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Número 28, Outubro 2008

viagem

O que nem os búzios revelam

Cidade mais famosa da Região dos Lagos do Rio de Janeiro, mesmo vitimada pelo turismo predatório, consegue guardar relíquias da natureza e da ciência
por Maurício Thuswohl publicado , última modificação 29/11/2017 14h36
Cidade mais famosa da Região dos Lagos do Rio de Janeiro, mesmo vitimada pelo turismo predatório, consegue guardar relíquias da natureza e da ciência
Ivone Perez
Praia de Geribá

Praia de Geribá

O costão rochoso é magnífico. De um lado, um despenhadeiro de quase 50 metros, esculpido pelas ondas que ali arrebentam com força. Do outro, uma falésia composta por pelo menos três tipos de rocha – de cores e texturas diferentes –, que se encontra com o mar de um azul intenso. Nesse cenário, o capricho da natureza construiu em meio às rochas três piscinas naturais que, alinhadas em alturas diferentes, têm suas águas constantemente renovadas pelo mar e formam entre si uma espécie de cascata. Após mais de uma hora de difícil caminhada, um banho nas piscinas revigora o corpo e os pensamentos. A beleza, como diz o poeta, “arrebenta as retinas de quem vê”.

Esse pedacinho de paraíso, oficialmente, não tem nome. Os moradores da região deram-lhe o nome, básico, de Poças. O mais curioso é saber que esse ecossistema quase intocado, onde se podem observar gaviões e tartarugas marinhas, fica em Armação dos Búzios, um dos balneários mais conhecidos (e agredidos) do Brasil. A 165 quilômetros do Rio de Janeiro, Búzios é a maior jóia ecológica e arqueológica da Região dos Lagos, mas sofre com o turismo predatório. A cidade tem pouco menos de 30 mil habitantes, mas sua população cresce quase dez vezes durante o verão há pelo menos duas décadas.

A riqueza natural de Búzios é tão grande que, mesmo em pleno 2008, ainda existem lugares como Poças que, felizmente, permanecem pouco ou nada conhecidos. A parte mais consciente dos moradores prefere que isso continue assim. Para os aventureiros que quiserem descobri-lo, uma dica: assim como diversos outros lugares magníficos desse circuito off de Búzios, Poças está bem perto de lugares conhecidos e badalados (como Geribá e Ferradurinha). Chegar lá, no entanto, não é tarefa para principiantes. A trilha é íngreme e, em alguns pontos, semifechada pela vegetação. Além disso, a descida pelo costão escorregadio exige boa dose de coragem e atenção.

Outra maravilha de Búzios pouco conhecida ou freqüentada pelo “turista normal” é a praia de Zé Gonçalves. Localizada na Área de Proteção Ambiental (APA) Pau-Brasil, cercada pela vegetação de restinga preservada e uma mata que se encosta à areia branca, é uma das poucas praias da cidade que servem para surfe. A vantagem de Zé Gonçalves em relação a outros points, entretanto, é que, mesmo no verão, lá não é preciso disputar cada onda a tapa: “Aqui não tem tanta gente, é uma praia à qual se chega escondido, com o caminho por dentro do mato... É diferente, por exemplo, de Geribá e Tucuns, que ficam mais cheias”, conta o surfista Alex Ridzi, de Rio das Ostras.

“A praia é boa para o surfe porque é virada para o sudeste e, sobretudo na época de outono e inverno, as ondulações vêm do sul e entram aqui certinho. O vento quase sempre é terral, então quebram boas direitas aqui no point colado na pedra”, explica Ridzi. Mesmo para quem não pega onda, Zé Gonçalves fascina. Enquanto esteve na praia, a reportagem foi premiada pela visita de uma foca que, provavelmente perdida de seu grupo, descansou na areia e nadou entre as rochas. A entrada para a praia fica na estrada velha que liga Búzios a Cabo Frio. Para chegar lá, é preciso cortar a APA Pau-Brasil e seguir por um tortuoso caminho de areia e terra. Mesmo com a possibilidade de acesso para automóveis, ainda não existem sinais de turismo predatório no local.

