corpo e cérebro

Saúde mental: ‘Hora de arrumar a casa’, diz psicanalista

Em tempos de isolamento, as pessoas devem estar abertas para ouvir as angústias e temores do outro, afirma Cristian Dunker

Tatiana Ferro/Café Filosófico
Isolamento, medo e ansiedade: "É hora de se aproximar, escutar, oferecer companhia"

São Paulo – Segundo o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker, para combater a ansiedade e os riscos de depressão por conta do isolamento em função da pandemia de coronavírus, é importante criar práticas saudáveis, que estimulem o corpo e a mente. “É hora de arrumar a casa. De vez em quando a gente precisa descer aquelas caixas do armário, tirar o pó do cobertor” disse ele, metaforicamente.

Pelos meios eletrônicos, ele sugere realimentar os afetos com parentes e amigos, que acabam sendo deixados de lado por conta da correria do dia a dia, além de estabelecer uma rotina de atividades físicas e exercitar também a reflexão.

Dunker diz que, em situações como essas, as pessoas tendem a ter dois tipos de comportamento. Ou tentam negar a realidade, fugindo para um mundo de fantasias, ou se projetam na realidade, se expondo excessivamente aos fatos apresentados pelo noticiário. São reações normais, assim como também é o medo, e não devem ser menosprezadas.

“Em hipótese alguma, se deve desfazer do sofrimento daquela pessoa. Não tente minimizar, acusar histeria, nem desfazer daquela realidade psíquica em curso. É hora de se aproximar, escutar, oferecer companhia. A partir da conversa, do compartilhar das preocupações e temores, tentar acalmá-la e tranquilizá-la”, sugere Dunker, respondendo a perguntas dos ouvintes, em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, para o Jornal Brasil Atual, nesta quinta-feira (19).

Aproveitar o tempo

Ele lembra que a atividade física também é importante para afastar possíveis casos de ansiedade, e recomenda, por exemplo, a prática da ioga, que serve tanto para movimentar o corpo, quanto para acessar um outro estágio de concentração mental. Para o cérebro, ele sugere a leitura, “pois altera a nossa estrutura atencional”, diferentemente do que ocorre com a música ou um filme. “A experiência da leitura tira a pessoa para fora de si, mas num estado de reflexão ou viagem. É extremamente benéfico para compensar esse excesso de imersão.” Vale também revisitar velhos hobbies, brincar com os animais, cuidar das plantas.

Ele reforça também os cuidados com os idosos, que além de serem o grupo de risco para o coronavírus, também podem apresentar quadros depressivos. ” Jantem com seus pais, avós, bisavós. Isso pode ser feito na frente de uma tela de computador. Pode ser uma situação ideal para aqueles que ainda resistem ao uso da tecnologia possam se integrar a este universo”.