Renato Janine

Coronavírus: por que a informação nem sempre afeta o comportamento?

Para o professor da USP e filósofo Renato Janine Ribeiro, muitas vezes as pessoas preferem confiar “no vizinho e não no médico”, buscando uma “solução miraculosa” para uma situação complexa

Reprodução/YouTube
"Se você estiver doente, você vai ao médico ou a um charlatão? Vai confiar no médico ou no vizinho?", questiona Janine Ribeiro

São Paulo – Em sua coluna na Rádio USP desta semana, o professor Renato Janine Ribeiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da universidade, falou sobre os porquês de muitas pessoas agirem como se estivéssemos em um cenário normal – a despeito da quantidade de informações circulando a respeito da pandemia de coronavírus e dos risco associados à covid-19,

“Nunca houve tanta informação como hoje em dia. Certamente a parte da população do mundo que está a par da pandemia, do risco de morte, do terror do coronavírus, é muito maior percentualmente do que qualquer proporção que tenha havido no passado de perigo semelhante”, destaca ele, lembrando que em “dois, três meses, essa informação se difundiu”.

Contudo, os dados disponíveis a respeito do coronavírus não transformaram o comportamento de parte da população. “Existe uma informação que não vira consciência”, pontua. “É um conhecimento que não afeta a ação.”

“As pessoas ouvem por parte de autoridades – e não estou falando de poder, mas sim de autoridades com conhecimento, cientistas, médicos, profissionais da área de saúde – e no entanto a conduta permanece a mesma, como se não fosse acontecer.”

Mas o que motivaria boa parte da população, que tem acesso à informação, a continuar querendo agir como se nada estivesse acontecendo?

Confiar no médico ou no vizinho?

“É claro que há uma campanha absolutamente incompreensível do presidente da República contra as medidas recomendadas por todas as organizações de saúde. E é claro que existem pessoas que se fiam nele, acreditando que ele tem razão. E isso recoloca nossa questão: por que confiar em um político e não em um médico? Se você estiver doente, você vai ao médico ou a um charlatão? Vai confiar no médico ou no vizinho? E talvez esteja aí o começo da resposta: muita gente vai ao vizinho.”

“É preciso um esforço próprio para sarar. Esse esforço pode significar ficar acamado, que não é um esforço físico, mas implica em privar-se de uma série de prazeres e ações, se alimentar de outra maneira, tomar remédios com certa frequência, seguir diretrizes, confiar em profissionais… E talvez haja pessoas que simplesmente não querem fazer esse esforço, preferem acreditar em uma solução miraculosa”, aponta Renato Janine RIbeiro.

O filósofo faz um paralelo com a questão da fé, em que se pode crer em algo mesmo com evidências em contrário, o que justificaria a busca por uma solução mágica. “O que é o milagre? está muito bem definido por um dos primeiros padres da Igreja: ‘creio porque é absurdo’. Essa é a definição que ele dá sobre a fé. A fé não é acreditar porque não é absurdo. Se não fosse absurdo, seria certeza, seria ciência.”

“É possível que tudo isso esteja jogando junto, que haja pessoas esperando uma solução miraculosa, por isso que quando falam em um remédio, até mesmo em um vermífugo de cachorro, o vizinho diz “ah, isso é capaz de resolver”, exemplifica. “O risco disso é gigantesco.”