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Paola Carosella: ‘Precisamos de ações urgentes que se espalhem mais rápido que os pesticidas’

Para chef de cozinha, sem informações sobre agroquímicos 'estamos matando nossos filhos quando fazemos um suco de laranja'. Mas é possível 'fazer um suco sem espremer as pessoas junto, sem matá-las'
Publicado por Cida de Oliveira, da RBA
10:36
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reprodução/facebook
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‘É possível fazer um suco sem espremer as pessoas junto, ou matá-las. É possível e precisamos fazer isso urgente’, diz Paola

São Paulo – Famosa pela participação em programa na TV, a argentina radicada no Brasil Paola Carosella dispensa o título glamuroso de chef e vai direto ao ponto: “Sou cozinheira”. Conforme conta, na casa em que nasceu, nos arredores de Buenos Aires, havia uma horta. “Orgânico não era uma definição alternativa. Era a única coisa que existia. E não sou tao velha assim”, diz Paola, de 44 anos.

De la pra cá, tudo mudou muito rapidamente. “Hoje que sou conhecida e converso com as pessoas, digo que estamos comendo veneno; que estamos matando nossos filhos ao fazer um suco de laranja. Eu passo essa informação e a pessoa faz o quê?”, questiona, lembrando que, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), há cerca de 500 feiras orgânicas catalogadas em todo o país.

“É muito pouco. Precisamos de leis que facilitem sobretudo a agroecologia, a produção orgânica. Eu e muita gente que conheço queremos comprar produtos 100% orgânico e não temos como. Não tem carne orgânica.”

Para ela, há uma série de coisas que devem ser mudadas, especialmente a comunicação. “Temos de comunicar, passar para as pessoas o que elas têm de fazer. Não apenas apontar o dedo, mas ter ações amorosas porque a grana não vai deixar de ser a moeda de troca. Não vamos viver num mundo que não precisa de dinheiro, mas a ambição tem de ser menos desmedida. É possível fazer um suco sem espremer as pessoas junto, ou matá-las. É possível e precisamos fazer isso urgente.”

Paola participou da audiência pública realizada sexta-feira (12), em São Paulo, pelo mandato do deputado federal Nilto Tatto (PT-SP). O parlamentar integra a comissão especial que analisa o PL3.200/2015. Mais conhecido como PL do veneno, o projeto revoga os principais pontos da Lei dos Agrotóxicos em vigor, facilitando o registro de novos agroquímicos e afrouxando as regras e punições.

A chef que foi cozinhar para alunos na ocupação da Escola Estadual Fernão Dias, contrários à reorganização da rede imposta pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), se diz impressionada com tamanha desinformação. “As pessoas não sabem o que está acontecendo, chegam ao ponto de confundir integral (alimentos que não passam por processo de refino e por isso conservam seus nutrientes) com orgânicos (livres de venenos em sua produção).

A desinformação da população quanto aos perigos dos alimentos produzidos com utilização de agroquímicos e a importância da alimentação saudável, livre de venenos, segundo Paola, prevalece também nas classes mais favorecidas.

Restaurantes e hotéis de luxo, nos quais diferenças de preços de alimentos orgânicos seriam irrelevantes, em sua maioria continuam utilizando produtos carregados de agrotóxicos em sua produção.

“Fala-se que alimento orgânico é muito caro, elitista. Será? Eu conheço um monte de hotel cinco estrelas, restaurantes caríssimos, que não servem orgânicos. Existe, na verdade, uma negligência gigantesca por trás de tudo isso e falta informação”, acredita.

“O que a gente tem de fazer é educar amorosamente, ensinar a todos esses consumidores, nós todos, o que está acontecendo. E buscar leis que torne tudo isso mais claro. Eu tenho que saber o que tem por trás da abobrinha que eu compro”, afirma, ressaltando que, ao comprar um quilo de abobrinha, aparentemente “tão inocente quando comparada à batata frita de pacote”, na verdade, “já deixou de ser inocente. O abacaxi não é mais inocente, nem a cebola, e nem muita gente. É uma sacanagem você querer fazer uma salada e acabar sustentando outras coisas por trás, que a gente não sabe.”

Paola defende também a necessidade de educação da população em termos de nutrição. Conforme destacou, as pessoas precisam aprender sobre a importância da variedade de nutrientes à saúde. Hoje, a soja e o milho estão em praticamente todos os alimentos produzidos, empobrecendo-os do ponto de vista nutricional. E é justamente esses dois alimentos que têm as maiores lavouras transgênicas, cujos riscos à saúde e ao meio ambiente são grandes justamente pelo aumento do uso de agroquímicos nessas lavouras.

“Se eu como frango, como soja e milho; se tomo leite, lá estão a soja e o milho; se tomo um suco, estou tomando soja e milho.”

Apesar de todas essas dificuldades, Paola se considera otimista. “Fico pensando no que aconteceu com o tabaco (campanhas para redução do tabagismo no Brasil). Então é possível. Tenho muita fé de que isso vai terminar. Mas é necessário que cada um faça a sua parte para que a gente faça ações urgentes, que se espalhem muito mais rápido que o pesticida.”