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Entrevista

Laerte: ‘Não vou boicotar a Netflix, nem estou vendo O Mecanismo’

Cartunista fala da importância do humor em tempos de radicalismo, e diz que é a mídia e a indústria cultural que alimentam a polarização e o ódio político
Publicado por Tiago Pereira, da RBA
09:57
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Laerte-se/Divulgação
Laerte

Mídia é grande responsável por alimentar quadro bipolar e radicalismo fascistóide, segundo Laerte

O humor é arma para desarmar os espíritos mais violentos, mas também serve para botar lenha na fogueira. Depende da época, e da intenção de quem usa a linguagem humorística. O que definitivamente não existe é a suposta neutralidade. Essa é uma das opiniões da cartunista Laerte Coutinho, que atribui à mídia o crescimento da polarização e do ódio no debate político. Segundo ela, no mundo real, os polos não são dois, e a vida é cheia de nuances que não admitem simplificações. 

Sobre a polêmica em torno da série O Mecanismo, da Netflix, Laerte diz que, ao subverter a realidade e colocar a célebre expressão do senador Romero Jucá (MDB) – do grande acordo “com o Supremo, com tudo” – na boca do personagem que representa Lula, o diretor José Padilha faz também uma construção humorística, ainda que “cínica, intencional, maliciosa e agressiva”. 

Ela (como prefere ser tratada, desde que se assumiu como transgênero) diz que a Netflix é uma importante ferramenta do “capitalismo cultural”, que tem um uma determinada visão ideológica, mas também abre espaço para produções que tratam de temas da diversidade, como o feminismo e os direitos LGBT. No ano passado, a Netflix lançou o documentário Laerte-se, que acompanha a jornada da cartunista pelo universo feminino. 

“Não vou boicotar a Netflix, por causa da série O Mecanismo, que eu não estou assistindo, mas sei do que se trata. Conheço os filmes do Padilha o suficiente para me interessar ou não me interessar a ver. Não estou me proibindo de nada. Sei lá, Narcos também não quero ver, sabe? Enfim…”

 

Você já atuava como cartunista na parte final da ditadura. Como é fazer humor nos tempos autoritários de ontem e agora, nesses tempos em que o ódio e a intolerância contaminam o debate público?

O humor é sempre circunstanciado. Não tem como se dissociar dos tempos em que é praticado, ainda que possa ser lido, visto e apreciado em tempos diferentes. Hoje a gente pode curtir o que era a produção de humor nos séculos 17, 18, 19, sempre levando em conta qual era o contexto histórico desses momentos. Hoje há isso que a gente qualifica como um ambiente de ódio e intolerância, mas também havia em outras épocas.

Na época da ditadura, o que havia de muito notável era um campo antiditatorial muito amplo, que misturava setores, ideias, cabeças e tendências, que logo em seguida se separaram, se diversificaram, para o bem e para o mal.

Houve um tempo em que havia uma certa leitura maniqueísta da realidade. Havia a ditadura, aqueles e aquelas que eram favoráveis à manutenção. Hoje sabemos que até o Temer, que estava no MDB, também via a ditadura como o desejo do povo por centralismo. Hoje é muito diferente: as democracias que se quer de volta tem matizes, nuances e construções diversas.

Mesmo com essas nuances diversas hoje, dada a maneira de discutir engendrada pelas redes sociais, que favorece a polarização no mundo todo, não lhe parece que voltamos a dois campos, nós, progressistas, e os conservadores, que incluem militaristas, bolsonaristas, MBLs da vida e cia.?

Parece uma polarização, mas os polos são mais que dois. Evidente que do lado de grupos mais fascistas mesmo, como os que apoiam e se cevam na candidatura do Bolsonaro, ou do MBL, existe também uma intenção de se nutrir dessa bipolaridade. É esse tipo de intenção que constrói uma configuração que coloca no outro polo os grupos ‘gayzistas’, comunistas, feministas etc.

Mas quem convive um pouco no debate, sabe que isso é irreal. A busca por alternativas socialistas nem sempre se articula com um pensamento feminista claro, ou típico, seja lá o que for. Nem sempre a posição de defesa dos direitos LGBT também se encontra e se combina com uma perspectiva socialista. As nuances são muitas.

