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Número 70, Abril 2012

A capital da Escandinávia

Estocolmo é de cinema. Seu povo é bem-nascido, instruído e – com serviços que funcionam – reclama mais dos dias cinzas que dos impostos
por Adriana Cardoso publicado 04/04/2013 12h35, última modificação 10/05/2012 13h48
Estocolmo é de cinema. Seu povo é bem-nascido, instruído e – com serviços que funcionam – reclama mais dos dias cinzas que dos impostos

Pergunto a um rapaz num ponto de ônibus se ele conhece o endereço que procuro. Ele saca do iPhone, amplia o mapa e indica: “Você vira à esquerda na próxima esquina, anda um pouco e pronto”. Num país que transpira segurança, a confiança é mútua. Em Estocolmo, a capital sueca, todo mundo é nivelado por cima. 

O preço de tanta beleza e eficiência é visto no recibo do restaurante: 25% do valor total são impostos. Fotos: www.flickr.com/eguidetravel

O país tem o melhor padrão de vida da Europa, movido a altos impostos e Estado de bem-estar social. Os suecos veem para onde vai a grana dos impostos que pagam. A cidade, de cerca de 800 mil habitantes, é limpa, organizada, segura, civilizada. Está aí, talvez, uma das explicações para ver tantos suecos fazendo o trabalho que na maioria das metrópoles europeias fica para os imigrantes – em restaurantes, nos ônibus, nas lojas, nos cafés. Vive-se bem, mas é preciso trabalhar, tudo é muito caro.

O preço de tanta beleza e eficiência é visto no recibo do restaurante: 25% do valor total são impostos. Transporte público: 6%. Salgado? Sim. Mas quando se caminha pelas ruas ou se utiliza o coletivo você nem acha ruim. Se o painel no ponto informa que tal ônibus vai passar 11h06, vai passar. E se o ônibus atrasa cinco minutos, o povo já começa a reclamar.

Museu Vasa Estocolmo

Estocolmo tem excelentes museus. O Vasa Museet tem um barco que foi resgatado em 1961 depois de naufragar há 333 anos. 

 O Vasa Museet tem um barco que foi resgatado em 1961 depois de naufragar há 333 anos

Outro, o Skansen, a céu aberto, mostra como se vivia no século 19 em várias regiões do país. Há um zoo com espécies da Escandinávia (agora eu sei diferenciar rena de alce) e casas da época.

Durante o passeio de barco pelo arquipélago, Christopher, o guia conta a história de cada lugar e o privilégio de viver em Estocolmo. Reconhece que os suecos ainda vivem “num sonho” por conta de seus programas sociais, mas diz que a vida era mais simples na época em que a social-democracia comandava. O país é uma monarquia parlamentarista. O chefe de Estado é o rei Carlos Gustavo XVI. O de governo é o primeiro-ministro conservador Fredrik Heinfeldt, desde 2006. “O melhor eram as moradias sociais. Hoje tudo é caro.” Um imóvel médio não sai por menos de € 300 mil. Aluguéis em apartamentos “kinder ovo” custam € 1.500. Christopher também critica dois orgulhos nacionais, o design e a arquitetura. “Hoje, muda-se a casa toda a todo momento para seguir as tendências. Ah, esse capitalismo!”

O barco segue pelos canais gelados do Mar Báltico. Christopher diz que o mar das redondezas só não é mais limpo porque os países vizinhos não contam com o mesmo sistema de tratamento de água sueco. No hotel, um aviso informa que, para conter energia, a geladeira do quarto fica desligada, nas ruas não se vê papel no chão, há um obelisco na praia que informa a (falta de) poluição do ar e da água.

A capital da Escandinávia

Dois rapazes me perguntam de onde sou, enquanto pago por um muffin e um sanduíche. Quando digo que sou brasileira, arregalam os olhos: “Puxa, eu quero tanto ir ao Rio para a Copa do Mundo! É perigoso?” No meio da conversa, me dizem que são do povo assírio, os cristãos do norte do atual Iraque. “Somos um povo sem terra. Nosso pai é do Iraque, mas nascemos aqui.”

Vikings?
A Suécia tem 9,5 milhões de habitantes, 18% com mais de 65 anos e 16% menos de 15. A expectativa de vida ao nascer é de 81,5 anos. O país flexibiliza sua política de imigração, com objetivo de facilitar o ingresso de força jovem de trabalho.
O PIB foi de US$ 366 bilhões em 2010 e a renda per capita, US$ 39.100 por ano. O índice de Gini, usado para medir o nível de concentração de renda e de desigualdade social, é de 0,23 (no Brasil é de 0,57). O índice vai de 0 a 1. Quanto mais próximo de 0, melhor é a distribuição de renda.
Os gastos públicos com políticas sociais são de 27% do PIB. A carga tributária representa 53%. A escala de tributação vai até 58% dos rendimentos da pessoa física (no Brasil, até 27,5%).
A taxa média de desemprego está em 8,5%. A jornada anual de trabalho da população é de 1.624 horas (31,15 horas semanais). Na Alemanha, o desemprego está em 7% e a jornada anual, em 1.425 horas.

O calor humano dos suecos não é dos melhores, mas eles transpiram civilidade. São politizados, prestativos e reservados. E criativos. Destacam-se na ciência, na arquitetura, no design, sem falar no cinema. Clássicos como Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (1957), e Minha Vida de Cachorro, de Lasse Halström (1985), marcaram gerações. Não encontrei na rua nenhuma Ingrid Bergman ou Greta Garbo (a maioria está mais para as mocinhas, agora vozinhas, do ABBA, ou a vocalista do Roxette), mas pode-se dizer que é um povo com cara de bem-nascido e bem-criado.

Mas não viveria em Estocolmo mesmo achando que o Brasil nunca atingirá tais padrões de vida e civilidade. O sol do inverno não me apareceu em nenhum dos quatro dias em que fiquei lá. Começava a deixar o dia escuro às 15h e só ia clarear às 8h30. Muitos atribuem aos dias de pouco calor e pouca luz a origem de uma certa dose de tristeza e da elevada média anual de 11 suicídios por 100 mil habitantes. Como disse a rainha Silvia, filha de brasileira e alemão que passou boa parte da sua infância e juventude no Brasil, a disciplina dos suecos é admirável, mas a alegria, a descontração e o clima brasileiros têm lá o seu sabor.