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Número 34, Abril 2009

saúde

Pense antes

Identificar as razões do apetite e encontrar paciência para mudar de hábitos são pontos de partida para quem quer eliminar alguns quilos do corpo e da consciência, com saúde e equilíbrio
por Roberta Alves publicado , última modificação 01/03/2018 11h49
Identificar as razões do apetite e encontrar paciência para mudar de hábitos são pontos de partida para quem quer eliminar alguns quilos do corpo e da consciência, com saúde e equilíbrio
Rodrigo Zanotto
Juliana

A obesidade rende livros, revistas, receitas com baixas calorias, regimes da moda, lançamentos de remédios, shakes, sopas etc. Garante audiência, proporciona lucro e desperta ansiedade e, talvez por isso mesmo, nem todo mundo que se lança a uma estratégia de emagrecimento consegue ir além da primeira semana. E não se trata de pouca gente. Estudo de 2007 da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica estima que 63 milhões de pessoas a partir de 18 anos têm peso acima do normal. Entre elas, 15 milhões de obesos e 3,7 milhões com obesidade mórbida.

Mais que estética, a questão é também de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde, há países, como Canadá, EUA, Reino Unido, México e Austrália, em que 60% da população está acima do peso ideal. Um estudo divulgado pelo The New England Journal of Medicine revelou que a obesidade e o acúmulo de gordura abdominal duplicam o risco de morte nos países europeus – foram nove os analisados, durante dez anos, com acompanhamento de 360 mil pessoas, coordenado pelo Instituto Catalão de Oncologia (ICO).

Obesidade é acúmulo de gordura corporal, ocorre quando a quantidade de energia ingerida supera o gasto energético, por um tempo considerável. Segundo especialistas, há quatro tipos de obesidade: alimentar, metabólica, medicamentosa e genética. A maioria dos casos se refere ao primeiro.

“Se não comer a mais, não engorda. Se não tem tijolo e não tem cimento, não se constrói a casa”, afirma o cirurgião bariátrico e do aparelho digestivo Geraldo Chaves de Alcântara Júnior. “Um dos problemas que fazem a pessoa ganhar peso é o hipotireoidismo, quando a tireóide funciona aquém do normal, os hormônios caem, baixa o metabolismo do organismo e a pessoa tem tendência a engordar.” Mas, se não houver controle da tireóide, o ganho de peso pode ser de no máximo sete quilos, em muito devido a inchaço. “Se a pessoa regular a tireóide, melhora até o inchaço rapidamente. Não tem quem fique 30 quilos acima do peso só porque a tireóide não funciona bem”, explica o médico. O mesmo se refere à obesidade medicamentosa. “Não é porque uma pessoa toma algum tipo de corticóide, alterador de apetite e metabolismo, que vai ficar 40 quilos acima do peso”, enfatiza. Verifica-se então que o principal problema de grande parte dos obesos é comer mais do que precisa. Mas por que isso acontece?

Forças ocultas

Normalmente, o bebê ao nascer é alimentado pela primeira vez no seio da mãe. Na amamentação sente sua respiração, o calor de seu corpo, ouve palavras carinhosas, o bater do coração. “Sem dúvida, não dá para separar mente de corpo, e os aspectos emocionais são extremamente importantes nas escolhas que a pessoa faz na vida, incluindo aquilo que vai comer”, afirma a psicóloga Ana Rosa Sancovski, coordenadora geral dos cursos de pós-graduação da Faculdade de Medicina do ABC, entre eles o de especialização em Transtornos Alimentares e Obesidade.

Muitas vezes a pessoa come além do necessário, e engorda, porque está muito angustiada. “A comida funciona como se fosse um remédio para quem se sente incapaz ou impedido de enfrentar uma situação”, explica a psicóloga.

“Eu comia para compensar um vazio, uma sensação que não sei explicar, já que sempre tive os pais muito presentes. A comida era meu conforto, comia quando estava feliz ou quando estava triste. Hoje sei que a comida não é amor, carinho nem conforto. É apenas algo que preciso no dia-a-dia para obter energia. Isso não significa que tenho de me empanturrar”, afirma Herly Monteiro, 22 anos, estudante universitária em Guimarães (Portugal), que eliminou 44 quilos com mudança de hábitos alimentares e exercícios físicos. Atualmente com 76 quilos, sua meta é chegar aos 70.

gabriela

Que fome é essa?

Há a fome biológica, a psicológica e a social. A biológica é que impulsiona o ser humano a buscar no alimento a energia de que precisa. A psicológica aparece independentemente de o corpo físico estar satisfeito. O ato de comer serve para atender a uma determinada situação emocional (tristeza, euforia, tédio, solidão etc.).

“Sempre estive acima do peso, desde criança. Já fiz reduções alimentares, sopas milagrosas, algumas vezes com exercícios ao mesmo tempo, mas desisti sempre”, afirma a vendedora Andreia Patricia Faria Teixeira, 23 anos. “Minha maior dificuldade é a ansiedade. Gostaria que as coisas acontecessem rápido. Como isso não é possível, fico desmotivada.”

A chamada fome social é impulsionada pelo ambiente, mas precisa encontrar terreno fértil no indivíduo para que ocorra. É quando a pessoa não está com fome real, biológica, mas come para se sentir parte de um grupo ou por estar com alguém. Um exemplo é a mãe que já se alimentou, mas quando o filho chega da escola come novamente para fazer companhia.

