Pesquisa no Brasil

Por trás da descoberta do genoma do coronavírus, mulheres atuam em defesa da ciência

Pesquisadoras da USP lideram estudo feito em tempo recorde que ajuda a dar uma resposta à epidemia

Arquivo Pessoal/Ingra Morales Claro
Na Rádio Brasil Atual, Ester Sabino (centro) defende a ciência brasileira. "Sem investimentos não vai ter pesquisa e é um investimento que ter que ser contínuo"

São Paulo – Apenas 48 horas após a identificação do primeiro caso de coronavírus no Brasil, todo o genoma do vírus foi decifrado e sequenciado. O feito científico, que chamou atenção pela rapidez, diferentemente de países que demoraram bem mais, e é fruto do trabalho de uma equipe de 14 pessoas, composta, em sua maioria, por pesquisadoras.

No país em que as mulheres assinam 72% dos artigos científicos mas ainda estão em menor número como autoras (49%), quando comparadas com os homens, de acordo com dados da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), ainda causa surpresa às pessoas em geral o destaque feminino na ciência de ponta. “É um trabalho de um período longo e acho isso importante, e talvez seja uma característica das mulheres, de se organizar bem. Tem muito o que se fazer e se você não for organizada, as coisas não se encaminham”, pontua a professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Ester Sabino. 

Ester, primeira mulher a ter ocupado a direção do Instituto de Medicina Tropical da mesma instituição de ensino público e uma das cientistas responsáveis pelo sequenciamento, conversou nesta sexta-feira (6) com a jornalista Marilu Cabañas, da Rádio Brasil Atual. Ainda surpresa com a repercussão entre a população sobre o feito científico da equipe, conta que o feito só foi possível por conta de um trabalho coletivo.

“A gente já estava trabalhando em conjunto com o Instituto Adolfo Lutz para fazer o sequenciamento da dengue e quando a amostra (do coronavírus) chegou, estava tudo pronto para ser feito rapidamente, como foi. Queríamos entender melhor e aprimorar a fórmula de resposta à dengue, e isso serviu para o coronavírus, uma das primeiras epidemias em que se está conseguindo fazer rapidamente. Mesmo o pessoal falando ‘’ah, 15 dias (do vírus) fora (do país)’, isso também é muito rápido em relação às epidemias anteriores”, explica. 

O sequenciamento descoberto é fundamental para conhecer o genoma e a diversidade do vírus, algo importante tanto para o diagnóstico como para a formulação de vacinas e de respostas ao medicamento diante das mutações, de acordo com Ester. A pesquisadora ainda aponta que, em momentos críticos, quanto mais rápida a descoberta, mais fácil fica a vigilância e o trabalho de dar resposta à epidemia. 

Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e de um projeto do Reino Unido, a descoberta das cientistas também chama a atenção para a importância dos investimentos em pesquisa no país, hoje reféns de ataques do governo Bolsonaro e de cortes de verbas.

“Sem investimentos não vai ter pesquisa e é um investimento que precisa ser contínuo, porque de uma hora para outra, quando você para um tempo e volta de novo, você já está 10 anos atrás”, alerta a pesquisadora da USP, citando riscos relativos à formação dos cientistas. “É realmente um ponto chave, não tem como a gente escapar, para todas as áreas a pesquisa é necessária”, acrescenta. 

Novos casos de coronavírus 

Nesta sexta-feira (6), a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) da Bahia confirmou o primeiro caso de novo coronavírus no estado. O país tem agora, ao todo, nove casos confirmados – seis em São Paulo, um no Espírito Santo e um no Rio de Janeiro). 

Ester Sabino explica, no entanto, que não há motivo para pânico e que os cuidados devem ser mantidos.