Você está aqui: Página Inicial / Revista do Brasil / Edição 22 / O Japão na terra vermelha
Número 22, Março 2008

cidadania

O Japão na terra vermelha

A pequena Assaí, no Paraná, foi criada com a chegada dos imigrantes japoneses e sua história ajuda a contar a saga da formação da sociedade nipo-brasileira
por Giedre Moura publicado , última modificação 10/10/2017 11h08
A pequena Assaí, no Paraná, foi criada com a chegada dos imigrantes japoneses e sua história ajuda a contar a saga da formação da sociedade nipo-brasileira
Rafael Mayrink Góes
prática da escrita

A prática da escrita em naquim sobre papel-arroz ajuda a preservar a cultura

O quarto dos fundos da casa de Yaoki Shimizu revela um dos seus maiores prazeres: caixas de som, antigas fitas cassetes e CDs. Aos 77 anos, o que mais o alegra é reunir os amigos para algumas horas de karaoke, cerveja e sashimi. Morador há mais de 50 anos do bairro rural da Peroba, em Assaí, norte do Paraná, Shimizu é um guardião das tradições da sociedade nipo-brasileira – comunidade que vive o centenário da imigração japonesa, com o desembarque de 165 famílias do navio Kasato Maru, no Porto de Santos, em 18 junho de 1908.

As tradições são apenas o modo de viver que ele aprendeu com a forte presença dos nikkeis – os imigrantes e seus descendentes – que chegaram ao norte do Paraná a partir de 1930. Com a queda na Bolsa de Nova York em 1929 e restrições ao plantio do café no estado de São Paulo, as companhias de imigração que compravam terras no Brasil e revendiam aos recém-chegados do Japão descobriram a fertilidade da terra vermelha do Paraná.

A experiência de desbravar a mata fechada para plantar, em árduas jornadas, conferiu aos japoneses autoridade no mundo hortifrutigranjeiro. “No começo foi uma vida muito sofrida. Meu pai, que veio de Hiroshima para o Brasil, em 1925, não tinha a menor experiência na agricultura. Chegou com a minha mãe e meus quatro irmãos. Os outros quatro, como eu, nasceram aqui. Só aprendi o português depois de grande”, recorda Shimizu, que mora sozinho em sua casa no sítio desde 1999, quando sua mulher morreu.

A história da pequena Assaí – de assahi, sol nascente –, com 18 mil habitantes, começa com a imigração. Antes dos japoneses, ali nada existia. Com 15% de nikkeis na cidade, a escola pública tem aulas de japonês, os adolescentes se reúnem para tocar o tradicional tambor japonês, o taiko, e o templo budista e os portais do Parque Ikeda são cartões-postais. Sobrenomes japoneses estão na maior parte das fachadas do comércio. Na maioria das casas dos descendentes dos imigrantes algum membro já decidiu fazer o caminho de volta. Três dos cinco netos de Shimizu são dekasseguis, ou seja, trabalham no Japão.

Shimizu guarda com os diários de seu pai tesouros de sua história. E mantém a tradição. Todos os seus dias são descritos em seus cadernos, se colheu uvas ou recebeu amigos em casa. Em sua sala, um oratório budista, o butsudan, abriga tabuletas, as ihais, nas quais estão escritos nomes dos familiares que já se foram, invocados para proteger a casa. Quadros de shodo, a arte da caligrafia japonesa feita em nanquim sobre papel-arroz, e álbuns com fotos narram a vida da família no Japão e no Brasil.

Fotos antigas ajudam ainda a contar a história de um dos mais antigos imigrantes de Assaí. Noboru Okazaki, de 94 anos, também nascido em Hiroshima, chegou ao Brasil em 1914, a bordo do terceiro navio da imigração, o Wakasa Maru. Depois de ter trabalhado na agricultura por toda a vida, Okazaki foi obrigado a arrendar sua terra no bairro rural do Palmital e se desfazer da casa do sítio feita com detalhes em rendilhado de madeira, a ranma, e com varanda cerimonial, a guenkan, construída logo no início da imigração pelas mãos de mestres da carpintaria japonesa. Teve de ir morar na parte urbana da cidade, por questões de segurança e praticidade. A família é pequena, seu único filho foi embora para o Japão, e ele vive com a nora e a neta, que estuda em Londrina.

