Você está aqui: Página Inicial / Revista do Brasil / Edição 25 / Aprendendo a pescar
Número 25, Junho 2008

cidadania

Aprendendo a pescar

Como a tilápia inverteu perspectivas e revitalizou comunidades no interior do Ceará
por Breno Castro Alves publicado , última modificação 13/11/2017 14h17
Como a tilápia inverteu perspectivas e revitalizou comunidades no interior do Ceará
Breno Castro Alves
pescadores

A comunidade pesqueira de Jurema, no Ceará, às margens do Açude Orós, parece viver o melhor momento de sua história. Seiscentas e quarenta gaiolas de criação de tilápia preenchem uma paisagem onde, há menos de quatro anos, havia apenas a água doce da represa. A explosão da aqüicultura transformou a dinâmica das 49 famílias que vivem no local: zerou o desemprego, renovou sua auto-estima e incentivou o empreendedorismo. O Ministério da Integração Nacional começou ali um projeto experimental em 2004, cedendo dez gaiolas e recursos iniciais para a criação de peixes em cativeiro. Os dois primeiros anos foram de aprendizado – com consultoria do Sebrae –, muito trabalho e nenhum lucro. O dinheiro começou a entrar no final de 2006, quando a comunidade passou a dominar todas as etapas do processo produtivo e a não mais depender de recursos do governo.

As gaiolas são quadrados de dois metros de largura por um de profundidade. Canos leves e resistentes formam o esqueleto, revestido por uma tela. Estão fixadas no fundo por pedras-âncora e na superfície por grandes bóias azuis. Em torno de dez gaiolas são amarradas em linha e organizadas por idade e tamanho dos peixes, que demandam pouco trabalho com alimentação e manejo. Uma única pessoa por grupo, em sistema de rodízio, percorre remando as vias entre as gaiolas servindo a ração – uma mistura de milho, soja, farinha de osso e sangue de seus semelhantes.

Cada trabalhador recebe cerca de R$ 200 por mês por uma jornada de meio período, já descontado o pagamento do empréstimo tomado no Banco do Brasil para financiar a aquisição dos meios de produção por parte da comunidade. A renda é complementada com agricultura, pesca artesanal e pequenos comércios, atividades de remuneração incerta e sazonal. A outra fonte de renda garantida da comunidade é a aposentadoria dos mais idosos.

Neste ano, 7.000 quilos diários de peixes saíram das gaiolas da Jurema no período da Quaresma, quando o consumo aumenta muito. Em situação regular, entre 1.500 e 2.000 quilos de peixes são abatidos diariamente e, destes, 600 ou 700 quilos são beneficiados na unidade de processamento da Delícias D’Águas, empresa comunitária que produz rissole, bolinhas, patê, lingüiça, fishburguer e buchada, tudo a partir da tilápia.

Tamanha produtividade fez com que a comunidade recrutasse de volta alguns filhos que partiram em busca de oportunidades no Sudeste. Dos atuais 165 moradores de Jurema, 58 fazem parte de um dos quatro grupos de pesca, de 15 a 20 trabalham na unidade de processamento e outros prestam serviços de suporte à cadeia produtiva. Um dos que retornaram de São Paulo foi Marcio Candido, que hoje vende o peixe produzido ali em mercados e feiras da região. Identificou uma oportunidade e a aproveitou: “Se não tivesse dado certo, provavelmente teria voltado para São Paulo. Essas gaiolas estão deixando muita mãe feliz”, relata.

Pois é, o paraíso

O Orós foi inaugurado por JK em 1960 e permaneceu até 1983 como o maior açude nacional, com 2 trilhões de litros quando cheio. Hoje é o terceiro maior. O terreno acidentado sinaliza que a água não pertence àquele ambiente; cadeias montanhosas e colinas verdejantes terminam bruscamente em um lago de águas serenas e, quando as chuvas caem como neste ano, exuberantes.

“Pois é rapaz, aqui é o paraíso. Não trocaria um salário aqui por cinco em São Paulo.” Dito isso, Nemésio Venâncio – braços de remador, pele triscada pelo sol, prata ao redor do pescoço e do anelar esquerdo – enche os pulmões de ar e mergulha seguindo o rumo de uma corda. Desce a dois, quatro, seis, oito metros de profundidade, onde encontra seu objetivo, a poita, pedra que ancora toda uma fileira de gaiolas. Desamarra a corda e sobe para a superfície, dando prosseguimento ao trabalho de seu grupo de rearranjar aquela seção da criação.

