Evolução da pandemia

Coronavírus: infectologista acredita em ampliação do isolamento social

Evaldo Stanislau contesta possibilidade de distanciamento social seletivo diante do aumento de casos e da defasagem nos dados. “Beira uma irresponsabilidade criminosa”

Fernando Frazão/EBC
Médico do Hospital das Clínicas da USP alerta: "Isolamento seletivo não existe, não temos condições epidemiológicas, não temos condições tecnológicas e não temos recursos humanos suficientes"

São Paulo – O atual estágio da epidemia de coronavírus no Brasil deve ser visto com “preocupação”, avalia o médico infectologista Evaldo Stanislau Affonso de Araújo. Ele cita o crescimento no número de casos e a alta na letalidade, agora em 4,9%, registrados de segunda para terça-feira (7), quando o país contabilizou 114 novas mortes, totalizando 667 óbitos e 13.717 casos confirmados. 

O receio do infectologista leva em conta ainda a defasagem de dados com relação ao número real de casos de coronavírus, um problema que ocorre, em parte, por conta de um déficit nos testes e demora do diagnóstico. Ao Jornal Brasil Atual, Araújo conta que também aguarda há dias o prognóstico da doença, que já apresenta sintomas. 

“Se eu que sou médico estou passando por isso, você imagina o que está acontecendo Brasil afora. Vejo com muito preocupação porque são números que crescem e não aparecem. E me parece que estamos ainda muito longe do pico do problema”, afirma Araújo em entrevista aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria. 

O infectologista, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-USP), avalia a que estratégia do chamado distanciamento social seletivo “beira a irresponsabilidade criminosa”. Como reportado pela RBA nesta terça, o Boletim Epidemiológico 7, da Secretaria de Vigilância e Saúde, mostrou que municípios e estados onde o número de casos confirmados não tenha impactado em mais de 50% da capacidade instalada existente de leitos antes da pandemia poderiam adotar a estratégia, na qual apenas alguns grupos ficariam apartados, em contraposição ao isolamento geral para evitar o contágio do vírus. 

O ex-ministro da Saúde Arthur Chioro, em entrevista nesta terça-feira (7), chegou a contestar o documento, afirmando que não há nenhum critério técnico que permitiria flexibilizar o distanciamento social. Araújo concorda com a análise do ex-ministro, acrescentando ao problema a falta de “exames, números (oficiais) e leitos (em hospitais)”. “Se der errado, como evidentemente tudo aponta, se fizerem essa sandice (do isolamento seletivo), nós vamos ter um aumento tão grande de casos que a gente vai ter esses estados que eles dizem que ainda não atingiram 50% precisar de 300%”, ressalta. 

“É muito mais um desejo, um pensamento mágico, eles querem que seja assim, não um fato científico”, diz Chioro. “O Ministério da Saúde se contamina com um discurso político, com um pensamento mágico que vem de dirigentes políticos do Poder Executivo do Brasil.”

No final de março, a renomada instituição de ciência, tecnologia e medicina de Londres Imperial College publicou estudo mostrando que o isolamento social, tal como é feito hoje em São Paulo, poderia salvar até 1 milhão de brasileiros. De acordo com a instituição, mesmo que todas as medidas de mitigação, os países de médio a baixo desenvolvimento poderiam ter 25 vezes mais demanda por assistência do que a capacidade hospital instalada. 

Araújo observa que, a depender do andamento da pandemia, que ainda não atingiu seu pico, o país está mais perto da necessidade de ter um isolamento total mais rigoroso para controle da doença do que do seletivo, visando que os casos aconteçam dentro da capacidade de resposta do sistema de saúde. 

“O que se configura é que o número de casos deverá aumentar. Estamos vendo muito gente se infectando, sobretudo os profissionais da saúde e seus contactantes, a doença está se disseminando com alguma velocidade”, alerta. “E o isolamento seletivo não existe, não temos condições epidemiológicas, não temos condições tecnológicas e não temos recursos humanos suficientes para fazer vigilância dos contactantes”, diz o infectologista.

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