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El Raval, Barcelona: imigração, estigmatização e gentrificação

A ideia era apenas um ensaio fotográfico. Mas para não enfatizar estereótipos, e identificar semelhanças, não coincidências, entre Barcelona e São Paulo, foi preciso ir além do imediatamente visível

Lineu Kohatsu
Barcelona - El Raval

Alvorecer em Raval

El Raval é um do distrito de Cidade Velha, em Barcelona. É marcado pela degradação, ruas estreitas e escuras, prédios antigos e malconservados, presença de prostituição, tráfico de drogas e muitos imigrantes. Ao mesmo tempo, apresenta muito uma rica pluralidade étnica, cultural e religiosa.

Barcelona tem 1,6 milhão de habitantes – 18% são estrangeiros. Dos 10 distritos da capital da Catalunha, Cidade Velha é o segundo com maior número de estrangeiros (45 mil) e é formado por quatro bairros: El Raval, El Barri Gótic, La Barceloneta e Sant Pere, Santa Caterina i la Ribera.

Mais de metade da população de El Raval é formada por imigrantes, originários de vários continentes e países como Marrocos, Paquistão, Bangladesh, Filipinas.

Imigrantes em imagens e palavras

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Manifestações políticas e religiosas de diversas matizes, como na Mesquita de Bangladesh ou no Templo Sikh, estão presentes em Raval

Imma é diretora de uma escola secundária concertada, que existe há 23 anos, instalada provisoriamente em barracões de metal em um terreno alugado, a espera de um local definitivo para construção dos prédios.  Os alunos têm em comum um histórico de fracasso escolar e vivem com suas famílias em condições precárias. Cerca de metade é de famílias de imigrantes, a maioria de Marrocos e Argélia.

Segundo Imma, os coletivos de imigrantes do bairro apresentam características marcantes, como os filipinos que preservam fortemente a identidade cultural e celebram a missa na Igreja de San Augustin no idioma tagalo. Imma também faz referência ao templo Sikh (Gurudwara) situado em Raval, que permite a entrada de pessoas de outras religiões e serve refeições gratuitamente (Langar) a todos os visitantes.

Em Raval há também algumas mesquitas, como a de Bangladesh, onde Iqbal trabalha como secretário há cinco anos. É casado, tem dois filhos e comenta orgulhoso que são poliglotas, como a mãe, que conhece seis línguas: inglês, francês, castelhano, árabe (do Alcorão), urdu e bengali.

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Tenda de hortifrútis de imigrantes indianos

A presença de pequenas e coloridas tiendas de hortifrutis de paquistaneses, bengaleses e indianos é notável. Em uma delas trabalha Sandip, 41 anos, de origem indiana, que está há sete meses em Barcelona.

Há também muitos restaurantes de imigrantes no bairro, entre eles, a pizzaria de Mario, 58 anos, uruguaio, neto de avó materna cubana. Há 33 anos serve comida catalã e uruguaia como paellas, massas, carnes a empanadas. Além de cozinheiro, Mario é escritor, tendo publicado vários livros e participado de programas de TV, que podem ser vistos pelo YouTube.

Especulação imobiliária, gentrificação

Em virtude de localização central e estratégica, pela proximidade do porto, da Rambla e da Praça Catalunha, há décadas o bairro é alvo da especulação imobiliária. Conforme observa Imma, Raval melhorou em alguns aspectos: “A Rambla (de Raval) tornou o espaço mais bonito, mais aberto”, mas, por outro lado, “muitas famílias tiveram de se mudar porque viviam nos prédios que foram demolidos”.

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Haruuinder, 39 anos, no templo Sikh. Vive há cinco anos em Barcelona e trabalha como eletricista

Miquel, 81 anos, aposentado, vive no bairro há 32 anos e participa de um coletivo de vizinhos. Miquel faz um breve histórico do bairro, desde a época dos conventos e monastérios, passando pelo período da instalação das fábricas e das moradias dos operários até o momento mais recente da remodelação urbana, a partir dos anos de 1980, ocasião em que Barcelona se candidata a sediar os Jogos Olímpicos de 1992.

