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Número 22, Março 2008

Crônica

Outros oitos

Como a numerologia explica este misterioso fato, mas a verdade é que todos os anos terminados em oito são especiais
por José Roberto Torero publicado , última modificação 10/10/2017 17h18
Como a numerologia explica este misterioso fato, mas a verdade é que todos os anos terminados em oito são especiais
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Há oitos em todo lugar. Há oitos gelados, como duas bolas de sorvete, há oitos etílicos, como dois vinhos na adega, há oitos brincalhões, como o autorama, há oitos violentos, como o cano duplo da Winchester, há oitos poéticos, como a lua a se refletir no mar, e, é claro, há um oito neste ano de 2008.

Em 1938, por exemplo, foi inventado o Super-Homem, o mais poderoso de todos os super-heróis. E Getúlio Vargas inventou “A Hora do Brasil”, depois conhecida como “A Hora do Brasil desligar o rádio”.

1968 é tão excepcional que é chamado de “o ano que não terminou”. Se bem que hoje em dia há quem diga que nada sobrou dele.

Em 1908 chegaram aqui os primeiros japoneses, trazendo sushis, sashimis e karaokes. E em 1918 houve a única precipitação de neve em São Paulo.

Já 1928 foi um ano de extremos. Enquanto Mário de Andrade criava Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, Josemaría Escrivá de Balaguér criava a Opus Dei. Sem falar que é o ano da penicilina e de Mickey Mouse, que muitos dizem serem as duas drogas mais poderosas inventadas pela humanidade.

Em 1958 tivemos uma safra excelente: foi lançado o elepê Canção do Amor Demais, marco inicial da Bossa Nova, ganhamos a primeira Copa do Mundo, com Didi, Garrincha e Pelé, e foi inventado o bambolê.

Enquanto os argentinos vêem 1978 com o orgulho da primeira conquista de uma Copa, os brasileiros sempre haveremos de lembrar-nos daquela suspeitíssima vitória da seleção azul e branco por 6 a 0 sobre o Peru, que nos tirou da final do campeonato.

Em 1968 foi baixado o AI-5, que desrespeitava totalmente a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, que diz em seu artigo V: “Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”.

Ainda em 68, Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores perdeu para Sabiá, o doutor Zerbini fez o primeiro transplante cardíaco no Brasil, a brasileira Martha Vasconcellos foi eleita Miss Universo e o estudante paraense Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, foi morto pela polícia carioca num restaurante de sugestivo nome: Calabouço. Ao contrário do que o governo publicou na época, Edson não era líder estudantil nem participava de confrontos armados. Estava apenas almoçando.

Dez anos depois nasceram a Declaração Universal dos Direitos dos Animais e o bebê de proveta. E, no ABC, a greve na Saab-Scania inauguraria uma nova fase do sindicalismo brasileiro, colocando nos jornais, pela primeira vez, um tal de Luiz Inácio. Ah, 30 anos fazem diferença...

Em 1988, ano de oito duplo, duas vitórias: é promulgada a atual Constituição Federal e Senna ganha seu primeiro GP de F-1.

Uma conversa histórica, entre dois líderes mundiais, aconteceu em 1998: Shakira encontrou-se com João Paulo II. Além disso, Fernando Henrique foi o primeiro presidente reeleito do Brasil e, entre suas primeiras medidas, desvalorizou o real, mantido artificialmente em alta até sua vitória nas urnas.

Outra queda, tão real quanto a do real, foi a do edifício Palace II, no Rio de Janeiro, construído com material de péssima qualidade pela empresa do então deputado federal Sérgio Naya.

E, também há dez anos, o Brasil morria na praia do Stade de France, em Saint-Denis, depois da histórica amarelada de Ronaldinho.

1998 não foi mesmo uma grande data. Mas todo ano terminado em oito tem alguma coisa boa e, com o avançar da idade, vamos aprendendo a ver apenas os acontecimentos que nos interessam. Como os dez anos do lançamento do Viagra, por exemplo.

José Roberto Torero é escritor, roteirista de cinema e TV e blogueiro (blogdotorero.blog.uol.com.br)