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Número 31, Janeiro 2009

Crônica

Língua apátrida

por Mouzar Benedito publicado , última modificação 22/01/2018 11h52
Mendonça
cronica

Negociata, segundo dizia Stanislaw Ponte Preta, é um bom negócio para o qual não fomos convidados. Pensando na tal reforma ortográfica que nos foi imposta e que começa a valer agora, em 2009, fico em dúvida se ela se encaixa nessa definição. De certa forma, fomos mais do que convidados: faremos o que decidiram no acordo por nós. Mas não fomos convidados para discutir o dito-cujo, que vai transformar em papel velho bilhões de livros.

Certo, a gente pode manter os livros em casa e ler normalmente, ninguém vai ser obrigado a jogar livros fora. Mas, no mínimo, vamos ter de comprar novos dicionários. Ou guias. Milhões e milhões de dicionários! Os editores de dicionários devem estar gritando vivas aos quatro ventos. E os editores de livros didáticos também, pois todos terão de ser substituídos, sem contar livros para as bibliotecas escolares. Os pedagogos dizem que manter nas bibliotecas escolares livros com ortografia “antiga” atrapalha os alunos. Eles aprendem uma coisa com os professores e encontram outra nos livros, o que os deixarão confusos. Então, todos os livros “antigos” têm o destino do lixo ou da reciclagem.

Num país em que muitos municípios não têm sequer uma biblioteca pública acho que é um desperdício provocar o gasto de milhões de reais com a compra de novos livros para substituir outros iguais das bibliotecas que já existem por causa de uns poucos acentos e pela inclusão das letras K, W e Y, que na prática já estão presentes em nosso dia-a-dia. Bastaria incorporá-las ao alfabeto e pronto. Sem contar que algumas palavras continuarão sendo escritas de forma diferente no Brasil e em Portugal. O que justificará num futuro próximo mais uma reforma dessas, para jogar muita grana nas mãos dos editores. Tudo decidido por meia dúzia de acadêmicos.

Que democracia é essa? Chegaram a fazer umas matérias por aí sobre a praticidade ou não da reforma, mas todo mundo se nega a discutir os custos dela. Parece haver uma cumplicidade da grande imprensa, dos linguistas (sim, agora sem o trema) e dos editores interessados. Nem seções de cartas dos jornais publicaram algo com essa argumentação.

Bom, já que queriam fazer uma reforma, eu proporia logo uma revolução inspirada num amigo russo, vindo de lá com uma família que ‐ veja que ironia ‐ fugia da revolução.

Em São Paulo existe uma comunidade de russos apátridas, descendentes de opositores da Revolução Russa. O caminho desse pessoal era mais ou menos o mesmo: os pais ou avós deles eram ricos (ou simplesmente direitistas) e, quando os bolcheviques tomaram o poder, fugiram para a China, de onde esperavam voltar para a Rússia algum dia. Mas houve a revolução comunista também na China e, com Mao no poder, se mandaram para a América. Na cabeça de quase todos eles a América eram os Estados Unidos, mas para quem os trazia América era também o Brasil.

A família do Victor, meu amigo, era uma dessas que saíram da velha Rússia, foram para a China e acabaram na América. Só que ele e seus familiares não vieram no mesmo navio. Ele, a mãe e um irmão vieram parar no Brasil, enquanto as irmãs foram para os Estados Unidos.

Um dia o Marcos, colega de “repartição”, disse que o Victor atropelava as palavras e às vezes não usava verbo. Ele gostou da observação e passou a falar sem verbo mesmo. E muitas vezes sem artigos nem preposições etc. Engolia o máximo de palavras que podia. Por exemplo: não dizia mais “eu vou ao cinema hoje à noite”; apenas “eu cinema noite”. Numa saída de férias perguntaram-lhe o que ia fazer. Em vez de “vou viajar para o Oregon para visitar minhas irmãs”, disse apenas “eu Oregon irmãs”. Enfim, era direto: “Você comigo almoço?”, “chefe bravo erro”. E todo mundo entendia.

Taí, burocratas da língua: radicalizem. Em vez de reforma, vamos logo partir para uma revolução linguística!

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