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Número 30, Dezembro 2008

especial

A outra guerra da Colômbia

Patrocinadas por forças econômicas que mandam no país há 60 anos, paramilitares de extrema direita expulsam pessoas, separam famílias, eliminam ativistas sociais, arrasam a democracia e os direitos humanos
por João Correia Filho publicado , última modificação 09/01/2018 10h35
Patrocinadas por forças econômicas que mandam no país há 60 anos, paramilitares de extrema direita expulsam pessoas, separam famílias, eliminam ativistas sociais, arrasam a democracia e os direitos humanos
João Correia Filho
Willian Guzmán

Willian Guzmán, do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Alimentos, vê ligações entre Uribe, seus aliados políticos e os parlamentares

Nono andar do edifício Caxdac, centro de Bogotá. Depois da revista passo pelo detector de metais. Chego a uma ante-sala com porta de aço e uma pequena janela, de vidros espessos e à prova de balas. As paredes são de metal. Parece que estou num cofre ou num presídio de segurança máxima. Mas o aparato é necessário para proteger os funcionários da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) da Colômbia, que há mais de duas décadas são alvo de grupos paramilitares, realidade pouco conhecida no Brasil e no resto do mundo, com quase 2.700 mortes desde 1986. As cifras revelam um país mais complexo do que o visto nos noticiários, com foco fechado de um lado no presidente Álvaro Uribe, no poder desde 2002, e de outro, nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). 

Falta ao cenário esse outro personagem: os grupos paramilitares de extrema direita, guardiões clandestinos dos grupos econômicos que mandam na política colombiana há 60 anos. As Farc nasceram nos anos 1960 como organização armada de orientação socialista. Quando começaram a avançar e ocupar áreas do interior, a iniciativa privada criou exércitos paralelos de “autodefesa”, mantidos por empresários, multinacionais e latifundiários. O grupo mais conhecido, Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), foi comandado por Carlos Castaño. Depois surgiram outros, como os Águias Negras e o Bloco Norte, responsáveis, com a AUC, pela maioria das mortes de sindicalistas em todo país.

“Nos últimos 20 anos, a média é de um sindicalista morto a cada três dias. Sem contar as vítimas de tortura, massacres, desaparecimentos e expulsões”, diz Alberto Vanegas, diretor de Direitos Humanos da Central. Os 42 assassinatos executados até o final de setembro já superaram os 39 cometidos durante todo o ano passado, interrompendo um movimento de queda que já durava uma década. As piores estatísticas encontram-se na década de 90 – foram 275 assassinatos em 1996. “Um genocídio político”, define Vanegas.

Estima-se que hoje existam cerca de 30 mil paramilitares, dois para cada guerrilheiro das Farc, todos à margem da lei e em disputa pelo financiamento vindo do narcotráfico, que injeta dinheiro dos dois lados. O Exército colombiano, apoiado pelos Estados Unidos no combate às drogas, é freqüentemente acusado de fazer corpo-mole quando o embate é com os paramilitares.

João Correia Filho Gilberto Martínez Guevara
Fax, carta, telefonemas. Gilberto Martínez Guevara, da executiva da CUT colombiana, já foi ameaçado de morte de todas as formas e inúmeras vezes

Na mira

Na entrada da CUT Colômbia, dois homens desferem olhar atento. São os seguranças de Gilberto Martínez Guevara, do comitê executivo da Central. Como dirigente da Antoch, o sindicato nacional dos trabalhadores da saúde, Guevara foi ameaçado inúmeras vezes, por fax, carta ou telefonemas intimidatórios: “Seu sindicalista fdp. Vamos te matar como fizemos com seus amigos”, ameaçam. Uma mensagem enviada dia 25 de dezembro de 2007 desejava feliz Natal e uma morte rápida. “Só no setor da saúde, em dez anos 135 foram assassinados, 270 expulsos de suas cidades e 32 obrigados a sair do país com a família”, diz. Os trabalhadores da saúde são muito visados por estarem em todas as frentes, em todos os cantos do país. 

