Boa causa

Projeto Psicologia Solidária atende voluntariamente profissionais de saúde

Mais de 700 profissionais de todo o Brasil se unem para atender trabalhadores que estão à frente do combate à pandemia do coronavírus

Pixabay

São Paulo – Horas ininterruptas de trabalho, falta de equipamentos de proteção, falta de leitos, medo do adoecimento, da morte, centenas de mortes. Os profissionais de saúde do Brasil que diariamente enfrentam uma série de desafios estão agora diante de um ainda maior: o combate ao coronavírus e manter a saúde mental, tão importante quanto cuidar da saúde física. Pensando nisso, cinco psicólogas, de São Paulo e do Rio de Janeiro, decidiram criar o projeto Psicologia Solidária.

“A possibilidade de ajudar as pessoas que estarão ajudando a gente foi nossa maior motivação”, conta a psicóloga Paula Caruso Lourenço. “Queremos acolher e trazer um pouco de conforto e estabilidade emocional a quem está na linha de frente do combate ao coronavírus, em meio ao caos vivido no país.”

A iniciativa foi da psicóloga Suenny Lohanna da Silva que comentou um grupo de profissionais sobre a ideia de disponibilizar uma escuta terapêutica para trabalhadores da área da saúde que estão trabalhando diretamente no atendimento a pacientes com sintomas do coronavírus.

Em cinco dias, mais de 700 psicólogos de todo o Brasil uniram-se ao projeto Psicologia Solidária. “Sabemos que é um trabalho difícil, que precisa de muita dedicação e acima de tudo a gente não pode romper a ética profissional. Estamos dispostos a ajudar da melhor forma que cada um de nós puder”, conta Paula.

Escuta terapêutica

Os 700 psicólogos estarão sob a supervisão de 30 supervisores clínicos a fim de que sejam cumpridas todas as exigências do código de ética profissional. Quem ingressa no projeto recebe o Manual de Orientações e Diretrizes e nota orientativa do Conselho Federal de Psicologia para nortear as ações neste período de isolamento social.

“A gente acredita que a grande questão que vai surgir, a maior demanda, é em relação à ansiedade, ao medo, ao desconhecido, não saber como vai ser o dia de amanhã”, avalia Paula Caruso. “Esses profissionais têm de lidar com essa doença tão contagiosa, depois voltar pra casa, encontrar seus familiares, sem saber se vão transmitir a doença para eles”, explica a neuropsicóloga, formada pela Universidade Católica de Santos em 1996.

“Vamos trabalhar com uma escuta terapêutica visando confortar esses trabalhadores da saúde e mostrar que se cada um puder fazer um pouco da sua parte e seguir todas as regras de segurança, higiene e saúde, as coisas vão se acertar, vão ficar bem. Acreditar que eles trabalhando em prol da comunidade, do mundo, eles serão recompensados de alguma forma. Da nossa parte queremos confortar e trazer para a sanidade mental e não para o desespero”

Como participar

Para participar do Projeto Psicologia Solidária basta fazer contato via redes sociais, por meio do psicologiasolidaria.covid19 . Vale tanto para quem quer ajudar no atendimento e para os profissionais médicos, enfermeiros, recepcionistas de hospitais e postos de saúde, pessoal da limpeza e da segurança das unidades. Em caso de dúvidas, os participantes do projeto respondem também pelo e-mail [email protected].

Os atendimentos da escuta terapêutica são realizados por vídeo-chamadas utilizando os aplicativos Skype ou WhatsApp. A duração é de aproximadamente 50 minutos.

“É um atendimento totalmente voluntário que vai durar até o fim da pandemia”, explica Paula.

Além dos trabalhadores das unidades de saúde que atuam no combate ao coronavírus, brasileiros que estejam fora do Brasil sem condições de retornar em decorrência da pandemia, também serão atendidos pelo projeto.

Há tempos a psicóloga Paula queria trabalhar como voluntária em questões que considera mais “delicadas”. A vontade surgiu em diferentes situações: na tragédia da boate Kiss; nos crimes ambientais de Mariana e Brumadinho.

“São situações diferentes, em que as pessoas estão preocupadas com as suas vidas”, avalia. “Mas esse é um momento da vida de todo mundo. E quando falo todo mundo é todo mundo mesmo, não só o Brasil.”