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Número 29, Novembro 2008

viagem

Cuba: Os valores de um Che

Enquanto a Cuba de Raúl Castro apenas sinaliza mudanças, suas duas moedas em ciruclação ainda são um retrato das diferenças sociais acentuadas no emblemático reduto socialista da América
por João Correia Filho publicado , última modificação 15/12/2017 16h31
Enquanto a Cuba de Raúl Castro apenas sinaliza mudanças, suas duas moedas em ciruclação ainda são um retrato das diferenças sociais acentuadas no emblemático reduto socialista da América
João Correia Filho
charuto

Charuto é um dos itens mais oferecidos aos turistas em troca de moeda forte

Em Havana Velha, um homem oferece cédulas estampadas com o rosto do herói da revolução: “One dólar!”, sussurra. O “dólar” a que se refere é o CUC (Peso Cubano Convertível), moeda adquirida pelo turista ao desembarcar na ilha. Vale aproximadamente US$ 1 e surgiu em 2004 como forma de conter a circulação do dinheiro americano pelo país. A moeda corrente da população vale menos que o CUC dos turistas. Para ser mais preciso, 1 CUC corresponde a 24 pesos. Ou a oito notas como a do cambista em questão, de 3 pesos – como leva a estampa de Che Guevara, é comum aos estrangeiros pagar o que pedem por ela sem chiar. Para um capitalista de carteirinha ou um cubano sem nada na carteira, é um negócio da China, feito em segundos, nas ruas e sem cerimônia.

A cena se repete ilha adentro, e é emblemática no que diz respeito à existência de duas moedas no país, à desigualdade entre elas e, principalmente, à busca dos cubanos por um dinheiro que lhes permita viver melhor. Em Havana, cidade com mais de 2 milhões de habitantes e responsável por quase 40% da receita do turismo no país, chega a incomodar a quantidade de pessoas que oferecem todo tipo de vantagem em troca dos convertibles: charutos, informações, música, diversão, aluguel de carros e, claro, cédulas do Che Guevara.

Um cubano recebe em média 480 pesos, cerca de 20 dólares por mês. Um médico, uma das profissões mais bem pagas do país, recebe cerca de 600 pesos, 25 dólares, ou CUCs. Um passeio de poucas horas pela capital, com guia cubano, pode custar esse valor. Salário do mês em um dia. Pedro Caró Gómez, feirante que trabalha no centro da cidade, resume: “Aqui há três preços: o do Estado, subsidiado; o das lojas, que vendem em CUC, e o do mercado clandestino. O problema é que nas bodegas a quantia que se pode comprar não dá pra nada e ficamos nas mãos das lojas e desse mercado paralelo”.

Segundo Pedro, uma família tem direito ao arroz que dá para dez dias do mês – regra válida para muitos produtos. Tudo indicado nas cadernetas de racionamento, onde o funcionário do Estado anota o que foi retirado. Tais cadernetas são talvez o maior símbolo das dificuldades enfrentadas durante o Período Especial, a grande crise que o país enfrentou após a queda da União Soviética, na década de 1990, da qual dependia para manter o padrão de vida da população.

Como nas lojas a mercadoria é toda taxada em CUCs, a dificuldade em obter os produtos básicos gera um intricado mercado paralelo, ilustrado por situações que beiram o cômico. Ao entrar numa padaria no bairro Centro Havana, um homem aborda uma senhora. Sussurra algo entre os dentes, como se oferecesse algo valioso e ilícito. “Mantequilla? Mantequilla?” Oferecia manteiga, provavelmente desviada de alguma bodega ou armazém estatal. Pega o dinheiro da mulher, segue por um corredor escuro e volta com um pedacinho de manteiga. Em Cuba, isso se aplica a quase tudo – roupas, sapatos, produtos de asseio e outros gêneros de primeira necessidade. O país tem um grande déficit na produção de alimentos, com sua agricultura predominantemente artesanal.

Desde fevereiro, quando assumiu a Presidência, Raúl Castro prioriza a produção de alimentos. Em 2008, o país deve gastar US$ 2 bilhões na compra de gêneros de primeira necessidade, 80% destinados à cesta básica. A produção de alimentos é questão de segurança nacional. Raúl também iniciou uma reforma agrária descentralizadora, com distribuição de terras em usufruto e concessão de créditos. Por enquanto, pelo interior ainda se vêem lavradores semeando a terra com arados puxados por animais.

João Correia Filho auluno
Criança a caminho da escola: em Cuba todos têm educação e saúde boas e de graça, mas um médico ganha apenas US$ 25 por mês. A situação leva muitos profissionais a fazer bicos, principalmente os ligados ao turismo

Pesos e medidas

Nos locais a que turistas e cubanos têm acesso, a divisão monetária é mais explícita e justa. A entrada no Museu da Revolução custa 4 pesos para um cubano e 5 CUCs para um turista, 30 vezes mais. O mesmo ocorre com uma passagem de ônibus para Santiago de Cuba, no outro lado da ilha, que custa 26 pesos para um nativo e cerca de US$ 30 para um estrangeiro, apesar da pouca diferença entre os dois serviços. A diferença de preços para os trens também é gritante, embora os destinados aos estrangeiros sejam melhores e não amarguem os atrasos dos velhos trens para os da casa.

Nas ruas, os cinqüentenários carros cubanos e Ladas russos contrastam com novos Renaults, Peugeots e até Mercedes, que em geral pertencem a membros do governo e da nova classe média cubana, ligada ao turismo ou que recebe dinheiro de parentes no exterior. O chofer Gustavo Mejeiras, quando não está trabalhando, desfila com seu Renault novinho. “Foi comprado com dinheiro que meu pai envia dos Estados Unidos, onde trabalha numa empresa de navegação.” Como taxista, ele ganha pouco mais de 300 pesos ao mês.