O mesmo acontece com professores, lideranças naturais na comunidade. Quase metade dos assassinados neste ano é de educadores. Trabalhadores rurais, do setor de alimentos, de energia, também estão entre os mais perseguidos. Os ataques estendem-se a todo tipo de organização que atue em defesa de direitos humanos. 

Na semana em que a reportagem da RdB esteve em Bogotá, no final de setembro, dois sindicatos da capital receberam amea­ças também endereçadas ao Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado e à Assembléia Permanente pela Paz na Colômbia. Uma das mensagens era assinada pelos Águias Negras: “O Comando Carlos Castaño vive e recorda as sentenças de morte aos que ainda continuam nos atrapalhando”. A palavra “guerrilheiro” sempre aparece para forçar uma relação entre movimentos populares e Farc.

July Gonzalez Villadiego, diretora de Proteção à Mulher da CUT em Bogotá, diz que a estratégia é usada também pelo governo Uribe. “Se está contra o governo, já se diz que está com a guerrilha”, observa ela, uma das pessoas mais visadas do país. July usa como exemplo a greve dos cortadores de cana da região de Cauca, em setembro. O procurador-geral da República, Mario Iguarán, foi aos jornais denunciar uma “infiltração” das Farc no movimento, que pedia melhores salários e condições laborais.

“Somos freqüentemente estigmatizados”, diz Jairo Artunduaga, que trabalha na Controladoria Pública, espécie de Tribunal de Contas, vive sob escolta e se recupera do susto que teve há quatro meses: “Você vai ter muitos problemas por estar se metendo no assassinato de seu companheiro Guillermo Rivera. Estou aqui embaixo do seu trabalho para te matar”, repete, imitando a voz do telefonema ameaçador. A ameaça deixa claro que é motivada não por sua atuação sindical, mas por seu empenho para encontrar o corpo e os culpados pela morte de Guillermo Rivera, assassinado em 16 de abril deste ano.

Jairo, July e Gilberto fazem parte de um Programa de Proteção criado pelo governo em 1997. A lista traz 9.400 pessoas, entre sindicalistas, professores, jornalistas, prefeitos, advogados, parlamentares, integrantes de ONGs e partidos políticos. Recebem equipamentos como carros blindados, caminhonetes com tração 4x4, celulares e seguranças armados, designados por um Comitê de Regulamentação e Avaliação de Riscos, presidido pelo Ministério de Proteção Social e com a participação de centrais sindicais, Procuradoria-Geral e Defensoria Pública.

O governo de Álvaro Uribe conta com o programa, com orçamento de US$ 45 milhões, para diminuir os impactos dos crimes políticos, embora sofra muitas críticas. Uma delas a de que a avaliação dos riscos seria burocrática e elitista. Carros blindados, por exemplo, vão apenas para altos funcionários do governo, políticos e poucos dirigentes sindicais. A maioria dos ameaçados recebe uma caminhonete e um segurança armado, que também é motorista.

Jaime Nicolás Pinzon, do Sindicato dos Trabalhadores do Setor Elétrico, recebe apenas um celular: “Se precisar, posso atirá-lo nos assassinos ou pedir um minuto para ligar para a polícia”, ironiza. Muitos reclamam dos carros oferecidos sem blindagem, que “em vez de proteger, nos torna alvo dos paramilitares que já reconhecem o tipo de veículo”, explica Jairo. Ele, Gilberto e July possuem carro sem blindagem.

Para Gloria Gaviria Ramos, coordenadora do Programa de Proteção e ligada ao Ministério da Proteção Social, o sistema é “100% eficiente”. Ela observa que nos últimos anos não houve caso de morte de sindicalista sob proteção da Justiça e rebate as críticas à burocracia: “A única exigência é que se apresente uma cópia do registro oficial da denúncia, feita junto a órgãos como a Procuradoria-Geral e a Defensoria Pública”. Há divergências quanto à facilidade em se obter o documento. Talvez a pressa seja maior para quem tem medo de morrer. 

Os assassinatos diminuíram, mas o medo não. Suspeita-se que os paramilitares passaram da perseguição a lideranças de maior visibilidade para a de militantes de base menos protegidos, mantendo a intimidação.

