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Número 95, Maio 2014

rádio brasil atual

O Brasil é o país do futebol?

Autor do livro 'A Dança dos Deuses – futebol, sociedade, cultura', Hilário Franco Júnior questiona clichê que aflora mais apaixonadamente entre os brasileiros em tempos de Copa
por Redação RBA publicado 10/05/2014 08h24, última modificação 14/05/2014 13h48
Autor do livro 'A Dança dos Deuses – futebol, sociedade, cultura', Hilário Franco Júnior questiona clichê que aflora mais apaixonadamente entre os brasileiros em tempos de Copa
BERND WEI BROD/efe
Razão e emoção

Ronaldo durante a Copa de 2002: vitórias deveriam ser relativizadas

 

A julgar pelos cinco títulos mundiais, a participação em todas as 19 Copas já realizadas e a exportação de craques para o exterior, sobretudo para a Europa, o Brasil parece mesmo ser o país do futebol. Porém, se os dados relacionados ao esporte forem analisados sob aspectos históricos, econômicos, políticos, sociológicos, ideológicos, culturais e estatísticos – mas de uma estatística que relativize todos esses fatores –, o Brasil é apenas mais um dos países do futebol.

A constatação, que pode despertar a ira dos amantes da bola ainda mais às vésperas da Copa do Mundo – especialmente uma disputada no Brasil – é do professor aposentado da USP Hilário Franco Júnior, autor do livro A Dança dos Deuses – futebol, sociedade, cultura.


Em entrevista a Oswaldo Colibri Vitta, da Rádio Brasil Atual, ele deixa de lado sua paixão e, a partir de uma análise profunda, desconstrói  argumentos que estão na ponta da língua de quem acredita piamente na ideia de pátria de chuteiras.

Para Franco Júnior, o brasileiro vai menos ao estádio do que torcedores de outros países, acompanha pouco os resultados pelos meios de comunicação, sobretudo jornais impressos, e os campeonatos disputados aqui estão aquém daqueles de outros países. “Os campeonatos são mal organizados, os estádios são ruins, de difícil acesso, os craques jogam fora, há poucos gols por partida e, por razões até culturais, o brasileiro lê menos sobre seus clubes”, resume.

As conquistas mundiais e a participação em todas as Copas também são discutíveis. Conforme lembrou, é preciso considerar o número de vitórias em termos proporcionais: o país ganhou cinco dos 19 mundiais disputados, quando outros campeões, como Itália (quatro títulos), Alemanha (três) e França (um) não estiveram em todos porque enfrentavam sérias questões internas, como guerras, por exemplo. E nem todas as participações do Brasil foram conquistadas na raça, em eliminatórias, conforme o historiador. “Em muitas ocasiões fomos beneficiados pela desistência de outros países em eliminatórias”. Ele lembrou ainda que destaques do Brasil, como o jogador Ronaldo ser o maior artilheiro em Copas, são ofuscados pelos de outros países, que conquistaram muito mais títulos em campeonatos internacionais regionais, como a Libertadores da América.

Paixão à parte, as reflexões de Franco Júnior levam o ouvinte a pensar o futebol como mais um dos elementos que devem compor um país – e não o único. Nessa perspectiva, o Brasil tem de ser o país da educação, da saúde, da ciência, da música, da indústria e também do futebol.

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