Os “endinheirados” foram alvo de uma das recentes resoluções tomadas por Castro: a liberação dos hotéis internacionais, para cubanos, o que não era permitido desde 1993; nem para dar uma olhadinha. Os cubanos agora também podem alugar carros – e comenta-se que, em breve, poderão comprá-los. “São medidas tomadas para uma parcela da sociedade que tem dinheiro”, pondera Felix Galano Moreno, porteiro de um dos hotéis mais famosos da capital.

Outro fenômeno evidente, com origem na divisão social, é o abandono dos cargos do Estado. Muitos deixam de lado empregos oficiais para tentar carreira como “particular”, como chamam os autônomos. Pedro, o feirante, era professor de inglês e deixou de lecionar para vender hortaliças. Ganha três vezes mais que os 600 pesos que recebia lecionando. Ociel Garajales ganhava 265 pesos em uma empresa automobilística estatal e passou a trabalhar como mecânico particular. Alcança até 3.000 pesos, “num mês bom, com bastante trabalho”.

O também mecânico Jesus Rodrigues consegue em média 2.500 pesos, 300% mais do que obtinha ministrando aulas de balé numa escola na cidade de Holguin, norte da ilha. O ex-cozinheiro Ubaldo Rodrigues, por sua vez, agora vive de vender para turistas charutos desviados das fábricas do Estado por meio de de uma intricada rede de subornos. “Enquanto o Estado vende por US$ 400 uma caixa, consigo por US$ 150 e garanto o sustento da minha família”, explica. Segundo a própria imprensa cubana, mais de 50% dos professores secundaristas não completam os estudos de Magistério, o que tem afetado a qualidade do sistema educacional, um dos grandes orgulhos da revolução. O êxodo de profissionais, principalmente devido aos baixos salários, é outro problema que Raúl tem enfrentado.

João Correia Filho musicos
Banda Estrellas de Chocolate ensaia num galpão na periferia de Havana

Do outro lado da ilha

A corrida pelos CUCs, mais visível em Havana, espalha-se pelos quatro cantos de Cuba. Na chegada a Baracoa, no outro extremo da ilha, uma multidão se engalfinha do lado de fora da estação rodoviária à espera dos novos turistas. Carregam cartazes de aluguel de carros, de bicicletas e de quartos. A conquista de um novo hóspede pode representar o salário de vários meses. Por 20 ou 30 CUCs ao dia o visitante fica bem acomodado e tem a oportunidade de conhecer como é a vida dessa classe média cubana formada com o dinheiro do turismo.

A casa de Maribel Lambert Hernandez tem cômodos bem pintados (coisa rara, pois é difícil conseguir tinta), televisão de 21 polegadas nova e enfeites decorando a sala. O quarto que divide com o marido, Francisco, e os que aluga têm ar-condicionado e ventilador de teto. O dinheiro dos visitantes permite-lhes ter uma ajudante, a vizinha Juliana, de 18 anos, na limpeza e na cozinha. Serve café-da-manhã, almoço e jantar.

Na cozinha, possui utensílios raros – como liquidificador, tostador e panelas elétricas. “Compramos panelas elétricas porque aqui em Baracoa há muito problema de falta de gás, que também tem preço alto”, explica Maribel. Ela está entre milhares de cubanos que foram às lojas de produtos eletrônicos, cuja venda era restringida desde 2003, devido ao déficit energético do país. Foram liberados em meados de março. A medida provocou uma corrida consumista às lojas.

Maribel segue quase todos os dias para a rodoviária de Baracoa em busca de mais hóspedes. Oferece até o quarto que era de sua filha de 18 anos, que vive hoje em Santiago de Cuba, onde estuda Medicina. “Não preciso pagar um centavo. Lá em Santiago ela tem tudo, alojamento, comida, ensino de qualidade. Nunca pagamos nada para ela estudar. Esse é um dos grandes orgulhos do povo cubano”, enfatiza, sem levar em conta que sua filha médica vai ganhar menos que a mãe.

A condição de Fernando Estéves, cardiologista num dos mais importantes hospitais de Santiago de Cuba, é representativa da realidade local. Para reforçar os 600 pesos que ganha por mês, vende roupas usadas e recebe turistas na casa que divide com uma senhora de 65 anos, Dona Íris. Num final de semana de praia, faz massagens em turistas por uns CUCs a mais. Nos últimos meses, comprou um par de sapatos novos, os dois que possuía eram bem rodados. “Para comprar um sapato melhor pago em torno de 15 CUCs, mais da metade do que ganho do governo trabalhando como médico”, desabafa.

Uma das maiores expectativas da população é por uma equiparação de valores de CUCs e pesos ou aumento real dos salários. Era o que esperavam os cubanos na ocasião do discurso de Raúl Castro no mês de julho, na festa dos 55 anos do Ataque ao Quartel de Moncada – a primeira ação rebelde que resultaria no triunfo da revolução, em janeiro de 1959. Mas não foi dessa vez. “Não adianta ganhar em peso cubano e ter de pagar a maioria das coisas em CUCs” é a frase repetida por Maribel, Pedro, Fernando, Gustavo, Ubaldo, Félix e tantos outros em poucos minutos de conversa. Por conta disso, como já acontece em todo o mundo, o herói Ernesto Che Guevara, símbolo da revolução, é também o concorrido souvenir comprado nas ruas por um dólar.

JOÃO CORREIA FILHO carro
Os famosos carros cubanos hoje são restaurados nas oficinas mecânicas para ser alugados aos turistas
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