O ponto de partida de uma pessoa que pretende reagir à obesidade é identificar qual das três fomes a tem levado a comer além do necessário. Muitas vezes, para isso, precisa da ajuda de um especialista, que pode ser um nutricionista, um psicólogo ou mesmo um médico de sua confiança.

Há pessoas que optam por utilizar medicamentos para emagrecer. Nesse caso, todo cuidado é pouco, pois podem provocar muitos efeitos colaterais e criar dependência. “Comecei a tomar remédios com 14 anos de idade. Tomei durante dez anos, mas a certa altura não era mais para emagrecer, e sim para conseguir acordar e sair da cama. Minha depressão aumentou muito, tive crises de pânico. Parei com tudo e resolvi procurar ajuda”, relata Juliana Roberta Cardoso Businari, 30 anos, cantora em Santa Bárbara d’Oeste (SP), que está com cerca de 59 quilos, depois de ter eliminado outros 60 por meio de gastroplastia. “Foi muito difícil no começo: 40 dias só tomando líquidos e com uma ansiedade enorme por estar sem antidepressivo, sem nada... Mas mudei minha vida. Hoje sou muito feliz, não dependo de droga nenhuma, só de força de vontade.”

O cirurgião Alcântara Júnior, que atua numa clínica especializada em doenças do aparelho digestivo na região do ABC, informa que os medicamentos para emagrecer são indicados somente para obesos com Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30 kg/m2 ou de 27 kg/m2 com comorbidades – doenças associadas à obesidade (veja no quadro como calcular o IMC). “Essas drogas devem ser usadas com critério, não servem para todo mundo”, alerta.

Ronaldo

Dietas ou reeducação

Nos anos 1970, surgiu na Inglaterra e nos Estados Unidos a antidieta, que chegou ao Brasil na década seguinte. O objetivo é aprender a diferenciar a fome física da psíquica, como fazem as pessoas magras, que geralmente identificam quando estão com fome e quando estão satisfeitas. E comem de tudo. A antidieta tem como ponto de partida três perguntas: “Estou com fome?”, “O que quero para essa fome?” e “Estou satisfeito?”

De acordo com pesquisa da Associação Médica Americana, 98% dos seguidores de regime voltam a engordar ou ganham quilos extras. “Depois de anos ouvindo que, uma vez gorda, sempre gorda, que eu não tinha jeito, que meus ossos eram largos e eu nunca pesaria menos de 80 quilos etc., decidi que era dona da minha vida. Procurei a reeducação alimentar e vi que meu sonho era, sim, possível”, relata a nutricionista Maria Gabriela Esteves, de 28 anos, que eliminou 36 quilos e está com 62.

Segundo a nutricionista e fisiologista do exercício Ellen Duarte, a reeducação alimentar é a forma mais segura de emagrecer e evitar o efeito sanfona. Quanto a manter o peso após o emagrecimento, ela indica comer “alimentos saudáveis como legumes e verduras, cereais integrais, carnes magras, frutas e sucos de frutas, leite e derivados desnatados, deixando as guloseimas e alimentos mais elaborados e gordurosos para dias especiais e eventuais”. Aliado a isso, Ellen sugere atividade física regular, “mas que dê prazer em fazer”.

“Emagreci 28 quilos em uma rotina com direito a uma refeição liberada na semana. Melhorou a minha autoestima e principalmente todos os exames médicos”, diz o bancário de Porto Alegre Ronaldo Zeni, 38 anos. A psicóloga Ana Carolina Sorano Alva, 32 anos, concorda. Já emagreceu dez quilos e quer eliminar outros 17 com reeducação alimentar aliada a exercícios: “Não se deve esperar por milagres”, alerta. “É preciso determinação e amor-próprio.”

A nutricionista e fisiologista do exercício Paula Cavalini diz que é importante mastigar bem os alimentos e fazer a refeição em cerca de 20 minutos. “Assim a pessoa sai da mesa satisfeita, porque teve a secreção da leptina, hormônio que causa a sensação de saciedade. Quem se alimenta muito rápido acaba comendo mais. Sai da mesa e fica toda hora beliscando”, alerta Paula, que também é professora de Educação Física. “As pessoas que mais eliminam peso e mais se mantêm são as que melhoram a alimentação, fazem atividade física para eliminar calorias e estão vinculadas a um grupo de apoio, de pessoas que desejam emagrecer, ou psicólogo”, completa o médico Ancântara Júnior.

Cálculo do IMC

O Índice de Massa Corporal (IMC) é um padrão internacional. Calcula-se dividindo o peso (medido em quilos) pela altura ao quadrado. Com o valor resultante você tem como definir sua condição quanto ao peso.

IMC Categoria
Abaixo de 18,5 Abaixo do peso
De 18,5 a 24,9 Peso normal
De 25 a 29,9 Sobrepeso
De 30 a 34,9 Obesidade leve
De 35 a 39,9  Obesidade moderada
Acima de 39,9 Obesidade mórbida

Exemplo:

Uma pessoa de 1,70m e 90kg:

1,70= 2,89

90 : 2,89 = 31,14 (obesidade leve)

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