Rodrigo Queiroz Praia dos Amores
Praia dos Amores

Além dos prazeres da contemplação, do banho de mar, da prática de caminhadas ou dos esportes, o circuito off dos que amam Búzios traz conhecimento científico. Considerada pelo governo como área de interesse geológico, a Ponta da Lagoinha é lugar mágico. Lá se encontra a prova de que as rochas que constituem o que hoje chamamos de Armação dos Búzios foram formadas por um “acidente” entre a América do Sul e a África, ocorrido num distante passado. Essas rochas foram submetidas a altas pressões e temperaturas e produziram minerais típicos. Dois deles – o zircão e a monazita – foram descobertos por uma geóloga na Ponta da Lagoinha. Os minerais têm entre 500 milhões e 520 milhões de anos.

Uma placa colocada pelo governo do Rio de Janeiro na Ponta da Lagoinha informa aos visitantes que, há 520 milhões de anos, existia no planeta uma grande massa de terra, conhecida como paleocontinente Gondwana, que aglutinava as massas continentais de América do Sul, África, Austrália, Antártica e Índia. Segundo os cientistas, essas massas, por meio de colisões de proporções titânicas, geraram cadeias rochosas conhecidas como orogenias. O Himalaia é um exemplo de orogenia. Búzios também. Ou seja, a região tem ainda uma impressionante riqueza mineral, que não pode ser transformada em lucro, mas é um tesouro para a ciência, os olhos e o espírito. Tomar sol sobre as rochas que um dia estiveram encostadas na África, num lugar não maculado pelo turismo predatório, não tem preço.

O que tem preço, às vezes salgado, é a hospedagem em uma das excessivas pousadas de Búzios. Lotadas no verão, assim como as principais praias, os restaurantes e as boates, elas têm sua atividade bastante reduzida no período outono/inverno, reflexo de um desequilíbrio econômico crônico da cidade. Tentando vender algumas lagostas ainda vivas a turistas que passeiam pela Praia da Tartaruga – um lugar procurado por amantes do mergulho de todo o mundo –, o barraqueiro Edevaldo Almeida Santos lamenta essa realidade: “Aqui sempre teve mais brasileiro no verão e mais gringo no inverno. Sempre tive muitos clientes argentinos, mas agora eles estão todos duros. No verão é festa, mas no inverno temos que lutar para comer e sobreviver”, diz.

O crescimento da classe média brasileira pode ser notado em Búzios. Gerente do restaurante David, fundado há 35 anos e um dos mais tradicionais da cidade, Marcus Vinícius de Oliveira confirma essa impressão: “Nosso público abrange as classes média e alta, mas seu perfil mudou um pouco nos últimos anos. Caiu o número de argentinos, mas em compensação estamos recebendo um novo público formado, em sua maioria, por cariocas, paulistas e mineiros de classe média”.

O mesmo prestígio do restaurante David tem a Peixaria Araújo, na Praia de Manguinhos. Dona de clientela fiel, a proprietária Alice Okasaki Araújo ainda se orgulha de vender pescado fresco e tirado há pouco tempo do mar, mas lamenta o crescimento desordenado: “Há um grande consumo nos meses de verão, mas tem a saturação do pescado. O camarão cinza, uma das marcas registradas da região, praticamente só é encontrado em criações de cativeiro”, diz.

Rodrigo Queiroz João Fernandinho
Praia de João Fernandinho

As palavras de Alice definem o dilema de Búzios: sobreviver da vocação turística sem destruir seu patrimônio natural. Resolver essa equação significa salvar um dos lugares mais espetaculares do litoral brasileiro. Existe esperança enquanto estiver preservado um circuito natural off como o formado por Poças, Zé Gonçalves e Ponta da Lagoinha. Mas ainda não se chegou a um estágio de sustentabilidade que permita aos moradores – aqueles que amam Búzios – não precisar mais pedir para que o acesso a esses lugares não seja revelado.

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