Cidade ‘limpa’

A maioria dos imóveis dos sindicatos não é identificada. O Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indústria de Alimentos parece uma residência. Nas paredes da sala de reuniões, cartazes denunciam multinacionais, como Coca-Cola e Nestlé, por violação de direitos trabalhistas. O diretor Willian Guzmán vê relação entre o poder e os paramilitares. “Ainda que os jornais tentassem esconder, vieram à tona notícias que ligam Álvaro Uribe e seus aliados a esses grupos”, dispara. Guzmán refere-se a episódios que em 2006 ficaram conhecidos como Escândalo da Parapolítica, após denúncia de envolvimento entre congressistas e milícias. Mais de 30 políticos estão presos e outros 50 são investigados, a maioria da base aliada do presidente. 

Tais denúncias tornam-se cada vez mais uma dor de cabeça para o presidente colombiano, que mantém discurso de herói em guerra com as Farc e o terrorismo. Jorge Noguera, do Departamento Administrativo de Segurança (espécie de serviço de inteligência colombiano), foi preso por espionagem contra líderes de oposição e agentes do governo. Apoiador de Álvaro Uribe em 2002, e nomeado por ele, Noguera foi acusado de entregar aos paramilitares uma lista de sindicalistas que deveriam morrer.

Guzmán destaca também o veredicto proferido neste ano pelo Tribunal Permanente do Povo (TPP), organização de direitos humanos com sede em Roma: “Trinta e quatro empresas multinacionais foram consideradas culpadas por crimes ambientais, perseguição, aniquilamento de sindicatos, saques de recursos naturais e outros crimes de lesa-humanidade”, afirma.

Entre elas estão gigantes como Coca-Cola, Nestlé, Monsanto e British Petroleum. As condenações do TPP não têm valor formal, mas são respeitadas por órgãos internacionais.

Em 2007, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos multou em US$ 25 milhões a multinacional produtora de banana Chiquita Brands por ter financiado, entre 1994 e 2004, os paramilitares da AUC. Os financiamentos eram feitos com recursos de um programa governamental chamado Convivir (Conviver), criado em 1995, que reunia cooperativas rurais de segurança criadas com aval do Estado. Muitas delas se converteram em grupos paramilitares. Álvaro Uribe foi padrinho do programa em Antioquia, estado que governava na época. 

A advogada Dora Lucy Arias, da Corporação Coletiva de Advogados José Alvear Restrepo, ONG que atua há 30 anos no país, afirma que as violações de direitos humanos na Colômbia são apenas “a ponta do iceberg de um contexto muito maior, de interesses transnacionais que controlam a política e as leis com o poder econômico, o que faz com que o sistema judiciário trabalhe em prol da impunidade”. Desde 2001 foram emitidas apenas 123 sentenças, envolvendo 199 pessoas, sendo que 134 estão presas. Entre os 123 casos, 21 estão relacionados à atividade sindical – os números são do próprio governo. Isso diante de um universo de 2.700 execuções. “E a maioria das condenações é para os que apertaram o gatilho e não para os mandantes”, completa Dora.

Gloria Gaviria, do Ministério da Proteção Social, prefere ver como positivo o fato de em 2008 ter havido 30 condenações, contra apenas uma em 2001. “Ainda não é o que se espera, mas avançamos. E temos de considerar que homicídio não é um delito fácil de investigar em todas as partes do mundo. Ainda mais na Colômbia, onde há zonas de difícil acesso e crimes contra investigadores, fiscais e até mesmo juízes”, diz.

João Correia Filho Lucy Gómez
O irmão de Lucy Gómez, sindicalista bancário, foi assassinado a facadas em março deste ano. Apesar das evidências, o governo descarta crime político

“Crime passional”

Distante de câmeras de segurança e carros blindados, Lucy Gómez recebe a reportagem em um cômodo de sua casa, onde funciona sua pequena oficina de costura, no bairro Álamos, zona oeste de Bogotá. E fala de um assunto ainda doloroso. Seu irmão Leonidas Gómez Roso, funcionário do City Group e dirigente da União Nacional de Empregados Bancários (Uneb), foi assassinado brutalmente em março deste ano.

