Descompasso

‘Houve demora para medidas e isso se repete no Brasil’, diz brasileiro na Itália

O temor é de que o atraso nas medidas efetivas pelo governo Bolsonaro leve a uma situação semelhante à italiana, com 31.506 infectados e 2.503 mortos

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Enfermeiro retira vítima fatal do novo coronavírus de uma UTI em hospital no norte italiano

São Paulo – De um vilarejo tranquilo na região do Piemonte, norte da Itália, o brasileiro Rafael Leandro Kynskowo de Medeiros assiste preocupado à tragédia que se abate sobre o país desde o primeiro diagnóstico do novo Coronavírus, em fevereiro, em um hospital de Codogno, a 60 quilômetros de Milão. De lá para cá, o país se tornou o segundo com o maior número de casos. Já são 31.506 confirmados e 2.503 mortes, segundo o observatório do Centro de Pesquisas em Coronavírus do Hospital Johns Hopkins, nos Estados Unidos. A taxa de letalidade, porém é a maior de todas.

“Aqui não estamos enfrentando muito problema com essa proibição de deslocamento, porque já vivemos afastados mais de 40 quilômetros de uma cidade maior. Nem com abastecimento. Normalmente fazemos um mini-estoque de comida. E quando chegou essa proibição, só fizemos umas comprinhas básicas, nada muito grande, que deu conta já”, conta.

O problema, segundo relata, é em relação ao restante do país. “O bicho está pegando mesmo. Não está fácil não. Está previsto para o final de março o fim do bloqueio nas estradas, e começo de abril eles vão reavaliar, mas sei não. Acho que vai continuar tudo bloqueado. Porque o negócio está bem feio mesmo. Não tem como esse negócio parar tão rápido. Tá na ordem de 3 mil casos por dia. O negócio está bem impressionante. Morre muita gente por dia. Não está tranquilo não”, conta Rafael, serralheiro e praticante de diversos esportes que, segundo relata, buscou no norte da Itália, com sua esposa, um local tranquilo para viver, escalar, pedalar, comer bem e viver ao redor de pessoas acolhedoras como os italianos.

Recessão

“Até esse negócio todo acabar, e termos tranquilidade suficiente para sair na rua novamente e interagir com pessoas e entrar em lugares fechados, acho que vai demorar ainda. Nossa preocupação é bastante com recessão. Muita gente tá morrendo, inclusive que ocupa cargos importantes. Todo o comércio parado, indústria parada, pessoas sem receber salário. E sem receber salários, como pagar serviços?

Arquivo pessoal
Rafael, em vilarejo no Piemonte, norte da Itália: “Quando a gente ouvia sobre o que acontecia na China, achava que era histeria, que o pessoal estava surtando. Mas era falta de informação. A gente foi meio inocente nessa história. O governo aqui demorou para fechar tudo e estou vendo isso acontecer no Brasil. (Foto: arquivo pessoal)

Na opinião dele, o estímulo do governo italiano à economia é pouco debatido e há muita incerteza quanto à sua efetividade. “Eu tinha um trampo para começar agora. Mas fui avisado de que só voltaremos a conversar a respeito quando essa crise toda do coronavírus passar. ‘Depois eu te contrato. Agora não tem como’. Ele não pode contratar ninguém porque não tem como fazer o serviço”, relata Rafael.

O brasileiro, que tem familiares em São Bernardo, no ABC paulista, conta que seus pais são idosos e a irmã é asmática. “Embora a letalidade seja pequena, eles correm risco de morrer. Ou seja, metade da família pode morrer. O negócio é bem sinistro. E mesmo que não morra, uma pessoa saudável que pegue essa doença vai passar uns maus bocados, porque o cara fica destruído. Pelo menos umas três semanas a pessoa fica internada em UTI, depois se recupera, mas com custo bem alto. E é possível que fiquem sequelas no pulmão para o resto da vida”, diz.

Referindo-se à declaração do presidente Jair Bolsonaro à CNN Brasil no último domingo (15), de que as medidas mundiais para brecar o avanço do vírus são “histeria”, Rafael logo se lembra de como a infecção pelo vírus na China, em  dezembro, também foi vista na Itália. “No começo, quando a gente ouvia as coisas que aconteciam na China, achava que era histeria, que o pessoal estava surtando. Mas era falta de informação. Agora eu vejo que a gente foi meio inocente nessa história. E que o governo aqui não explicou muita coisa, demorou para fechar tudo (quarentena e fechamento de fronteiras) e estou vendo isso acontecer no Brasil. Tem muita gente aí no Brasil que pensa que é bobagem, que essa doença não é tão perigosa assim, que é só uma gripe. Já passei qual é a real para minha família. E se preparem, que o mundo inteiro vai entrar em uma recessão e o bicho vai pegar pra todo lado”.

Com a quarentena, mercado vazio no norte da Itália. Como em todo o mundo, a gôndola de álcool gel está vazia. (Foto: Rafael Leandro Kynskowo)

Medidas

A França é o sétimo país em número de casos, com 7.661, e o quinto em número de mortes: 148. A Alemanha, a quinta, com 10.082 casos confirmados, mas a 14ª em número de mortes, com 19.

Para o jornalista Flavio Aguiar, que vive em Berlim, a grande diferença na taxa de letalidade está associada às políticas adotadas pelos países. “Emmanuel Macron está tomando medidas mais centralizadas, o que no conjunto facilita algumas das medidas que estão sendo tomadas pelos diferentes governos.

Na Alemanha é diferente. Há um sistema bastante descentralizado, que dá liberdades às províncias, às municipalidades. Macron agiu com muito rigor e bastante rapidamente. Aqui na Alemanha as coisas aconteceram em um passo muito mais devagar. De um lado, essa pulverização no sistema de saúde permite um atendimento imediato, o que está se provando nesse caso ser muito eficaz”, comentou na Rádio Brasil Atual.

Por outro lado, segundo ele, essa pulverização dificultou a tomada de medidas em conjunto, ocasionando grande insegurança na população em relação ao abastecimento, por exemplo.

A corrida aos supermercados foi intensa. “Nos últimos dias, é difícil encontrar artigos de limpeza em geral, papel higiênico, para cozinha, muitas prateleiras vazias e supermercados pedindo desculpas por não conseguir atender. Vejo agora famílias inteiras com 2, 3 carrinhos abarrotados, levando aquilo que acham necessário para 10, 15 dias de isolamento”, disse.

A vida em Berlim, segundo ele, está “devagar quase parando”. “E a gente segue esse ritmo”, disse Flávio, que tem mais de 70 anos, é hipertenso e por isso está incluído no grupo de risco.

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