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Número 36, Junho 2009

Crônica

Ecoludopédicos, unamo-nos!

Nossa obrigação é bater palmas a cada lançamento em profundidade e potentes vaias aos ineficazes toquinhos de lado
por José Roberto Torero publicado , última modificação 04/04/2018 15h36
Nossa obrigação é bater palmas a cada lançamento em profundidade e potentes vaias aos ineficazes toquinhos de lado
mendonça
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Conservacionista leitor, conservada leitora, recentemente saiu uma lista com vários animais em perigo de extinção no Brasil. Lá estão a onça pintada, o peixe-boi, o cardeal-da-amazônia (algumas freiras também andam desaparecendo por lá), a arara-azul e o tucano-do-bico-preto. Mas os ecologistas esqueceram de acrescentar um animal muito importante, que é conhecido pelo nome científico de Armadorius lançantivus, e vulgarmente chamado de lançador-de-queixo-erguido.

Os Armadorius lançantivus eram abundantes no passado. Podiam ser encontrados de norte a sul do Brasil e, mesmo em outros países, não era rara a sua presença. Porém, com o aumento populacional de seu principal predador, o Volantis assassinus, o Armadorius começou a desaparecer e muitos sofreram mutações genéticas, transformando-se em reles Armandinhus enceradeirus.

O habitat natural do lançador-de-queixo-erguido é o meio-campo. Ele vivia solto ali pelo círculo central, apenas esperando uma bola para fazer o que mais gosta: o passe em profundidade. A bola voava por 30, 40, ou mesmo 50 metros, até pousar na frente de um atacante, muitas vezes o Pontinhus dribladorius, animal já totalmente extinto.

Só quem já viu pode descrever como o Armadorius lançantivus dava uma breve olhada ao seu redor e chutava a bola de modo que ela descrevesse um majestoso arco até a meia-cancha adversária. Diz-se que era algo tão admirável quanto presenciar um urso panda brincando entre os galhos de uma árvore frondosa. Mas, hoje em dia, isso já não acontece. O círculo central foi invadido por animais peçonhentos, aumentando em muito a densidade demográfica daquela região, fato extremamente nocivo ao lançador-de-queixo-erguido, que precisa de espaço para exercer seu modus vivendi.

Alguns desses espécimes ganharam reconhecimento individual e foram idolatrados pelos admiradores da raça. É o caso do espigado Didi, tão altivo que parecia incapaz de se curvar, de Gérson, que tinha poucos pelos no topo da cabeça, de Rivellino, que possuía uma vistosa penugem sob o nariz, de Aílton Lira, que vivia à beira-mar, de Dicá, que habitava as campinas do interior de São Paulo, e de Pedro Rocha, que migrou do sul do continente para terras brasileiras.

Mas a caça impiedosa, muitas vezes ilegal e raramente punida com cartão vermelho, diminuiu perigosamente o número de exemplares dessa alimária. E, para piorar, os lançadores-de-queixo-erguido não se reproduzem com facilidade. Há, claro, alguns animais por aí, mas sem a exuberância de seus antepassados, numa clara demonstração de degradação genética.

Agora, eu vos pergunto: há uma solução para esse problema?

E eu vos respondo: sim, há quatro soluções. A primeira coisa a fazer é coibir violentamente a caça ao Armadorius lançantivus. A segunda é combater seu predador natural, o Volantis assassinus. A terceira é transformar os clubes em reservas ambientais onde os lançadores-de-queixo-erguido possam se desenvolver completamente. E a quarta é que o próprio animal sofra mutações que o adaptem às novas condições de seu habitat. Ele deve se tornar mais rápido e buscar outros espaços no campo, não apenas o círculo central e suas imediações.

Até mesmo nós, como amantes da natureza ludopédica, podemos ajudar na preservação. Nossa obrigação é bater palmas a cada lançamento correto (os Armadorius sofrem de profunda carência afetiva) e emitir potentes vaias aos ineficazes toquinhos de lado.

Enfim, caros irmãos ecoludopédicos, do mesmo modo que o mico-leão-dourado saiu da lista de animais em perigo de extinção, o lançador-de-queixo-erguido também pode sobreviver. Depende de nós, depende de todos.

Ecoludopédicos, unamo-nos!