“No dia 1o de março, ele esteve aqui para o aniversário de um sobrinho, tirou fotos, brincou. Eu estava com a calça curta e ele dizia que a situação estava tão mal que não tive como comprar pano para a calça toda”, conta Lucy. Naquela noite, Leonidas comentava as notícias que viu na TV a respeito da marcha contra o paramilitarismo e a impunidade, que ajudava a organizar, marcada para 6 de março. O ato levou milhares de pessoas às ruas de Bogotá, mas não Leonidas. “Só fui me dar conta da ausência dele em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, porque Leo sempre ligava”, diz. De uma família de dez irmãos, era com Leonidas que ela mantinha mais contato.

Ao meio-dia daquele mesmo sábado, Lucy recebeu uma chamada dos companheiros pedindo as chaves do apartamento de seu irmão. Leonidas, que tinha sido visto pela última vez na terça-feira, dia 4, foi encontrado morto. A perícia detectou mais de 20 golpes de faca. O primeiro teria sido desferido no começo da noite e o último, no final da madrugada. Tinhas as mãos amarradas para trás. Do apartamento levaram um notebook, um pendrive e muito pouco dinheiro.

A costureira temia que o pai, com 81 anos, e a mãe, com 76, não resistissem à notícia. Inicialmente sustentou a versão de que fora um acidente de carro. “Eu disse: façamos um rosário porque os médicos disseram que ele está mal.” Aproveitou uma chamada telefônica naquele dia e anunciou a morte do irmão: “Foi feita a vontade de Deus”, disse. A partir daí, foi menos difícil dar um desfecho à mentira e contar aos pais o que tinha acontecido. Eles ainda precisam de remédios.

Apesar de todas as evidências, de todas as ameaças anteriores e antes de qualquer pronunciamento oficial em torno de investigações sobre o caso, a vice-ministra da Justiça, María Isabel Nieto, afirmou dois dias depois que Leonidas poderia ter sido vítima de “crime passional” – desqualificar delitos como esse é comum às autoridades. Para o Ministério da Proteção Social, neste ano aconteceram 31 assassinatos por questões políticas envolvendo sindicalistas. Para os sindicatos foram 42. 

A divergência também encontra eco na indignação de Luz Maria Correal Perez, viúva de Jaime Enrique Gómez Velásquez, sindicalista encontrado morto em 23 de abril de 2006. A medicina legal do país atestara ter sido atropelamento acidental. Investigadores forenses independentes apontam homicídio. “Seu corpo ficou reduzido ao esqueleto, à base de ácido, para não restarem provas. Mas no crânio há sinais de pancadas com objeto perfurante”, conta Luz Maria. 

As marcas da indefinição respingaram também na vida de Diana Marcela Gómez Correal, de 30 anos, filha do casal. Indignada, juntou-se ao Movimento de Filhos e Filhas pela Memória e Contra a Impunidade. Depois da marcha de 6 de março, Diana recebeu ameaças dos Águias Negras, assim como outras 22 mulheres. Mudou-se para os Estados Unidos em junho. Desde aquela época, Luz Maria não vê a filha.

João Correia Filho Melba
Melba e a família foram expulsos de seu sítio. Moram hoje na periferia de Bogotá. Ela segura a foto de seus pais, que não suportaram a vida na cidade grande

