Sabedoria

Tecnologia na palma de mãos experientes

Os smartphones são cada vez mais populares entre as pessoas idosas, que vão vencendo a resistência à tecnologia e utilizam seus recursos com sabedoria e seletividade

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Usado como ferramenta para facilitar a comunicação e ampliar o convívio social, o celular é também ponte para a utilização de outras ferramentas tecnológicas, como o computador

São Paulo – A colocação de cadeiras extras na sala cheia confirma que o tema da palestra atende ao interesse cada vez maior de pessoas idosas pelos recursos disponíveis nos celulares, especialmente aplicativos gratuitos que permitem mensagens instantâneas, com envio de textos, imagens, vídeos, áudios e chamadas de voz. Com seus aparelhos nas mãos, um olho na tela do aparelho e outro na apresentação, alguns lançam questões mais elaboradas, indicando que já dominam boa parte dos recursos básicos. Outros demonstram conhecer atalhos para buscar aplicativos nas lojas virtuais ou mesmo de ferramentas para gerenciar as conversas no WhatsApp. Querem saber, entre outras coisas, onde ficam as chamadas nuvens, que armazenam as informações compartilhadas por meio da internet. E se esses espaços são mais seguros que a própria memória do celular ou o seu cartão de memória.

Outros acabaram de vencer a resistência a aparelhos tecnológicos e compraram recentemente o seu primeiro aparelho. Entre as dúvidas e curiosidades, quais as melhores dicas para arquivar com segurança documentos, conversas, áudios e fotos? Há ainda quem queira convidar amigos para um encontro sem ter de ficar escrevendo mensagem por mensagem para cada um.

“Nem sempre o filho, ou o neto, tem tempo de ensinar. Então, para aprender, o jeito é procurar aulas particulares ou vir ao Creci”

E há quem faça o auditório se desmanchar em risos lá pelo meio da palestra, ao querer saber qual é o melhor jeito de esconder, sem apagar, aquelas fotos mais íntimas, digamos assim, enviadas para o namorado, para evitar situações delicadas, como ter de explicar para o filho, ou os netos, coisas que eles sabem muito bem até mesmo porque também devem costumar fazer. A oficina chega ao fim e as curiosidades não se esgotam. Por isso, muitos dos presentes pleiteiam uma nova data para dar continuidade.

Realizada no Centro de Referência da Cidadania do Idoso (Creci), no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, esta é uma das palestras de maior procura, segundo a administração do espaço vinculado à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo. “Nem sempre o filho, ou o neto, tem tempo de ensinar. Então, para aprender, o jeito é procurar aulas particulares ou vir ao Creci”, conta a profissional de Tecnologia da Informação Aline Salla Carvalho, que desenvolve projetos voluntários de inclusão digital no telecentro do Creci.

Ponto de partida

Segundo ressalta, essas pessoas utilizam aplicativos do smartphone, como o WhatsApp e o Facebook, como ferramentas para deixar o isolamento, a solidão, e interagir com o mundo. “Eles formam grupos para marcar encontros, não para ficar isolados, no quarto, em uma ilusão tecnológica. Do mesmo modo usam o Facebook para reencontrar antigos amigos. Mas é claro que muitos deles, com poucos amigos, tímidos, devem ser incentivados a sair, a buscar vida lá fora. A tecnologia tem de ser um meio, um meio de comunicação, e não um fim em si mesmo, uma comunicação que só existe no celular”.

Facebook/Aline Salla Carvalhopalestra idoso e smartphone
Aline Salla em dia de oficina de dicas para o melhor uso de ferramentas como o Whatsapp

 

O celular, conforme ela, é um ponto de partida porque o aparelho e seu funcionamento são mais simples, com aplicativos intuitivos, ícones que facilitam a vida de quem aprende a usar e de quem ensina. “No princípio eles têm medo do aparelho, como têm do computador, mas conforme vão aprendendo a manusear, tudo flui. Vão tomando gosto. E ao mesmo tempo o celular é uma ponte para que eles passem a se interessar pelo computador, expandindo suas possibilidades de dominar outras tecnologias. O importante é estimulá-los a aprender. Quando começam a aprender, logo vão buscar mais informações”, explica a Aline.

