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Número 35, Maio 2009

Crônica

Quebrando a mesa redonda

Quando cheguei ao Bar da Preta, os quatro já estavam lá. Eles são quase patrimônio da casa, como os ovos cor-de-rosa e o vidro de sardinhas
por José Roberto Torero publicado , última modificação 07/03/2018 11h35
Quando cheguei ao Bar da Preta, os quatro já estavam lá. Eles são quase patrimônio da casa, como os ovos cor-de-rosa e o vidro de sardinhas
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Aquele fumando Hollywood é Lino, o são-paulino; a mulher é Maria Batista, a santista; o de gorro é Marciano, o corintiano; e o último é Papagaio, o palmeirense, e não se sabe se o apelido vem do mascote de seu time ou do nariz avantajado. Os quatro falavam em voz alta em torno da mesa redonda. O assunto devia ser importante. 

“Isso é uma bobagem!”, disse Marciano. “Para que desenterrar os defuntos?”

“Isso é tortura, não vamos mexer no passado”, disse Lino.

Fiquei preocupado. Teriam eles participado da ditadura? Seriam ex-torturadores? Tudo ficou mais claro quando Maria Batista disse:

“Afinal, por que tanto medo da unificação? Não querem que tenhamos mais títulos do que vocês?”

Só aí entendi. Os quatro debatiam sobre a unificação dos campeonatos brasileiros. É que Santos, Palmeiras, Cruzeiro, Botafogo, Bahia e Fluminense ganharam várias Taças Brasil e Torneios Roberto Gomes Pedrosa na década de 60, e os vencedores desses títulos seriam considerados campeões brasileiros. São-paulinos e corintianos, como flamenguistas e vascaínos, não gostam muito da ideia.

“O Brasileiro só existe depois de 1971”, disse Marciano.

“Brasileiro é Brasileiro. Taça Brasil é Taça Brasil”, argumento Lino. 

Papagaio, com o dedo em riste, rebateu: “Pois fiquem sabendo que o Campeonato Brasileiro só tem esse nome a partir de 1989. De 71 a 88 foi chamado de um monte de jeitos, Campeonato Nacional, Copa Brasil, Taça de Ouro, Copa União, Torneio João Havelange... É uma salada só”.

Marciano retomou o ataque: “Ora, a Taça Brasil era um torneio mata-mata”.

Maria Batista, ficando de pé, perguntou: “E daí? O campeonato por pontos corridos só existe desde 2003. Antes era uma misturada. Algumas partes eram de pontos corridos e outras, de mata-mata”.

Lino, o são-paulino, também se levantou: “Na Taça Brasil, os times do Rio de Janeiro e de São Paulo entravam só nas fases finais! Um campeonato desses não pode valer”.

Papagaio, agora também de pé, contra-argumentou: “Pois isso também acontecia no que você chama de Campeonato Brasileiro. Em 1979, por exemplo, 13 times entraram só na segunda fase. E Guarani e Palmeiras entraram só na terceira”.

“Aposto que na Europa não tem esse carnaval”, desabafou Marciano, o último a deixar a cadeira.

“Não mesmo”, disse Maria Batista, subindo na mesa para ficar mais alta do que todos.

"Lá eles aceitaram que os primeiros títulos, que eram copas do tipo mata-mata, valem tanto quanto os atuais campeonatos nacionais.”

“Até a Europa anda meio avacalhada”, comentou Lino, também já sobre a mesa.

“A verdade”, disse Papagaio enquanto achava um espaço entre as garrafas de cerveja para colocar seus pés, “é que a Taça Brasil e o Robertão foram os primeiros campeonatos nacionais. Só porque não se chamavam ‘Campeonato Brasileiro’ não quer dizer que não fossem.”

“Vocês querem é ter mais títulos que Corinthians e São Paulo, porque, se essa unificação for aceita, vocês passam a ter oito campeonatos”, disse Marciano, agora também em cima da mesa. 

“Mas nós ganhamos esses campeonatos. É justo!”, defendeu Maria Batista.

“Justo uma ova!”, bradou Lino.

“Isso é roubo!”, gritou Marciano.

Começou então um empurra-empurra sobre a mesa, até que ela se partiu e os quatro debatedores vieram abaixo, em meio a cacos de vidro e pedaços de madeira. Por sorte, ninguém se machucou.

Preta andou lentamente até os destroços: “Aquele que tiver mais títulos paga o estrago”, decretou a dona do bar.

Os quatro se entenderam rapidamente. E fizeram uma vaquinha. 

José Roberto Torero é escritor, roteirista de cinema e TV e blogueiro (blogdotorero.blog.uol.com.br).

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