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Em Manaus, colapso da saúde por aumento de casos de covid-19 já é realidade

Leitos disponíveis para tratamento já estão no limite e governo local culpa Bolsonaro. Presença de populações indígenas no estado aumenta o alerta

Marcio James/Secom
Prefeito de Manaus, Arthur Virgílio (PSDB) criticou severamente Bolsonaro, por desprezar alcance da pandemia e do distanciamento social como forma de conter a disseminação

São Paulo – Frente à pandemia de covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, o Amazonas vive dias de receio e é o primeiro estado do país a registrar o colapso do sistema de saúde, situação esperada também para outras unidades da federação nos próximos dias e semanas. Características da região, como grande presença de indígenas, deixam o cenário mais preocupante.

O estado é o quarto do país em números absolutos de infecções pelo coronavírus, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará. São 1.275 casos oficiais de covid-19 e 71 mortos. O Amazonas concentra quase a totalidade das UTIs na sua capital, Manaus, onde também estão a quase totalidade dos casos, por enquanto um total de 1.106 até o fim da tarde desta segunda-feira (13). As três esferas do Executivo – municipal, estadual e federal – não escondem que a situação é considerada alarmante.

Também hoje, o governador Wilson Lima (PSC) anunciou a contratação emergencial de 600 profissionais da saúde, depois de, no dia anterior, ter subido o tom na defesa do isolamento social. A baixa adesão da população às medidas de contensão do novo coronavírus aumentam os riscos na região.

Lima disse que o governo cogita adotar o chamado lockdown, uma quarentena radical, já adotada em locais como a Nova Zelândia, Nova York, Buenos Aires e Milão. “Eu não quero tomar essas medidas, mas vai chegar um momento em que o Estado vai ser obrigado a baixar um decreto e colocar todo mundo em quarentena. Respeitem o isolamento.”

O prefeito de Manaus também endureceu o discurso nos últimos dias. Arthur Virgílio Neto (PSDB) criticou severamente o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que vem tratando com desprezo a pandemia e a doença, que já deixa mais de 120 mil mortos no mundo. Bolsonaro vai contra autoridades de saúde do próprio governo e também contra o consenso global no combate ao novo coronavírus, e defende a não necessidade do isolamento social.

“As convocações que o presidente faz para as pessoas saírem do isolamento fortalecem o vírus, enfraquecem Manaus. O presidente Bolsonaro é, hoje, o principal aliado do vírus. Todos os que pensavam como ele no mundo mudaram de ideia. As pessoas estavam recolhidas às suas casas. Havia uma enorme calmaria. Quando o presidente Bolsonaro se contrapôs a isso, as pessoas começaram a tentar enxergar alguma lógica na posição dele”, disse o tucano.

Situação indígena

Preocupado com a disseminação do novo coronavírus entre indígenas, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou, na sexta-feira (10), a construção de um hospital de campanha em Manaus voltado para essa população “O histórico de vírus europeus com indígenas mostra que devemos estar preocupados”, disse, ao lembrar de morticínios históricos provocados por doenças como gripe e varíola entre indígenas.

Mandetta já alertou que mais estados devem passar pela situação de colapso de seus sistemas de saúde – público e privado – até o final do mês. O número de indígenas mortos pela covid-19, até hoje, é de cinco. Estão confirmados oito outros casos, além de 24 suspeitos. A subnotificação é realidade na capital amazonense, bem como em todo o país.