Crise hídrica

Uso improvisado de fontes alternativas de água é porta de entrada para epidemias

Especialistas afirmam que não há controle de qualidade das águas de poços, bicas e minas; água não tratada pode levar a surtos de hepatite A, rotavírus, diarreia e gastroenterites

Arquivo RBA
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Seca dos reservatórios tem feito população buscar fontes de água sem controle de qualidade

São Paulo – A crescente busca por fonte de água alternativa ao fornecimento da Sabesp, comprometido em função da seca nos principais reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo (Cantareira e Alto Tietê), coloca em risco a população para epidemias ligadas às doenças transmitidas por água contaminada. Surtos de hepatite A, rotavírus, diarreia e gastroenterites, entre outros vírus de infecção fecal-oral, poderão ser comuns caso as medidas caseiras não sejam orientadas e fiscalizadas pelo poder público.

Autoridades da saúde pública e ambiental alertam que boa parte das águas superficiais, como poços artesianos, bicas e minas localizados nas cidades, principalmente onde há forte adensamento populacional, como São Paulo, está contaminada por vazamento na rede de esgoto e resíduos das indústrias e do comércio, impróprias para o consumo humano. Pelo custo mais baixo e processo menos burocrático, cresce a opção por contratar empresas que não seguem as determinações da lei.

O coordenador do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o sanitarista Christovam Barcellos afirma que, diante da seca, a população deve colher uma amostra da água e levar para análise em laboratório. “As pessoas precisam se certificar da qualidade da água que estão consumindo. A que chega nas nossas torneiras nós sabemos de onde vem, como é tratada. Da própria conta constam esses laudos. Todo o resto nós não sabemos, e mesmo que a água tenha uma boa aparência, ela pode estar contaminada por coliformes fecais.”

Segundo a Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (Abas), 80% dos poços perfurados em São Paulo hoje estão irregulares. O Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) é responsável por fornecer as outorgas, mas a legislação obriga somente o monitoramento dos reservatórios permanentes, como as represas. “É inviável o poder público controlar o fluxo de água de todos os poços, minas e bicas, mas é necessário um acompanhamento. Os poços menos profundos, feitos de modo manual, certamente estarão contaminados. Esgoto não tratado, vazamentos, postos de gasolina, tudo isso vai para o solo e para a água. A responsabilidade pelo tratamento da água fornecida pela Sabesp é da Sabesp, mas se a população busca isso espontaneamente, a responsabilidade é de quem foi pegar a água”, afirma o diretor da Abas Everton Oliveira.

Ainda segundo a Abas, existem aproximadamente 12 mil poços artesianos em São Paulo, sendo que apenas 300 são monitorados pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), órgão do governo do estado. Os monitoramentos são feitos em áreas onde há comprovada contaminação do solo por indústrias.

Em 2013, o consumo de água de poços onde não havia controle de qualidade levou o estado do Alagoas a sofrer um surto de diarreia, com mais de 80 mil casos registrados e 51 mortes.

Em Itu, no interior paulista – onde a seca fez com que o racionamento de água em 2014 durasse pelo menos 10 meses –, os moradores chegaram a fazer fila em córregos e bicas para encher baldes e galões. Análises feitas por organizações não governamentais no município do interior comprovaram a contaminação de parte das fontes.

“Essa água pode ser usada para lavar o chão, o carro, mas nunca para beber e cozinhar, e dependendo do grau de impureza, nem mesmo para o banho. Se for usar para esses fins, é recomendável a instalação de filtros. Já o cloro nós não recomendamos. Cloro não deve ser manipulado em casa, sem orientação, porque pode queimar as vias respiratórias e se a solução não for bem feita, pode causar até intoxicação”, acrescenta o sanitarista.

Outro alerta feito é para a qualidade da água comprada em caminhões-pipa. Barcellos reafirma a necessidade do registro da empresa contratada com laudo da qualidade da água. “Existem muitas empresas clandestinas que vendem água em caminhão-pipa sem nenhuma procedência, vide o caso do Rio de Janeiro, onde uma empresa estava bombeando água de piscinas desativas há mais de dez anos e vendendo para a população. Com o aperto da crise, casos assim tendem a crescer.”