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Número 29, Novembro 2008

cidadania

Onde descansa o talento

Moradores do Retiro dos Artistas mostram que solidariedade é a melhor resposta ao tempo, num mundo em que glamour e fortuna são para poucos
por Luciana Ackermann publicado , última modificação 15/12/2017 16h22
Moradores do Retiro dos Artistas mostram que solidariedade é a melhor resposta ao tempo, num mundo em que glamour e fortuna são para poucos
Rodrigo Queiroz
palhaço Cocada

O palhaço Cocada aproveita as festas dos netos para pôr em dia as gargalhadas. Tentou viver com a família, mas não se adaptou

Sua história é um esforço de solidariedade, especialmente da classe artística, para cuidar da dignidade de seus colegas. O Retiro dos Artistas, em 90 anos de existência, abriga profissionais que viveram da música, do teatro, do cinema, da televisão ou do circo. Nos bastidores ou como estrelas maiores. Quase 700 desses muitos operários da cultura brasileira já passaram por ali, onde hoje vivem 52 artistas, a maioria em casas coloridas com varandas, instaladas nas ruas Nair Belo, Cidinha Campos e Nélia Araújo. Cuidam das casas e de si próprios. Alguns saem, trabalham e dormem fora. Só precisam manter a coordenação informada. Outros, sete deles, precisam de cuidados especiais e ficam na enfermaria.

O retiro fica num terreno arborizado de 14 mil metros quadrados, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Quase todas as residências são do mesmo tamanho – quarto, sala, banheiro e cozinha. Algumas têm dois quartos. Além da vila, há piscina, refeitório, lavanderia, biblioteca, salão de beleza, capela, teatro, brechó e sala de fisioterapia. Tudo muito bem-cuidado. Os moradores não pagam nada. Contam com quatro refeições diárias e roupa lavada. O conjunto deve ganhar ainda este ano 13 novas suítes. Para viver no retiro é preciso comprovar o exercício da profissão e a situação de carência, não apenas financeira. Há casos de artistas que não querem dar trabalho aos filhos e não têm a quem recorrer.

O espírito solidário da iniciativa não é sinônimo de vida totalmente harmoniosa ali. Henio Lousa, que há 40 anos trabalha na instituição, diz que o dia-a-dia é semelhante ao de um condomínio. Inicialmente, todos viviam no casarão, onde ainda funcionam o brechó e o salão de beleza. Na década de 1980, quando foram construídas as casas de dois dormitórios, a idéia era que fossem divididas entre dois artistas que tivessem afinidades. Mas a experiência foi traumática. “Eles são vaidosos e não admitem papel secundário. Havia brigas pelo controle remoto da tevê. Cada um se julga mais estrela que o outro”, lembra Lousa.

A cara de cidade do interior, com pessoas conversando na varanda, não é sintoma de falta do que fazer. Há uma série de atividades por ali, como cursos de teatro profissionalizantes, alfabetização de adulto, ginástica, dança de salão. Os eventos preferidos pelos moradores são as festas, como a julina, uma das mais movimentadas da cidade, que garante renda para três meses de funcionamento do retiro.

Isa Rodrigues, de 80 anos, a Shirley Temple brasileira, prefere o descanso. “Eu já dancei, sapateei, dei aulas. Estou bem assim, não sinto nada e prefiro não me arriscar. Cuido da minha casa e da minha cadelinha Gigi”, afirma a ex-atriz. Isa relembra que sua mãe também viveu no retiro, na época em que todos ainda se acomodavam no casarão. Foi durante um bate-papo numa festa que tudo começou a mudar. “Eu e a Nair Belo conversávamos na varanda, preocupadas com aquelas escadas e todos aqueles idosos. Saímos de lá com a idéia fixa de conseguir recursos para construir algumas casinhas”, relata. “O apresentador Flávio Cavalcanti, da antiga TV Tupi, abraçou nossa proposta e lançou uma campanha no programa dele. Ficávamos na frente da emissora, na Urca, pedindo donativos. Eu também era sócia do retiro, paguei mensalidade a vida toda.”