Expulsos da terra

Segundo a Consultoria para os Direitos Humanos e Deslocamentos Forçados, no primeiro semestre deste ano 270 mil colombianos fugiram de seus lugares de origem por causa da violência. Os mais jovens temem ser recrutados forçadamente tanto pelos paramilitares quanto pelas Farc. Até crianças são cooptadas. Melba Martínez Zarate, seus três filhos, o marido e seus pais, lavradores num sítio da zona rural de La Palma, sudoeste do país, deixaram suas terras em 2002, em meio a confrontos entre as Farc e os paramilitares. Os Águias Negras avisaram vários moradores da região que teriam de sair. O vizinho que trazia o bilhete teve o corpo todo machucado. Os emissários falavam sério. “Saímos só com a roupa do corpo. Viemos para Bogotá, onde temos outros irmãos e parentes. Na época, ficamos todos num apartamento emprestado, com nove pessoas num mesmo quarto”, lembra. Atual­mente vivem em Soacha, uma das cidades mais violentas da Grande Bogotá, com guerras entre traficantes, chacinas e altíssimo índice de homicídios. Em vez de plantações e animais, hoje Melba vê pela janela um mar de casas inacabadas e muita pobreza. “Meus pais sentiram muito a falta do campo, onde nunca tiveram problemas com saúde nem passaram fome. Jamais vou esquecer o dia em que meu pai pediu para levá-lo a um lugar onde houvesse cavalos. Sua alegria ao vê-los foi seu último suspiro de saudade. Depois foi se enchendo de tristeza”, diz. Ele morreu em 2004, com Mal de Alzheimer, e a mãe, no mesmo ano, com problemas cardíacos e pulmonares. 

Andrea, irmã de Melba, funcionária da Uneb, moveu processo contra o governo por negligência. “Não queremos dinheiro, mas sim que todos saibam a tragédia de nossa família, algo comum em meu país”, diz. A história dos Zarate toca em outro ponto polêmico do governo Uribe: a reparação para as vítimas diretas e indiretas dos confrontos entre guerrilheiros, paramilitares e Exército. Apesar das pressões de organismos internacionais, a demanda segue sem resposta. “Precisamos considerar as dificuldades fiscais”, disse Uribe em um pronunciamento. Segundo o periódico El Tiempo, caberiam indenizações reparatórias a 170 mil vítimas já registradas, ou para 3 milhões se considerarem os casos de expulsão do campo. 

Um deles é o de Maximo Almenárez Lopes, ex-lavrador na produção de óleo de palma. No dia 31 de dezembro de 2007, seu filho, Alfredo, de 39 anos, tombou diante da brutalidade dos paramilitares. Recebeu facadas e foi esquartejado com moto-serra. Pai e filho recebiam ameaças havia muito tempo. Em uma delas, o carrasco disse que estava programado para matá-lo, mas não o faria por ter uma dívida de gratidão: Maximo ajudara o irmão de seu algoz durante um conflito. Encontrou-o espancado e o levou para um hospital.  “Mas você precisa sair daqui hoje”, acrescentou o homem.

“Durante o velório de Alfredo chegaram dois homens numa moto e disseram que eram da AUC, que eu teria de sumir daquelas terras ou acabaria como o meu filho.” Maximo deixou a cidade e a atividade sindical. Guarda ainda o pequeno livreto que traz impresso o acordo coletivo de sua categoria, assinada por ele e mais quatro amigos. “Dessa lista estão todos mortos, menos eu.” 

Maximo vive escondido. Já trocou de celular várias vezes, de endereço outras tantas e, para sobreviver, vende uma loteria conhecida como Chance. Aos 60 anos, espera pela aposentadoria. A reportagem o encontrou em Bogotá, dormindo numa das salas do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Alimentos. Procurava na capital apoio de organismos humanitários para deixar o país. Talvez Canadá, talvez Europa. Ou qualquer lugar onde histórias como a dele não sejam tão comuns e tão ignoradas.

História de conflitos
A Colômbia tem 45 milhões de habitantes com renda média anual de US$ 7,2 mil (a do Brasil é de U$ 9,7 mil). Na década de 1940, a oligarquia tentou barrar movimentos populares que se insurgiam. Em abril de 1948, a repressão a uma revolta popular culminou com 300 mil mortos e um golpe militar que levou os conservadores ao poder. Enquanto o Partido Comunista reforçava bases junto aos trabalhadores rurais, a Frente Nacional, que unia os dois maiores partidos de direita, reagiu, inclusive com milícias contratadas para assassinar opositores. Nesse contexto, nos anos 1960, surge o movimento de esquerda que deu origem às Farc. Álvaro Uribe está no poder desde 2002, tem apoio dos conservadores e uma maioria no Congresso que busca ampliar sua permanência. Integrantes da oposição, liderada pelo Partido Pólo Democrático, também sofrem perseguição das milícias.

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