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Número 30, Dezembro 2008

Editorial

Outro consenso é possível

por Redação publicado , última modificação 08/01/2018 12h17
Valter Campanato/ABr
g-20

G-20: as instituições precisam ser reformadas, assim como o sistema regulatório financeiro

Em perfil de Barack Obama publicado por esta revista em sua edição no 25, em junho, o articulista Flávio Aguiar observou que seria enganoso acreditar que uma eleição americana iria “mudar tudo”, mas que igualmente enganoso seria considerar tudo “farinha do mesmo saco”. Obama já teria feito a diferença independentemente de vencer a eleição, resumia Flávio. Há algumas semanas, logo após o resultado das urnas nos EUA, não foram poucas as manifestações de preocupação do tipo “espero que ele não decepcione”. E não será de estranhar que Obama venha a causar alguma decepção mais adiante. É o preço de uma vitória consagrada por tamanha expectativa de mudança. Entretanto, ainda que os governantes da vez sejam potencialmente pequenos diante das expectativas, o importante a registrar, mais que a troca do governo de turno, é a mudança das expectativas. A ascensão de figuras como Obama constituem um marco não apenas pelo mandatário escolhido, mas pelo fato de as escolhas resultarem de novos desejos do eleitorado.

No Brasil, por exemplo, tornou-se impensável imaginar um partido qualquer vencer uma eleição se desprezar programas sociais. Eles já fazem parte de uma nova conduta política e cultural que emergiu da democracia e começa a moldar uma nova sociedade. O preconceito racial não acabou, mas já se fala em punir com o banimento de um campeonato um time cuja torcida hostiliza um jogador pela cor de sua pele. Ainda há desigualdade nas relações de gênero, mas a Lei Maria da Penha já coíbe a violência em todas as classes.

A atual crise global, por sua vez, mexe com as expectativas das sociedades em relação à forma como elas funcionam economicamente. Na reunião dos países do chamado G-20, pela primeira vez desde a criação de organismos como o FMI e o Banco Mundial, há mais de meio século, houve consenso de que essas instituições precisam ser reformadas, assim como todo o sistema regulatório do mercado financeiro. Há não muito tempo, seria choradeira de país pobre. “A gente percebe que as pessoas tomaram chá de humildade”, avaliou Lula. Ele próprio está diante da oportunidade de liderar um grande diálogo nacional, no qual convirjam esforços em direção à continuidade do crescimento e do combate às desigualdades. Mas precisa o Estado deixar bem claro a quem ajuda, sejam indústrias, agricultores ou bancos, que o tempo de faturar com as benesses do poder público sem restituir ganhos para toda a sociedade já se foi. É esse o gesto – histórico, diga-se – que se espera do atual governo.

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