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Malte Spitz: ‘Empresas estão coletando nossos dados. Precisamos entender isso’

Escritor e ativista alemão alerta para os riscos que as pessoas correm na internet. Empresas e governos possuem detalhes impressionantes sobre a vida de cada cidadão que tem um celular no bolso
Publicado por Gabriel Valery, da RBA
09:51
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divulgação/pautapositiva
malte spitz

Spitz: ‘A todo momento existe vazamento de informações. É difícil de controlar’

São Paulo – “As pessoas precisam entender o que está acontecendo. Nem todas elas sabem que companhias estão coletando seus dados pela internet.” A avaliação é do escritor e ativista alemão Malte Spitz, que está no Brasil desde o dia 2 de maio para uma série de palestras, jornada que acaba hoje (7), no Rio de Janeiro. Notório por denunciar o uso de dados pessoais por empresas e pelo Estado, Spitz, que veio a convite da Fundação Heinrich Boll, aproveitou para conceder uma entrevista à RBA.

Membro do Partido Verde da Alemanha, Spitz processou, no início da década, a gigante de telecomunicações de seu país Deutsche Telekom. Após obter dados sobre seu celular, o ativista ficou espantado ao saber que a empresa tinha um relatório de sua vida praticamente minuto a minuto: onde esteve, por quanto tempo, fazendo o que e com quem.

Spitz defende a necessidade de regulamentação do setor, para evitar, especialmente, que tais empresas influenciem sua vida. No caso de governos autoritários, com acesso a tais tipos de dados, seria possível sua utilização para intimidação, inclusive. “Você pode ver, por exemplo, as conexões entre pessoas, identificar ativistas por meio de comunicações com grupos por chamadas e, deste modo, traçar perfis”, aponta.

As informações pessoais que circulam passam por diferentes níveis de complexidade, como o mais básico de metadados, que compreende informações como título de um e-mail, destinatário, entre outras. Empresas podem utilizar tais dados para estabelecer métricas e padrões. “São dados necessários para a manutenção dos canais de comunicação”, explica.

Ambiente vigiado

Embora estas informações iniciais básicas possam ser utilizadas, trata-se somente de uma pequena parte do tanto que pode ser coletado entre as quatro bilhões de pessoas no mundo têm acesso à internet. “Existem diferentes dados utilizados por companhias por meio de aplicativos de celulares, por exemplo. Elas pedem informações a todo tempo de geolocalização, acesso a fotos e, alguns, acesso a todo o sistema de armazenagem. A todo momento existe vazamento de informações. É difícil de controlar e complicado de saber quem está por trás”, explica.

Dos quatro bilhões de usuários da internet, três bilhões estão presentes em redes sociais tais como o Facebook, que enfrenta problemas com vazamento de dados pessoais e manipulação, interferindo, inclusive, em processos eleitorais. O presidente do Facebook, Mark Zuckerberg, chegou a depor no Congresso norte-americano sobre o tema. Recentemente, a empresa vem apontando novas diretrizes para suas redes sociais, que ainda incluem Instagram, Messenger e WhattsApp. A ideia é integrar tais sistemas e transformar as plataformas em espaços ainda mais pessoais. “Uma sala de estar”, na descrição do próprio Zuckerberg.

“Ele (Zuckerberg), vem demonstrando a intenção de interconectar as redes. Isso pode ter um efeito negativo imediato na questão da privacidade. Ao unificar ambientes, é possível criar um novo sistema de coleta de dados. Também, nem todos usuários de uma rede estão em outra. Então, não me parece uma boa situação, porque estão criando um sistema massivo de coleta de dados de forma unificada. Isso pode minar ainda mais nossa privacidade”, analisa Spitz, destacando que as informações fornecidas de forma mais personalizada podem “criar um arquivo mais detalhado e sensível das pessoas”.

O caminho de conexão absoluta parece inevitável. A sensibilidade dos dados coletados pode ser ainda maior com a ampliação da chamada “internet das coisas”, que pressupõe a conexão de objetos junto ao ambiente online. “Gadgets estarão coletando mais e mais informações completas sobre o nosso dia a dia”, explica.

“A ideia de internet das coisas traz o conceito da rede em todos os lugares como no seu quarto, conectado com seus aplicativos para ligar a luz. Estamos falando de informações do seu dia a dia, a percepção de quem está na sua casa regulando temperatura. Imagine sua geladeira mandando uma mensagem dizendo que está quase vazia e é hora de fazer compras. A internet das coisas cria esse ambiente onde não sabemos mais o que está online e o que não está”, completa.

Questão de segurança

Estar alheio à tecnologia não parece algo viável e, inclusive, pode não soar muito inteligente, e a conectividade pode trazer benefícios à sociabilidade. O importante, argumenta Spitz, é ter conhecimento sobre os sistemas e regulamentações, estabelecendo leis para garantir o bom desenvolvimento tecnológico. “É algo que precisamos falar para educar a sociedade sobre os impactos da digitalização da vida. Educação é importante, mas também precisamos de regulamentação. Empresas não podem fazer o que querem, todos devem respeitar os indivíduos. Isso passa pela questão da privacidade.”

Por fim, o ativista vê soluções no caminho de modelar a tecnologia, e não escapar dela. “Existem bons sentidos na digitalização, como traduções e comunicações, novas formas de democracia digital. Em geral, é um avanço positivo, mas precisamos moldar e dar direções corretas para esses avanços tecnológicos. Não é sobre escapar da tecnologia, mas sim sobre lutar por um mundo aberto onde nós moldamos o que precisamos e não somos moldados por grandes empresas.”

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