Isa conta que seu filho sempre a visita e que as netas insistem em convidá-la para viver em Ipanema. “Eu ficaria sozinha dentro de um apartamento. Aqui, não. Posso sair e conversar com quem quiser. Às vezes sobem alguns alunos do curso de teatro para falar com a gente”, explica. Ela começou a cantar e sapatear aos 8 anos. Contracenou com Oscarito e Grande Otelo e estourou na televisão. “Uma vez pararam o trânsito da Rua do Ouvidor e balançaram o carro onde eu estava. Todos queriam me ver.”

Rodrigo Queiroz claire
Claire ainda faz pontas em novelas e filmes

Palco e picadeiro

Claire Digonn, de 70 anos, também se dá por satisfeita. Recentemente fez uma ponta na novela A Favorita, na Globo, e integrou o elenco de Vidas Opostas, na Record. Também participou dos programas A Diarista, A Grande Família, Linha Direta e de alguns curtas-metragens. “Estou sempre fazendo alguma coisa. Não quero entrar com pedido de aposentadoria e invalidar o meu PIS, senão não consigo mais atuar”, diz.

Separada, chegou a viver com uma das filhas, mas prefere a vida no Retiro. “Estou aqui há dois anos e acho ótimo. Saio para trabalhar, faço minhas comprinhas. Gosto de lavar e passar minhas roupas. As refeições são balanceadas e somos muito bem-tratadas”, relata. Claire começou no grupo cênico de um clube, fez rádio-novela na Tamoio AM, dos Diários Associados, fez comerciais para a TV Tupi, participou do elenco de apoio das companhias de Tereza Raquel e de Cill Farney, e trabalhou como manequim.

No Retiro não faltam reencontros. O ator e artista plástico Fernando Otero Gonzalez, de 70 anos, morador desde 1994, conta que assim que bateu os olhos em Claire lembrou-se dela dos tempos da Tupi. Ele também começou na Rádio Tamoio, ainda menino, no programa Curumim. Depois cantou no Cassino da Urca. Conviveu com cantores consagrados, como Ataulfo Alves, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e Jamelão, e participou de produções da Atlântida. Foi maquinista de trem no longa O Grande Assalto, fazendeiro em propaganda de hambúrguer e maquiou o ator norte-americano Mike Henry no filme Tarzan e o Grande Rio (filmado na Amazônia em 1967).

“Leio, pinto, estudo esperanto. O mercado de trabalho é muito ingrato. Essa foi a minha opção”, afirma. Ele interrompe a entrevista e fecha a porta assim que percebe a presença de outros moradores. Prefere a vida mais reservada. No máximo, canta no Butikim das Estrelas. Diferente de Altair Farias, o palhaço Cocada, de 89 anos, que adora papear na varanda.

Viúvo, Cocada tentou viver com a única filha e os netos, mas não se adaptou. De vez em quando aproveita festinhas dos netos e bisnetos para fazer seus shows, acompanhado da boneca Xandoca. Artista por acaso, o palhaço ganhou sua primeira chance aos 10 anos, depois de ser flagrado, com um amigo, “furando” a lona de um circo no Grajaú, zona norte do Rio. A dona os colocou para vender doces na entrada. Ele acabou ficando com o tabuleiro de cocada, e dali tirou o apelido com que viveria boa parte da vida nos palcos e picadeiros. Com o avanço da idade, vieram as limitações: “Aqui somos todos ex-artistas”.

Inspiração francesa
O grande protagonista do Retiro dos Artistas foi Leopoldo Fróes. Depois de viver alguns anos na França, trouxe de lá a idéia de fazer algo semelhante à Maison de Répos des Artistes Dramatiques, criada pelo barão Taylor. Amigos do meio cultural e jornalistas abraçaram a causa de criar uma associação que acolhesse os artistas, que na época não tinham sequer profissão regulamentada. O amplo terreno foi doado pelo imigrante tcheco Frederico Figner.

Em 1931, a iniciativa recebeu a Carta Sindical do Ministério do Trabalho. A partir de 1964, a parte sindical ficou com o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão do Rio de Janeiro e o Retiro dos Artistas assumiu o papel assistencial. Na década passada, quase fechou. De acordo com o presidente da instituição, o ator e vereador Stepan Nercessian, a meta atual do Retiro é solucionar uma dívida de R$ 1,5 milhão com o INSS para poder voltar a pleitear apoio governamental a projetos de recuperação e manutenção da casa.

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