que o outro, mas quando ambos perdem o pai, o filho, ou se veem em uma situação limite de não ter o respirador, existe ali um processo de equalização diante dessa instância maior. De um lado, o vírus, e de outro lado, nossa vulnerabilidade e mortalidade.

Daí a importância de que, nesse momento, a gente respeite e entenda que os processos de luto fazem parte dessa equalização. São um tratamento para a nossa dor, para o nosso sofrimento, mas também um tratamento não material para a nossa desigualdade social, que coloca todos nós diante de uma mesma experiência. E, infelizmente, aí se torna mais inaceitável que o nosso presidente não faça as exéquias, um dos deveres mais fundamentais de todos os governantes.

A situação de guerra tem seu tempo de interrupção para que os combatentes possam enterrar seus mortos. Mas não sei o que acontece que nosso governo consegue se desfazer, rir, negar, associar esse processo de negação do luto com processos anteriores de negação do luto, como a gente tinha na ditadura militar. Isso indigna quem trabalha com saúde mental porque se sabe que a declaração oficial de luto, a bandeira a meio mastro, o respeito dos governantes faz parte do processo individual das pessoas que estão perdendo os seus entes queridos.

A estratégia da negação

As nossas autoridades simbólicas, não só em nível político, mas em nível religioso, estão negando o processo de luto, inclusive negando a existência da própria pandemia. Isso não favorece a empatia, mas o individualismo: aqueles que estão com a nossa crença serão salvos; os que não estão, não nos interessamos por eles. E isso é um processo contrário à empatia, que abre para algo que, na gente, quando estamos feridos pelo luto, é muito tentador: procurar culpados, transformar a perda em raiva de alguém. Isso é uma instrumentalização dos afetos e sentimentos muito contraproducente porque joga fora a potência de empatia e solidariedade e substitui isso por mais do mesmo. Mais produção de inimigos e segregação.

Precisamos cuidar para não transformar a perda em mais ressentimento, ódio e culpa. E aí reforço a coluna da Cida Bento hoje, dizendo que o nosso momento é o da fila única. Não dá para continuar com vagas em hospitais privados enquanto temos hospitais públicos saturados. É a própria situação de lógica de condomínio forçada a seu limite. Todos os nossos recursos devem estar disponíveis para todos. Senão estamos falando de Auschwitz, de alguns que vão morrer em vez de outros. E isto faz mal para a estratégia sanitária, de usarmos bem nossos recursos em níveis municipal, estadual e federal, e isso faz mal para o processo de elaboração e enfrentamento psíquico daqueles que vivem uma situação mais aguda.


A depressão afeta mais a população negra, mais as mulheres, os que estão fora de uma rede simbólica de suporte. A covid-19 tem trazido incremento de sofrimento para todo mundo


A República Tcheca começou o uso da máscara, mas com um discurso de usar a máscara para proteger o outro. Se você pensa primeiro no outro, todos nós conseguimos sair dessa. É a lógica anti-condomínio. Se você pensar primeiro em você, o que vai acontecer? Você vai ter respirador, mas não vai ter ambulância. Vai ter ambulância, mas não vai ter a medicação. Vai ter a medicação, mas não vai ter médico. Uma conta de fácil de fazer mas que infelizmente está sendo explorada por gente que trabalha na necropolítica e que nesse caso está exemplificada pela arte de lentificar os processos, criar falsas observações de burocracia, porque assim se gasta menos. Um governo que pensa assim não merece o nome de governo.

Incremento do sofrimento na pandemia

Muitos dizem, a classe média e alta tem condição de fazer frente à quarentena porque têm casa espaçosa, recursos acumulados, possibilidades de se virar. E, do outro lado, há pessoas vulneráveis porque dependem mais do trabalho ou estão em moradias que nem sempre são as mais salubres. A gente tem essa diferença, mas a sanidade mental, o que cada um faz com aquilo que lhe foi dado, é um pouco mais democrática e diversa que isso. Não devemos reduzir ao sofrimento das classes mais baixas ser material e o das classes mais elevadas ser um sofrimento espiritual, moral… Isso é falso.

A gente sabe que a depressão afeta mais a população negra, mais as mulheres do que os homens, aqueles que estão fora de uma rede simbólica de suporte. O que a covid-19 tem trazido é um incremento de sofrimento, para todo mundo. Um sofrimento psíquico que, se não é bem tratado, não acolhido, não posto em palavras, ou transformado em raiva e culpa, muito frequentemente evolui para sintomas.

Estamos contrariados em casa e em casa perdemos uma parte dos nossos laços sociais restauradores. Não conseguimos estar com o outro, abraçar o outro, ficamos privados da nossa sexualidade, isso tem efeitos. E isso faz com que a gente sofra mais.