O que mais gosta de lembrar é de quando trabalhou na construção da primeira igreja do Palmital. Ajudou a erguer as paredes, a levar e trazer pessoas para a catequese e a difundir o catolicismo entre as crianças. Primeiro imigrante a ser batizado no bairro rural, Okazaki ilustra uma adaptação dos japoneses ao estilo de vida brasileiro.

“Sim, o budismo tradicional vem perdendo adeptos, hoje abrimos nas ocasiões de falecimentos e missas. A cerimônia fúnebre é um dos alicerces do budismo. Não vai acabar, mas vai ser diferente. Os descendentes hoje praticam as mais diversas religiões. A mídia fala muito do zen budismo, do tibetano. O que praticamos é o budismo Terra Pura, que prega pela palavra, o mais popular no Japão”, explica o monge Atsunori Imai, do centro budista de Assaí.

Com um século de imigração, nada mais natural que uma fusão de culturas. E, se os japoneses aderem a movimentos típicos do Brasil, o fluxo contrário também existe. Não é difícil achar em Assaí pessoas sem nenhum parentesco com os japoneses que aderiram a elementos do mundo nipônico. O sobrenome e os olhos azuis do professor Manoel José da Silva, de 41 anos, denunciam que sua ascendência não é asiática, mas ele exibe com orgulho suas peças de origami, principalmente o tsuru – garça, em japonês.

Rafael Mayrink Góes Assaí, a 40 km de Londrina
Assaí, a 40 km de Londrina, surgiu pelas mãos dos imigrantes. São apenas 18 mil habitantes. Na escola pública se ensina japonês

Mil garças

Fazer as garças em origami é uma tradição antiga japonesa para realizar desejos. A menina Sadako Sassaki nasceu em Hiroshima depois da bomba atômica, ficou sabendo da lenda aos 10 anos de idade e decidiu fazer mil pássaros em busca de saúde o suficiente para viver apesar dos efeitos da radiação em seu corpo. Morreu quando estava no 964, mas os parentes e amigos decidiram levar a corrente adiante, e hoje confeccionar mil tsurus é um grande feito entre os origamistas. “Já fiz mais de mil tsurus. Sou um apaixonado pela cultura e pelo modo de ser do povo japonês. Sou budista e já estudei um pouco do idioma também”, conta Manoel.

Ele aconselha uma visita a uma das escolas de japonês da cidade, mantidas por Maria e Miki Tatewaki. Mãe e filha, as duas também ensinam os desenhos do mangá, a pintura do shodo com nanquim e dão conselhos para quem deseja ir para o Japão. A primeira dica para os nikkeis que aprenderam a língua com os pais e avós é “reaprenda o japonês”. O idioma mudou muito. Com a influência do inglês, após a Segunda Guerra Mundial, o vocabulário sofreu grandes alterações. Caderno, por exemplo, era chomen, agora é noto, do inglês note. “Quem for para o Japão falar como antigamente vai se perder. Claro que as pessoas têm mais facilidade, mas o idioma antigo não garante a comunicação no Japão”, alerta Miki.

A maior parte dos seus alunos são pessoas que desejam trabalhar como dekasseguis, e com a grande presença de brasileiros no Japão, hoje são 300 mil, o idioma é um grande diferencial. Muitos brasileiros vivem isolados dos japoneses pela dificuldade em aprendê-lo. Miki também é outro exemplo da manutenção dos laços com a cultura japonesa. “Acho esquisito essa coisa de se tocar, de abraçar, de beijar. Japonês é mais reservado. Também uso quimono em casa.” Comer gohan – o arroz japonês – com feijão, como fazem outros nikkeis, a assusta: “Nem pensar”.