Nemésio sempre foi pescador e já percorreu diversos açudes do sertão cearense atrás de trabalho. Não gosta de vara, incomoda-lhe a idéia de ficar esperando o peixe vir até ele – prefere ir atrás da presa com arpão ou armar o galão. Rede retangular que chega aos 50 metros, o galão é a mais tradicional forma de pesca artesanal na região. Em um dos lados maiores do retângulo são costurados diversos pesos de chumbo, no outro se faz o mesmo com cortiça. O lado mais leve flutua e o metal estica a rede em direção ao fundo. De um dia para o outro a rede captura por volta de 30 unidades de peixes variados.

A pesca dessa forma artesanal rende algo entre R$ 50 e R$ 300 por mês, dependendo de uma infinidade de fatores, como chuva, competição e qualidade da água. Além da inconstância do rendimento, os pescadores estão sujeitos a jornadas de trabalho exaustivas, muitas vezes noite adentro, e à necessidade de deslocar-se periodicamente, deixando sua casa para trás. Finalmente, o período de desova veta a pesca por três meses todos os anos. “Olha minha mulher vindo ali. Já te falei que aqui é o paraíso?”, reafirma Nemésio, que, depois de muitas noites pescando na companhia solitária das muriçocas, trabalha hoje a poucos metros de casa, ao lado da mulher, Paula Rodrigues.

Produção local e pessoal

Apesar de o nível de produção atual ser suficiente para garantir conforto e segurança a uma comunidade acostumada a longos períodos de escassez, ainda é possível melhorar a produtividade. A opinião é de Eduardo Maciel, engenheiro de pesca que, trabalhando para o Ministério da Integração, prestou a primeira assistência à comunidade, em 2004. Hoje mantém contato com o grupo na condição de gerente de uma multinacional da área de criação e ração animal. Maciel acredita que tecnologias simples e funcionais podem ser aplicadas no local para produzir mais em menos tempo, mas pondera que a comunidade deve ficar atenta ao desequilíbrio ecológico que a atividade pode desencadear. “Sangue e escamas provenientes da limpeza do animal na beira do açude, restos de ração e excrementos de peixe não fazem parte do ecossistema local e proporcionam terreno fértil para a proliferação de bactérias que geram produtos tóxicos, como a amônia”, adverte o engenheiro.

Outro fator que prejudica o desenvolvimento econômico pleno da atividade é a escassez de novos empreendedores locais. Quem teve o interesse de desenvolver uma iniciativa pessoal paralela à criação de tilápias já o fez e o restante dos moradores está satisfeito com a situação atual. “O pessoal precisa parar de pensar como empregado e começar e se enxergar como empresário, que é o que eles são”, aponta Marcio Candido, que estudou Administração em São Paulo. A poucos metros dali seu conterrâneo Francimeldo Soares está deitado na rede no meio da tarde de um dia de semana. “Trabalhar mais? Ganhar um pouco mais de dinheiro? Preciso não, rapaz.”

As frescuras dos alevinos
Todo mês um caminhão com 80 mil alevinos, o primeiro estágio do desenvolvimento do peixe, chega a Jurema. Pesando menos de 1 grama, esses embriões são divididos em grupos de 4.000 em gaiolas-berçário e ficam ali 21 dias. Com cerca de 8 gramas, são transferidos para a próxima etapa em grupos de 2.000. Com 35 gramas, passam para grupos de 700, onde permanecem até 250 gramas. O abate é feito quando as tilápias pesam cerca de 800 gramas e estão em grupos de 500, cerca de seis meses depois. Alevinos são frágeis e demandam cuidados permanentes. Os filhotes devem ser alimentados 11 vezes por dia em horários regulares; não se pode fazer barulho perto deles; não se pode removê-los do caminhão para gaiolas, é necessário que nadem sozinhos até seu novo habitat. O manejo dos peixes deve ser feito nas horas “frias”, no máximo até as 10 da manhã. Qualquer alteração nessas condições aumenta o estresse do bicho, o que promove a proliferação de fungos e bactérias e interfere no seu desenvolvimento.

Jurema é uma das pioneiras dos seis núcleos de aqüicultura que criam tilápia em cativeiro no Açude Orós (a 420 quilômetros de Fortaleza, no centro-sul do Ceará). Hoje alcança os maiores índices de produção, sendo a única com unidade de processamento de pescado. Além das famílias, outros 94 pescadores participam da atividade local. O projeto, fomentado pelo Ministério da Integração Nacional, contou com ações de capacitação promovidas por órgãos como Sebrae, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, FAO/ONU e Centro de Ensino Tecnológico.

registrado em: ,