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Cientistas vão intensificar atos pela volta do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

Em encontro da SBPC com Gilberto Kassab, titular da pasta que incorpora Comunicações ao antigo ministério, eles reafirmam resistência à fusão autoritária e reivindicam recursos para o setor
Publicado por Cida de Oliveira, da RBA
19:10
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Flickr/MCTIC
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Kassab, com João Rezende, da Anatel: fusão enfraquece Ciência e Tecnologia, segundo cientistas

São Paulo – Em reunião hoje (8) com o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), Gilberto Kassab, em São Paulo, cientistas reafirmaram o descontentamento com a fusão autoritária desse ministérios com o das Comunicações pelo governo interino de Michel Temer (PMDB). E a exemplo do que fizeram artistas e ativistas, que se mobilizaram pela recriação do Ministério da Cultura, prometeram intensificar os atos de resistência pelo país até que consigam o desmembramento.

O encontro, solicitado por Kassab à Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC), foi o que ele chamou de sua primeira agenda oficial pelo novo ministério. Até então estava envolvido com atividades de transição com equipes dos ministérios fundidos.

Antes de responder a perguntas da plateia, Kassab ressaltou que a fusão tem objetivos que vão além da economia de recursos. “Ao unir setores estratégicos e afins, como ciência, tecnologia, inovação e comunicações, a nova pasta ganha em empoderamento político e otimização da gestão e atende a anseios da sociedade, que quer a redução do número de ministérios”, disse.

Professor do Departamento de Física Teórica da Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ) ex-conselheiro da SBPC, o físico Ildeu de Castro Moreira refutou as afirmações de Kassab. “Esses argumentos são frágeis. Ciência tem interface com todas as demais áreas, não só Comunicações. Ninguém foi ouvido a respeito e até agora o governo não respondeu com clareza nossos questionamentos. Afinal, o que está por trás dessa fusão? Por que uma transferência tão drástica sem diálogo? Sem essas respostas, as pressões da comunidade tendem a se intensificar em todo o país”, disse, sob aplausos da plateia e de integrantes da mesa.

Reconhecido e premiado por sua contribuição à popularização da Ciência – em 2004 ele criou a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, o maior programa de difusão científica do país enquanto servidor do extinto ministério –, Ildeu ressaltou que a população também não foi ouvida a respeito por Temer. E supôs que, caso fossem ouvidos, os brasileiros não apoiariam. “Pesquisa recente do extinto MCTI indica que 78% da população apoia investimentos em C&T mesmo em caso de necessidade de tirar recursos de outras áreas”, disse.

Com a divulgação hoje de moções de repúdio pela fusão, os conselhos universitários da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) divulgaram moção de repúdio contra a junção. Outras 14 sociedades científicas e sindicatos de trabalhadores em universidades também já se manifestaram de maneira contrária.

Presidenta da SBPC, Helena Nader expôs avanços da ciência brasileira nos últimos anos, quando aumentou o número de estudos publicados em revistas científicas de todo o mundo. “Quando chamada, a ciência brasileira responde de imediato. Imagine então se fosse adequadamente financiada”, disse, referindo-se ao trabalho de pesquisadores brasileiros que saíram na frente ao descobrir, no ano passado, a associação entre a infecção pelo vírus zika e casos de microcefalia.

Helena questionou Kassab quanto a definições sobre a estruturação das secretarias ligadas ao setor dentro do novo ministério. O que, segundo ele, ainda será definido.

A reivindicação de mais recursos para o setor levou muitos cientistas ao encontro. Entre eles, o professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador na área de óptica quântica, como para obtenção de dispositivos para computação quântica, o físico Luiz Davidovich.

“Estamos em crise. E a única maneira sustentável de sair dela é investir em ciência, palavra, aliás, que não aparece uma vez sequer no documento (do PMDB) “Uma Ponte Para o Futuro”, disse, mostrando exemplos de diversos países que continuam investindo no setor apesar de instabilidades econômicas, como a Rússia e Índia. E acrescentou: “É ameaça seríssima ao país que pesquisadores enfrentem o risco de paralisar suas pesquisas e que aumente o número de grandes projetos já parados”.