Miquel recorda que uma empresa de capital público-privado foi a responsável pela desapropriação e demolição de prédios e casas. Muitos desses imóveis velhos e malconservados, ocupados por inquilinos de baixa renda, foram demolidos.

Quando algum inquilino resistia a deixar o imóvel, cortes de energia e água por longas horas e outras ilegalidades eram feitas para forçar a desocupação. Os imóveis velhos foram substituídos por prédios mais novos e mais caros, passando a ser ocupados por pessoas da classe média, intensificando o processo de gentrificação.

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Ágora Juan Andrés Benitez

A conversa com Miquel foi realizada na ocupação Ágora Juan Andrés Benitez, em memória ao jovem morto em uma ação realizada pelos Mossos d’Esquadra (polícia da Catalunha). A ocupação do terreno ocorreu em 5 de outubro de 2014, um ano após o incidente.

A autogestão da Ágora é feita por meio de assembleias abertas e o espaço é usado para reuniões, debates, conferências e apresentações de livros, teatro e cinema. Não são permitidos atos partidários ou religiosos ou uso comercial do espaço. “Para nós tem um significado anticapitalista, quer dizer, não é um lugar onde se defenda a acumulação de dinheiro, concentração de capital nem especulação.”

Em Raval, o Sport Club Sant Pau também pode ser considerado outro espaço de resistência à especulação imobiliária. Criado nos anos de 1940, inicialmente servia como banho público para evitar que a população pobre não transmitisse doenças para o restante da comunidade. Ernest trabalha há 25 anos no local e é o atual diretor. Juntamente com outros seis trabalhadores do ginásio, o grupo assumiu a empresa em 2012, com dívidas e prejuízos deixados pelas administrações anteriores.

Além dos 500 usuários pagantes, o ginásio é frequentado de forma gratuita por 900 pessoas, entre elas refugiados e imigrantes sem documentação. O clube oferece também um serviço de banho a pessoas que vivem nas ruas, tendo um vestiário exclusivo para transexuais. Ernest conta que o ginásio está sob ameaça de despejo porque o proprietário do terreno quer construir um prédio no local.

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Imigrantes do Paquistão

Ignacio é basco de nascimento, mas a família vive em Barcelona há muitos anos. Desde 1987 participa de um coletivo cuja proposta era realizar ativismo libertário, criar um espaço para produzir e distribuir materiais e servir de ponto de encontro no bairro onde, até hoje, de forma autogestionária, funciona uma livraria.

Sobre Raval, Ignacio ironicamente comenta que “as pessoas com muito dinheiro dizem que gostam da multiculturalidade, mas não querem viver aqui”. Muita gente não gosta porque é um bairro velho, popular, com gente pobre, de diversos lugares, mas com muita história de luta, diz Ignacio.

Assim como Miquel e Ernest, Ignacio critica a especulação imobiliária, os contratos de alugueis e as condições dos prédios velhos, pequenos e mal conservados a que são submetidos os pobres de Raval. Recorda que em 2013 o Partido Popular mudou a lei do inquilinato e os contratos passaram a valer por três anos, com o preço livre, não regulado e o aumento definido livremente pelo mercado.

Os contratos antigos não podem sofrer aumento, mas muitos moradores têm sido expulsos de várias maneiras, até com violência. Ignacio enfatiza que o bairro tem um problema de habitação muito grave; há muitos imóveis vazios, ocupados pelo tráfico, que deveriam servir como moradia pública, cobrando aluguel social com preço abaixo do mercado para as famílias de baixa renda.