Do ponto de vista do radicalismo fascistoide, existe uma culpa bem grande – responsabilidade, melhor dizendo – da mídia, que vai construindo também esse quadro bipolar. A gente deve insistir numa leitura mais complexa, e que, por isso mesmo, favorece alianças mais duradouras. Senão pode virar uma coisa assim ‘ah, estou no clube errado, na bolha errada’. Isso é construído.

Ao mostrar o ridículo de determinadas posturas, o humor desarma esses espíritos belicosos em tempos intolerantes? É mais fácil produzir a crítica humorística nesses tempos extremos, em que o assombro é farto, ou a barbaridade e violência deprimem os sentimentos? 

O humor não é uma ferramenta de um só uso. Realmente pode servir para desarmar espíritos, desanuviar o ambiente, pode servir para dar uma relaxada. Mas também é muito frequentemente usado para justamente avivar o fogo, botar lenha na fogueira. A natureza da linguagem do humor é provocativa e agressiva, depende de quem está utilizando essa ferramenta. Sempre depende da intenção da pessoa, da consciência e das ideias que ela tem. Não existe esse estado neutro do humor.

O que quero dizer que, quando uma pessoa diz que só fez uma piada e, portanto, alega uma suposta neutralidade da linguagem do humor, está falando bobagem, ou tentando fugir da responsabilidade pelo que foi dito.

Nesse sentido, acho até que o José Padilha, na liberdade que se deu – de pegar a expressão que o Jucá usou e botar na boca do personagem que remete ao Lula –, ele usou de uma das possibilidades do humor. Ele fez uma construção humorística. A defesa cínica que ele vem apresentando, para mim, é uma evidência de que foi, sim, intencional, malicioso, agressivo, e corresponde às ideias que ele tem.

Para além do cinismo intencional, é também tentativa de reescrever a história? Os produtos da indústria cultural têm essa função de moldar consciências? Faz parte desse esforço da mídia de forçar a polarização?

Acho mesmo, como eu disse, que a mídia – os jornais, a TV e também a indústria cultura – procuram construir uma ideia polarizada, a imagem de um adversário idealizado e cheio de radicalismo. Procuram desmontar a imagem e o legado que administrações de governos populares deixaram na história. Procuram, sim, reescrever.

Mas essa série está sendo imaginada e construída há bastante tempo, não é um negócio feito de uma hora para a outra. Então acho que é preciso ver que isso corresponde a um esforço mais meticuloso de influência sobre o que está acontecendo. Não sei bem se reescrever a história, não sei se o Padilha tem esse tipo de ambição ou pretensão. Acho que ele quer fazer filmes que marquem uma determinada ideia.

Assisti dele o Ônibus 174, que achei muito bom e interessante. O Tropa de Elite já achei com muitos escorregões. Tem uma inflexão que favorece o autoritarismo e a brutalidade de uma linha da polícia, o que é muito discutível. Ele divide a polícia entre uma polícia corrupta e uma truculenta, que não é corrupta, segundo ele. É uma visão bem equivocada. O filme simplifica muito o que está expresso no livro do Luiz Eduardo Soares.

Como foi a sua relação com a Netflix para a produção do documentário? Eles em nada se envolveram ou palpitaram, deram carta branca? E como vê essa estratégia – que se arvora plural e neutra – da plataforma de fazer conviver ali obras que abordam a diversidade, o racismo, feminismo, mas por outro lado também tem produções com viés claramente conservador? 

Tenho sim uma participação com produtos da Netflix. Não fui eu que negociei a produção. Entrei nessa ação como objeto, como o tema do documentário. Me beneficiou, achei muito interessante. Não tenho muito como dizer o que a Netflix é, ou deixa de ser. Acho, sim, que é uma ferramenta importante do capitalismo cultural hoje. É uma plataforma que procura manter uma amplitude no alcance, mas certamente deve corresponder a um desejo de formação ideológica com uma determinada inflexão.

Movimentos democráticos, movimentos LGBT, o feminismo e outras ideias interessantes encontram espaços para veicular seus filmes e documentários, suas mensagens e trabalhos na Netflix.

É uma plataforma ideológica, mas também comercial. E essas coisas todas têm também um sentido de ser um produto comercial. Não vou boicotar a Netflix, por causa da série O Mecanismo, que eu não estou assistindo, mas sei do que se trata. Conheço os filmes do Padilha o suficiente para me interessar ou não me interessar a ver. Não estou me proibindo de nada. Sei lá, Narcos também não quero ver, sabe? Enfim…