Essa interação com a tecnologia permite ainda melhorar a auto estima de quem se sente excluído. “Aos poucos vai se dedicando e na medida que passam a utilizar e explorar os recursos, passam a se sentir em pé de igualdade com outras pessoas. E muitos se adaptam tão bem que nem utilizam aplicativos que baixaram para aumentar o tamanho das letras para facilitar a leitura”. 

Inclusão

Gerontóloga, doutoranda em Gerontologia na Unicamp e docente na pós-graduação em Gerontologia do Centro Universitário São Camilo,Tássia Chiarelli destaca que as relações sociais são fundamentais para a promoção do envelhecimento saudável. E que a tecnologia pode facilitar e contribuir na manutenção da rede dos idosos, como superar dificuldades impostas por distâncias geográficas e aproximá-los de familiares que moram em regiões distantes, por meio de recursos como câmera e microfone.

Facebook/Tássia ChiarelliOficina idosos empreendedorismo
A gerontóloga Tássia Chiarelli em selfie em atividade voltada a pessoas de diferentes idades

E ressalta que, além de permitir o acesso desse público a notícias, informações que considera relevantes, para seu lazer e também para atividades ainda pouco discutidas para esse público: aplicação ao mercado de trabalho. Sem contar que pode ainda otimizar recursos, minimizando déficits advindos com o processo do envelhecimento. “Um idoso com dificuldade de dicção pode se comunicar por mensagem escrita ou o vídeo pode facilitar a leitura labial”, diz.

Para a gerontóloga, embora o número de idosos usuários de tecnologias seja baixo em relação a gerações mais jovens, é o grupo o grupo que mais cresce. “Ainda há uma resistência por parte de idosos em utilizar de tecnologias em virtude, por exemplo, do medo ou por sentir insegurança em utilizar novos dispositivos. Mesmo assim, os idosos têm buscado se capacitar para se sentir parte da sociedade. O letramento digital para idosos tem elevada procura e o que os idosos geralmente apontam por ter buscado o curso é justamente se sentir parte do mundo. Hoje o nosso dia a dia é feito de tecnologia e os idosos têm sentido isso”, destaca.

“Sou do tempo antigo. Prefiro conversar pessoalmente”

A aposentada Ivanilda Alves comprou um celular novo recentemente. Tão completo que só falta falar o que ela tem de fazer, conta. “É tanta coisa que a gente fica perdida, porque não sabe usar. Por isso a gente vai atrás de cursos como esses aqui, do Creci, e vai fuçando, apesar do medo de apertar algum comando errado e perder informações”, diz.

Por enquanto ela só tem explorado aplicativos para se comunicar com familiares, amigos e parentes. E explica que acha um perigo a pessoa se submeter ao universo do aparelho e deixar de conhecer o mundo – o que é muito comum entre pessoas que deixam de lado o contato com amigos e a família e passam a priorizar relacionamentos virtuais.

“A gente tem de conhecer as pessoas cara a cara. No mundo virtual você não consegue olhar nos olhos da pessoa, saber se está mentindo, se está sendo sincera, se tem uma psicose ou se é um ‘maluco beleza’, depressivo, querendo ocupar o tempo. Eu sou do tempo antigo. Prefiro conversar pessoalmente. Falar pelo WhatsApp também não é a mesma coisa que ir na casa da pessoa, apertar a mão.”

Entre os seus contatos, Ivanilda tem diversas pessoas, de vários grupos, muitas que nem sabe qual é. Muitas vezes, segundo ela, acontece de precisar de uma informação urgente mas fica na dependência de a outra pessoa aceitá-la como contato. “Não é melhor então ir conversar pessoalmente? Pois é o que está faltando hoje em dia. Os filhos não falam com os pais, os pais não conversam com os filhos. As pessoas só ficam no zap zap. Todo mundo dá feliz Natal e feliz aniversário pelo zap zap. Tudo mecânico.”

Para a aposentada, interessa aprender a fazer, com segurança, download de aplicativos de bancos, para facilitar a sua vida, acessar a fatura do cartão de crédito, saber quanto vai ter para pagar no próximo mês, ou de lojas, para receber anúncios de ofertas. Mas isso não quer dizer que ela queira passar a fazer tudo a distância. “Tem gente que compra o gás pelo celular. Eu sou do tempo em que a gente ia comprar o bujão, e quero continuar indo, indo ao banco. Senão, o que fazer com tanto tempo que se economiza? Ficar em casa engordando, grudada na tela do zap zap?”