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Número 25, Junho 2008

história

A democracia na linha de montagem

Há 30 anos, uma greve na fábrica da Scania impulsionou a organização dos trabalhadores e a retomada da democracia
por Maria Angélica Ferrasoli e Sílvio Berengani publicado , última modificação 09/11/2017 16h58
Há 30 anos, uma greve na fábrica da Scania impulsionou a organização dos trabalhadores e a retomada da democracia
Arquivo/Sindiban POA
Porto Alegre

Em Porto Alegre, a exemplo do que aconteceu no ABC, dirigentes sindicais foram cassados em 1979 por liderar a maior greve dos bancários na cidade

“Eu às vezes deito, fico olhando para o teto e pergunto: será que sou mesmo o presidente da República?” A frase foi dita em 12 de maio, numa celebração de 30 anos da greve da Scania, no ABC paulista. E não poderia ser de outro senão do presidente Lula. As palavras cabiam bem ao momento histórico que a produziam: 30 anos separavam o líder metalúrgico daquele mesmo local, o sindicato da categoria em São Bernardo. Quando os trabalhadores da Saab-Scania mandaram avisar que haviam cruzado os braços, era o início da primeira greve pós-AI-5, em plena ditadura militar. Começava ali, vigiada pela polícia, encurralada pelas ameaças dos patrões, outra linha de montagem cujo produto final não foi apenas o resgate da dignidade dos trabalhadores, mas também o da democracia.

No comando daquele movimento estava Gilson Menezes, então delegado de base do sindicato: “Tudo foi organizado muito rápido, ninguém podia saber, porque senão já vinha o Dops. Não podíamos errar”. Os operários reivindicavam 20% de aumento salarial. A inflação, manipulada pelo governo (como reconheceria o ministro Mário Henrique Simonsen), já fomentava ações de cunho social contra o regime militar. Um ano antes, o Movimento contra a Carestia uniu entidades ligadas à Igreja, a partidos clandestinos e organizações populares e colheu mais de 1 milhão de assinaturas para um documento, entregue ao governo, em que se reivindicavam controle de preços, melhores salários e empregos. A oposição à ditadura começa a tocar as massas. Ao cenário se juntavam a Campanha pela Anistia, a volta dos estudantes às ruas e a leitura da Carta aos Brasileiros pelo jurista Goffredo da Silva Telles. O documento, assinado por 92 personalidades, a maioria do meio jurídico, clamava pelo retorno do estado de direito. Eram focos de ação rapidamente abafados pelo ambiente de censura e repressão que começavam a se somar e ganhar corpo.

A greve na Scania foi um estopim. “A Ford também parou! Deu no rádio!”, ouviria Menezes de um companheiro, poucos dias depois. De maio a agosto, 300 mil operários em centenas de fábricas do ABC e do interior paulista, como Sorocaba, Campinas, Itu e Jundiaí, participariam de paralisações. A reação contaminou outras categorias e estados brasileiros. E teria apoio internacional, de organizações sindicais da Suécia (sede da Scania), da Alemanha e dos EUA, terras da Volks e da Ford.

Levantados do chão

Para a pesquisadora Laís Abramo, autora do livro O Resgate da Dignidade, sobre maio de 1978, o movimento de São Bernardo afirmou uma “subjetividade coletiva” diante do Estado autoritário e do “despotismo empresarial e ampliou os limites do possível não apenas para si como para o conjunto dos setores populares e democráticos”. Estimulou um ciclo grevista praticamente sem interrupções nos dois anos seguintes. Os trabalhadores voltaram à cena política. E no olho do furacão da ditadura.

Quando a greve de 78 chegou na Volkswagen, todas as linhas telefônicas, internas e dos orelhões, foram cortadas. Desconhecidos “seguranças” começaram a transitar e a impedir a circulação entre as alas. As famílias dos metalúrgicos não tinham como saber o que se passava ali dentro, e o medo não era de demissão, mas de sumiço, prisão. O tratamento desumano não era novidade para os peões nem primazia da montadora. “Éramos obrigados a fazer de três a quatro horas extras por dia. Ninguém podia recusar. Ou ‘rua’; ninguém ficava com a família. Havia uma revolta, a classe trabalhadora era tratada como bicho”, contou Djalma de Souza Bom, à época metalúrgico da Mercedes-Benz e diretor sindical.