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Mãos de Sandip, 41 anos, imigrante da India

“Nós sabemos que a única possibilidade da moradia ser um direito para os habitantes do bairro é que seja pública e com regulação de preços”. No entanto, Ignacio comenta que os neoliberais consideram o aluguel social improcedente e dizem, sem nenhum problema, que “no centro não pode viver esse tipo de gente, tem que sair. O centro é para turistas e gente que tem boa renda”.

A livraria onde trabalha tem um contrato de aluguel de 10 anos, permitido aos imóveis comerciais. Já estão no terceiro ano e quando terminar o contrato não sabe o que pode acontecer.

A prefeita de Barcelona Ada Colau, em entrevista concedida à edição local do jornal português Público, faz um balanço de seu mandato, iniciado em 2015 e que se encerra em 2019. Ela defendeu a necessidade de regular o turismo e os preços dos aluguéis, confrontando os interesses do capital especulativo.

Ada reconhece os problemas de segurança que afetam a cidade, como o aumento dos furtos, a existência do tráfico de drogas em imóveis desocupados, mas recorda que Barcelona é uma das cidades mais seguras do mundo. Mesmo tendo aumentado o efetivo da guarda urbana, a prefeita defende que os problemas de segurança não se resolvem somente com a polícia, exigindo estratégias mais complexas, ao contrário do que defendem as políticas simplistas do populismo punitivo.

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Missa rezada no idioma tagalo. Igreja San Augustin

No livro Matar o Chino: Entre a Revolução Urbanística e o Assédio Urbano no Bairro Raval de Barceona (2014), Miquel Fernández González problematiza o mito de bairro chino, que na Espanha significa zona de prostituição e criminalidade desde a década de 1920, associado a Raval.

A partir de estudo historiográfico e etnográfico, o autor mostra que a estigmatização do bairro e de seus moradores foi explorada com o propósito de justificar as reformas urbanas higienistas, que acabaram por promover a expulsão da população mais pobre, acentuando os processos de gentrificação.

Semelhanças não são coincidências

Os geógrafos Adrián Hernández Cordero e Aritz Tutor Antón, da Universidade Autônoma de Barcelona, levantam no artigo Espaço Público: Entre a dominação e a resistência. Cidade Velha, Barcelona (2014), políticas de “renovação urbana” que foram defendidas sob o argumento da necessidade de “solucionar o problema” da deterioração física e social (o original pode ser lido aqui). Nos anos de 1980-90, a existência de espaços públicos inadequados e obsoletos, ruas estreitas e em mau estado de conservação em Cidade Velha foi usada, a pretexto de promover a qualidade de vida, para a demolição de um grande número de moradias e a remoção de milhares de famílias pobres e de imigrantes.

Os autores citam também as diversas ações de ocupação dos espaços públicos realizadas por organizações de vizinhos e coletivos, semelhantes às relatadas por Miquel, Ernest e Ignacio, e como formas de resistência à crescente privatização da cidade promovida pelas políticas neoliberais.

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Prédio na Carrer d´Hospital e ruas com imigrantes do Paquistão

Um olhar sobre o bairro de Raval revela como o discurso que desqualifica, estigmatiza e criminaliza a população pobre e enfatiza a necessidade de revitalização de áreas degradadas física e socialmente serve para ocultar os verdadeiros propósitos das políticas neoliberais, que visam à apropriação e mercantilização do espaço público pelo capital especulativo.

Olhar para o bairro e seus habitantes para além dos mitos, estereótipos e preconceitos pode também ser um modo de desafiar o poder hegemônico e impor resistência ao processo de gentrificação. Que não é um fenômeno exclusivo de Cidade Velha, na capital catalã: está presente em diferente lugares do mundo em boa parte das capitais brasileiras. O ar de semelhança e familiaridade, de Barcelona a cidades como São Paulo, não é mera coincidência.

Agradecimentos a Ravi P., por auxiliar na identificação dos grupos étnicos, e a Beatriz K. pela assistência na realização deste trabalho