Rafael Mayrink Góes monge
Atsunori Imai: budismo Terra Pura

Folias musicais

Silêncio, paciência e discrição fazem parte da alma japonesa, mas, na casa de dona Geni Goch, pode esquecer. Ela gosta de barulho. Segunda-feira é sagrada, dia de karaoke, ensaios de dança e do empolgante taiko, o tambor milenar que, diz-se, era utilizado nas guerras para motivar as tropas, marcando os passos. Geni transformou o quintal de sua casa em uma espécie de associação cultural. Os ensaios de danças típicas, como o bon odori, e de taiko levam os grupos a excursionar pelo interior do Paraná.

O comando das aulas de taiko é de Herik Ogassawara, 16 anos, neto de dona Geni. “O taiko não é só a música, é também postura e coreografia. E tem histórias, uma das músicas que tocamos imita os carvoeiros trabalhando”, conta o garoto mestiço, que também é fã de música pop japonesa, mangá e anime, os quadrinhos e desenhos animados japoneses. Dirce Fussuma, de 56 anos, encontra na casa de dona Geni uma maneira de passar o tempo, ver os amigos e aprender mais sobre seus ancestrais. Toca o taiko e se realiza no karaoke. “Como são músicas antigas e tradicionais, ainda usamos muita fita cassete. Cantar me diverte”, revela Dirce.

Com a chegada do centenário da imigração, as famílias de Assaí têm dado maior valor aos pertences de seus ancestrais e projetos de construção de um museu da imigração estão nos planos da cidade. O principal museu da região está na cidade de Rolândia (25 quilômetros de Londrina). Apesar de ter bem menos descendentes que Assaí, é lá que serão feitas as comemorações oficiais do centenário em junho, com a presença do príncipe Naruhito, herdeiro da família imperial. Mesmo com a comemoração em outra cidade, dona Geni não desanima. “Nosso povo tem muita coisa bonita para mostrar. Fico feliz em saber que minha casa agora, além de oferecer diversão, serve para perpetuar a arte deixada pelos nossos ancestrais”, revela dona Geni, em um raro momento de silêncio e de folga do taiko.

Japoneses a distância
A imigração japonesa está repleta de traumas. Ao longo da Segunda Guerra Mundial, japoneses tornaram-se presença indesejável em diversos países. Além do Brasil, o Peru e o Havaí receberam grande número de imigrantes. No final do século 19 os japoneses viviam uma grande crise. Com a mecanização da lavoura, a pobreza chegou aos campos, as cidades sofriam com superpopulação e o desemprego foi arrebatador. No Brasil, com o auge do café, faltava mão-de-obra. Da chegada das 165 famílias em Santos no navio Kasato Maru até o início da Primeira Guerra Mundial (1914), 15 mil japoneses se instalaram por aqui. Depois da guerra, entre 1917 e 1940, a imigração explodiu, chegando a 164 mil japoneses. Hoje 1,5 milhão de nikkeis vivem no país.

A idéia de todo imigrante era trabalhar, enriquecer e voltar para o Japão. Mas os baixos salários na lavoura não permitiam. Com a Segunda Guerra, o sonho de voltar para casa foi enterrado de vez. O governo do Brasil, em oposição ao Japão, fechou o cerco contra os imigrantes. Falar a língua em público dava cadeia, escolas foram fechadas, a execução do hino japonês ou de qualquer dança típica era punida com cadeia. Nessa época surgiu a Shindo Renmei, “liga do caminho dos súditos”, organização extremista criada para coibir a divulgação de informações sobre a derrota japonesa. Os participantes do Shindo Renmei afirmavam que o Japão tinha sido vencedor e perseguiam quem acreditava na derrota. Dos 200 mil imigrantes que viviam por aqui, apenas 20% deles, os makegumis, acreditavam na vitória dos Aliados. Os vitoristas, os kachigumis, eram a maioria. Os imigrantes mantinham forte crença na alma japonesa, orgulhosos de, até então, nunca terem perdido uma guerra. Em 1947 o governo brasileiro interrogou mais de 30 mil japoneses, prendeu quase 300 pessoas e desmantelou a organização.