Ezequiel Dias Batista, que naquele 12 de maio tinha 20 anos, confirma. “A chefia nem falava com a gente, apenas colocava um comunicado avisando sobre as horas extras no fim de semana”, recorda o ex-trabalhador do setor de manutenção da Scania. “Com a greve, passamos a ser ouvidos. Antes, era como bater na pedra.” Na avaliação do hoje ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, o jornalista e cientista político Paulo Vannuchi, então militante da oposição à ditadura, daquele movimento emergiu, além do caráter classista e combativo, um terceiro componente: “O componente de massa, que faltou à minha geração”.

E levar a informação às massas não era fácil. Um episódio singular da greve da Scania poderia tê-la abortado, alertando os órgãos de repressão. “Um dia antes da paralisação, dois líderes do movimento, Gilson Menezes e Augusto Portugal, pediram a um repórter da Folha de S.Paulo um favor: convocar a imprensa para estar na porta da fábrica, no dia seguinte, a partir das 6 da manhã. ‘A Scania vai entrar em greve’, disse Augusto. Entre dar um grande furo de reportagem e honrar o compromisso, o repórter optou pela segunda alternativa. E deu certo.” O relato foi feito pelo jornalista Júlio de Grammont em 1998, morto nesse mesmo ano em acidente de automóvel. Julinho, ele próprio o tal repórter que optou pelo compromisso, se tornaria um dos grandes precursores das estratégias de comunicação que acompanhariam o novo sindicalismo.

Efeito dominó

Para os operários de São Bernardo e Diadema, o resultado inicial das greves de maio foram aumentos reais entre 5% e 15%. Junto, sobrevieram demissões. Mas a semente fora lançada. Outras categorias, vitimadas por sindicatos de fachada aliados à ditadura, também queriam levantar suas vozes. “A partir de São Bernardo o clima de combate terá repercussão na sociedade brasileira”, aponta Laís Abramo, hoje diretora do escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil.

Na onda de greves do Grande ABC, os trabalhadores do setor químico pararam a Fontoura Wyeth e a Anakol, atual Kolynos. Agenor Narciso, à frente do movimento, recorda: “Fomos os primeiros a conquistar acordos de 40 horas semanais”. A greve daquele ano foi o cartão de entrada de Narciso na entidade. Por dentro da estrutura, à época francamente patronal, liderou o grupo que em 1982 conquistaria o sindicato. No mesmo ano, a direção intervencionista dos químicos de São Paulo também foi derrotada.

Ainda em 1978, em agosto, militantes bancários de São Paulo entoaram palavras como “65% ou greve”, e tentaram deflagrar um movimento. A direção do sindicato contava então com poucos integrantes simpáticos à causa da categoria e estava majoritariamente afinada com os bancos e o governo. E recorreu à Justiça do Trabalho para buscar acordo, enquanto a polícia reprimia manifestantes. “As greves na Scania e em outras montadoras permitiram que parcela da sociedade civil se integrasse a esse movimento. Foi um passo colossal na luta contra a ditadura. Permitiu a ampliação da luta das oposições sindicais, entre elas a dos bancários”, afirma Augusto Campos.

Solidariedade e organização

Outras frentes da sociedade começam a ganhar força, como as Comunidades Eclesiais de Base, lideradas por religiosos afinados com a Teologia da Libertação. Dom Cláudio Hummes, bispo da diocese de Santo André, participa de assembléias. A campanha salarial de 1979 começou em clima de euforia e de repressão. Se no ano anterior a greve surpreendera, agora os patrões estavam mais preparados. Os peões também. O terceiro congresso dos metalúrgicos de São Bernardo, em outubro de 78, já discutira novas bandeiras, desde a criação de comissões de fábrica até uma central de trabalhadores.

