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Desigualdade

Literatura e feminismo: livros pontuam lutas e conquistas das mulheres

Obras da ativista Angela Davis, da cientista política Flávia Biroli e o infantil da ativista bell hooks abordam os avanços e os desafios da luta pela igualdade de gênero
Publicado por Xandra Stefanel, especial para RBA
12:49
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Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Luta

Apesar da legislação de cotas, as mulheres ocupam apenas cerca de 10% dos cargos políticos eletivos no Brasil

Nada de flores nem parabéns. O 8 de março, Dia Internacional (de luta pelos direitos) das Mulheres foi celebrado com a chegada de três livros de temática feminista às prateleiras das livrarias: A Liberdade é Uma Luta Constante, da ativista americana Angela Davis; Gênero e Desigualdades: Limites da Democracia no Brasil, da cientista política paulista Flávia Biroli, e o infantil Meu Crespo é de Rainha, da ativista bell hooks (com minúsculas mesmo).

Os lançamentos, da Boitempo, tratam de forma distinta as conquistas das lutas das mulheres e apontam para os desafios que ainda precisam ser superados no Brasil e no mundo.

Davis

A Liberdade é Uma Luta Constante reúne uma seleção recente de artigos, discursos e entrevistas de Angela Davis, uma das mais poderosas vozes do feminismo negro. Organizada pelo escritor e militante dos direitos humanos Frank Barat, a obra traz reflexões que conectam as lutas históricas do movimento negro e do feminismo negro nos Estados Unidos, a luta contra o apartheid na África do Sul, os movimentos atuais pelo abolicionismo prisional com a luta anticolonial na Palestina.

Angela também denuncia o sexismo e debruça sobre a relação entre a violência contra a mulher e a violência do Estado e declara que não será possível combatê-las sem desmontar as estruturas capitalistas. Além de questões ligadas ao feminismo – mais especificamente ao feminismo negro –, sobressai também o desejo da autora pela libertação de todos os seres humanos, como escreve Frank Barat na introdução: “Angela nunca parou; ela ainda vive diariamente essa luta. Ela é uma personificação da resistência, e vejo seu trabalho e sua presença contínuos refletidos e inspirando muitos dos atuais movimentos de libertação coletiva. Esse reflexo está na compreensão de que a prisão é parte de um complexo industrial enraizado na escravidão e no capitalismo e está na popularização do movimento de abolicionismo prisional. Esse reflexo está em seu apoio às lutas anticoloniais mundo afora, incluindo a Palestina, onde um grande número de ativistas, inclusive eu, tem ido às ruas para fazer parte de mobilizações de solidariedade”.

No prefácio feito especialmente para a edição brasileira, a professora Angela Figueiredo escreve sobre a importância de obras como esta em momentos críticos como o que Brasil vem passando:

“Na última visita da pensadora à Bahia, ocorrida em julho de 2017 para participar da primeira edição da escola de pensamento feminista negro e decolonial, foi surpreendente a significativa repercussão e mobilização nacional, principalmente advinda da juventude negra. Considero que tal mobilização reflete o quadro político atual, caracterizado pelos inúmeros processos de corrupção envolvendo toda a superestrutura política, pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e pela perda de direitos sociais e políticos que marcou o último ano no Brasil. É, portanto, de uma importância inegável termos alguém como Angela Davis para dar força e inspiração política à nossa juventude, seja como intelectual, seja como feminista negra e ativista, seja pelo modo como, em suas palestras, a autora demonstra uma ‘solidariedade corajosa’ e mantém ‘as chamas da esperança acesas por todos os cantos do mundo na era fria e enregelante da hegemonia neoliberal.”

Democracia e feminismo

Biroli

Outro livro lançado neste 8 de março foi Gênero e Desigualdades, da cientista política Flávia Biroli. A professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília apresenta aos leitores as transformações nas relações de gênero ocorridas nas décadas recentes, passando pelos grandes temas do feminismo pós-1970 e pelos cenários históricos que os moldaram e que frearam ou impulsionaram as lutas das mulheres no mundo, mais especialmente no Brasil.

Com linguagem precisa e clara, Flávia entra em temas fundamentais dos direitos das mulheres, do feminismo e da democracia brasileira a partir de cinco eixos: divisão sexual do trabalho; cuidado e responsabilidades; família e maternidade; aborto, sexualidade e autonomia; feminismos e atuação política.

“Interessa-me, em especial, colaborar para a compreensão da persistência de padrões desiguais, injustos e violentos e de caminhos para sua superação. Os cinco eixos escolhidos para a análise não esgotam os problemas que precisam ser levados em conta para que essa compreensão seja possível, mas permitem considerar problemas que entendo serem incontornáveis”, afirma a autora, na introdução.

No capítulo sobre a atuação política das mulheres, a autora aborda a eleição da presidenta Dilma Rousseff e o golpe que a destituiu.

“Aproximo-me, assim, da temática do capítulo 5, que discute os obstáculos à participação política das mulheres, sem perder de vista sua atuação efetiva em momentos-chave da história recente do Brasil.

“Apesar da legislação nacional de cotas, que estabelece há duas décadas que 30% das candidaturas nas eleições proporcionais devem ser ocupadas por mulheres, permanecemos largamente sub-representadas, ocupando cerca de 10% dos cargos políticos eletivos. Nesse cenário, o Brasil elegeu e reelegeu uma mulher, Dilma Rousseff, para a Presidência da República, em 2010 e 2014.

“O golpe parlamentar que a afastou em 2016 foi marcado pela misoginia, ativando estereótipos de gênero que pareciam ter sido empurrados para as franjas do debate político brasileiro nas últimas décadas. Acumulam-se, no contexto atual, investidas contra as mulheres na política, contestações à sua competência como atores políticos e ações contrárias a direitos que foram estabelecidos como resultado de demandas e lutas históricas.”

hookAutoestima e representatividade

O livro infantil Meu Crespo é de Rainha também foi lançado pelo selo Boitatá no Dia Internacional das Mulheres como uma ode à beleza da diversidade. O poema que exalta o encanto dos cabelos crespos e cacheados foi escrito pela ativista política e educadora americana Gloria Jean Watkins, que assina sob o pseudônimo de bell hooks. O livro ilustrado por Chris Raschka e originalmente lançado em 1999, apresenta às meninas brasileiras diferentes penteados e cortes de cabelo de forma positiva, alegre e elogiosa.

 

A obra indicada para crianças a partir de 3 anos brinca com todas as possibilidades que os cabelos crespos oferecem: “macio como algodão”, ele “pode ser moicano pro alto ou jogado pra baixo, amarrado com pompom, cortado bem curtinho ou livre, leve e solto”, sugere o texto. Indicado para crianças a partir de três anos de idade, Meu Crespo é de Rainha, mais do que exaltar a questão estética, combate com graça e delicadeza a falta de representatividade da beleza negra que écausada (também) pelos padrões de beleza eurocêntricos.