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Número 25, Junho 2008

viagem

Só ou acompanhada em Dublin

Viver em outro país é uma experiência e tanto, mas é preciso lutar contra o fantasma da idealização: a frustração
por Adriana Cristina publicado , última modificação 13/11/2017 14h52
Viver em outro país é uma experiência e tanto, mas é preciso lutar contra o fantasma da idealização: a frustração
adriana cristina
Dublin

Região central de Dublin

Antes de vir para cá, sonhei uma porção de coisas, como fugir dos problemas e da rotina que me acompanhavam no Brasil. Cri que minha vida se tornaria cheia de aventuras e realizações fantásticas, que fosse conhecer pessoas maravilhosas, interessantes etc. etc. etc. Não é bem assim, mas também pode ser isso. A realidade é que não há como fugir da “vidinha”. Nem no Brasil, nem na China, nem em Xangri-Lá. Nem aqui. Confesso que me frustrei quando descobri que estava difícil encontrar a minha turma, que brasileiro aqui só fala de dinheiro e só quer saber onde e quantas horas você trabalha por semana, para calcular quanto mais ou menos você ganha ou já juntou; que os irlandeses só pensam em beber, beber e... beber; que a escola de inglês é uma droga e o professor tão desanimado para ensinar quanto os alunos para aprender; que o céu de Dublin é inconstante, que a cidade é monótona etc. etc. etc.

Cheguei à conclusão de que não era um bicho do mato anti-social quando conversei com uma jornalista brasileira, a Lisia, que passa uma temporada de dois meses de estudos em Dublin. Nos encontramos em um pub. Ela me deu a perspectiva da cidade do ponto de vista turístico, o que, às vezes, pode ser mais interessante do que quando “só” se vive nela, que é o que faço desde janeiro. É como paulistano que não conhece os museus ou monumentos de São Paulo. Contei-lhe as minhas expectativas e frustrações com essa jornada e ela, que antes esteve em Madri, disse que também se sente meio sem-chão em Dublin. A diferença, segundo ela, é o céu, o clima, a latinidade. Madri é Madri, enquanto a Irlanda tenta se engrenar nas carruagens da História.

Diante do meu estado quase depressivo, a Lisia me disse uma frase que foi decisiva: “Mude o foco. Viaje, saia daqui, para que você não tenha a sensação de que caiu na ‘vidinha’, nos problemas do cotidiano de casa-trabalho-dinheiro. E Dublin acaba empurrando a gente para isso. Conheço um monte de gente que não agüenta mais por causa disso”. Bingo. As palavras caíram como música nos meus ouvidos e escolhi tornar o sonho uma experiência saborosa, antes que virasse pesadelo.

Consegui três dias de folga do trabalho no pub e me dei direito a três dias de cano na escola. Eu, Lisia e a Mary, uma professora de Literatura Brasileira de BH, fomos para Galway, uma cidadezinha universitária do lado oposto a Dublin, na costa do Atlântico. No trajeto de três horas até lá, vi paisagens típicas da Irlanda, com sua grama verde, grandes fazendas com suas vaquinhas e ovelhas que viviam no meu imaginário do que era a Irlanda, um país bucólico e cheio de magia.

A cidade possui um rio e parte dela é rodeada por uma baía, onde os jovens aproveitam para sentar-se às margens, tomar uma cervejinha e esperar o sol se pôr lá pelas 10 da noite. Fizemos um passeio para Burren e Cliffs of Moher. A primeira paisagem é formada por rochas que se assemelham ao que se vê em fotos do solo lunar, com rochas que remontam ao período Neolítico. Tudo lindamente preservado. Irlandês também pode ser civilizado. O ônibus transita sempre pela mesma paisagem, confesso que às vezes se torna cansativo olhar tantas fazendas, ovelhinhas e vaquinhas e grama verde, com aquelas casinhas no meio do nada que lembram contos de fadas. Mas é linda a solidão transmitida pela paisagem bucólica. Porém, urbana como sou, não me imagino vivendo num lugar assim.

adriana cristina Galway
Cliffs of Moher, na região de Galway

A boa surpresa dessa trip fica para o final: Cliffs of Moher, lindos, deslumbrantes e assustadores penhascos caindo no Atlântico e pássaros voando. Um farol do século 13 parece ruínas de um castelo. Esses cliffs não possuem nenhuma segurança e, por horas, o caminho é tão estreito que dá medo de, num espirro, despencar. É. Não há como estar no Velho Continente e não conhecer, desvendar povos e culturas tão diferentes. Estou a uma hora e meia da Espanha, a duas de Paris ou Londres e, graças às companhias aéreas de baixo custo, são viagens mais fáceis até do que viajar pelo nosso Brasilzão.

Voltei para Dublin com um cansaço gostoso e a sensação de ter um porto seguro para voltar. Pela primeira vez desde que estou aqui senti que a cidade é a minha casa. Pena que, numa jornada assim, você encontra gente que vem e vai. Em meados de junho Lisia e Mary vão embora, e terei de procurar uma nova turma, o que, por incrível que pareça, é tão difícil quanto fazer amigos leais nessa vida. Essa foi outra das lições que Dublin e esta viagem me ensinaram: vim sozinha, estou sozinha e, neste mundo, a gente nasce e morre sozinho. Todos os dias, faço um exercício de desapego, seja de dinheiro, de trabalho ou de pessoas. Porque tudo vem e vai, passa muito rápido. E, antes que essa viagem acabe e eu fique com aquela sensação de não ter aproveitado tudo o que queria, decidi viver intensamente este momento, seja sozinha ou acompanhada.

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