Na campanha de 1979 os metalúrgicos do ABC decretaram greve de toda a categoria. Reivindicam pela primeira vez a presença dos delegados sindicais nas empresas, além de 34,1% de reposição salarial. O Tribunal Regional do Trabalho julga a greve abusiva e rejeita a representação dentro da fábrica. O sindicato sofre intervenção federal e, no 1º de Maio, o estádio de Vila Euclides começa a entrar para a história, ficando pequeno para os 150 mil que participam do ato chamado pela entidade. Para manter a mobilização é criado o Fundo de Greve, que funcionaria paralelamente ao sindicato caso este fosse ocupado pela ditadura. Dinheiro e alimentos são coletados nos bairros. A greve não traz o resultado esperado, mas metalúrgicos e suas lideranças amadurecem, na prática, conceitos de confiança, solidariedade e organização. Foi em 1979 que Francisco Canindé Barbosa da Silva, 53 anos, entrou na Volkswagen. “Participei de todas as greves, de 1979 até 2000. Às vezes a gente pensava, questionava... Mas a verdade é que tem de lutar mesmo”, destaca Francisco, que trabalhou na estamparia.

Em São Paulo, a oposição bancária tomaria o sindicato. Em Porto Alegre, quatro dirigentes, entre eles Olívio Dutra, seriam cassados por liderar a maior greve dos bancários na cidade. Naquele ano, mais de 3 milhões de trabalhadores em 15 estados fariam movimentos paredistas. Destacou-se o dos trabalhadores na construção civil de Belo Horizonte – que se rebelam contra patrões e seu próprio sindicato. E a greve dos cortadores de cana de Pernambuco. Os professores da rede estadual paulista, que já haviam feito greve em 1978, voltaram a cruzar os braços – além disso, venceriam as eleições em sua entidade de classe, a Apeoesp, até então também controlada pela direita.

Naquele mesmo ano a Lei da Anistia permitiu o retorno de exilados políticos ao Brasil. Aos movimentos operários e populares soma-se a participação de intelectuais e políticos anistiados. Com essa convergência, o ano de 1980 é especialmente nervoso. São 41 dias de greve. No decorrer, Lula é preso, demitido da Villares e enquadrado, com outros sindicalistas, na Lei de Segurança Nacional. A Igreja Matriz, na região central de São Bernardo, vira praça de guerra. As mulheres saem às ruas em passeata; no Paço de São Bernardo, as pessoas tentam formar com seus corpos a palavra “Democracia” (por causa da reação policial não foi possível terminá-la). Os ventos da contestação e o espírito de solidariedade fortalecem outras categorias e chacoalham com vigor o último governo da ditadura. Com a volta do pluripartidarismo, nasce o Partido dos Trabalhadores (PT). “Aprendemos que o sindicato existe para melhorar a relação capital–trabalho. Mas para transformar a sociedade era preciso fazer política”, disse Lula.

Nos anos 1980 avançam as retomadas, pelo voto direto, de muitos sindicatos antes dominados por interventores. Em agosto de 1983 esse novo sindicalismo criaria a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Começam novas frentes de batalha. Nas negociações com os patrões, pela proteção salarial contra a inflação; no cenário nacional, pela redemocratização. É pelo ABC que o recém-nascido PT inicia sua escalada. O primeiro prefeito eleito pelo partido, Gilson Menezes, inaugurou 1983 um modelo de gestão popular que já dura 25 anos em Diadema.

“Não é fácil. É como se um filme passasse pela minha cabeça, por tudo o que aconteceu naquela data”, afirmou Gilson ao retornar à porta da Scania no último 12 de maio. Um pouco desse filme está na película Linha de Montagem, de Renato Tapajós, exibida nas comemorações. Tapajós contou que só soube das peripécias para salvar sua obra das mãos da censura assistindo ao documentário Peões, de Eduardo Coutinho (2004). Francisco Canindé viu o filme. “Estou aposentado, e fiz questão de vir hoje aqui, porque valeu e está valendo a pena. Ainda precisa melhorar, mas a verdade é que também já melhorou”, avalia. O presidente Lula, ao deitar e olhar para o teto, já pode partir para outras indagações.

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