Mestres do barro

Artesãos que moldam o rico cotidiano nordestino

JESUS CARLOS DE LUCENA Mestre Manoel Eudócio em seu ateliê no Alto do Moura, bairro da cidade de Caruaru, PE O trabalho com o barro, muito presente na cultura e […]

JESUS CARLOS DE LUCENA
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Mestre Manoel Eudócio em seu ateliê no Alto do Moura, bairro da cidade de Caruaru, PE

O trabalho com o barro, muito presente na cultura e na economia especialmente no Nordeste, é uma das atividades mais primitivas do país. Tem influências diversas, originárias de África e Europa, mas aqui configura uma produção e organização social de natureza essencialmente indígena – mais antiga, portanto, que a própria criação do Brasil. De peças para o uso doméstico, ainda essenciais no abastecimento de água potável e no preparo de alimentos, a objetos modelados para retratar o cotidiano do povo nordestino, o barro é matéria-prima vital na cultura e na economia da região.

Contam os mestres que o boneco de barro contemporâneo surgiu da visão de Vitalino Pereira dos Santos, nascido em 10 de julho de 1909, no Sítio Campos, zona rural de Caruaru (PE). Ele traçou o caminho do reconhecimento dessa arte dentro e fora do Brasil e influenciou o trabalho de outros artistas no estado. A primeira obra de sucesso de Mestre Vitalino, um gato maracajá acuado em uma árvore por um cachorro e um caçador, até hoje é modelada pelos seus descendentes.

Vitalino, que chegou a ter uma banda de pífanos, mudou-se da zona rural nos anos 1940 para Alto do Moura, lugar que se tornou referência em cerâmica figurativa, a apenas cinco quilômetros do centro de Caruaru. Lá formaria a grande escola da arte na região ao lado de Manoel Eudócio, que partiu em fevereiro último, aos 85 anos, José Antônio da Silva, o Zé Caboclo (1921-1973), e Manoel Galdino (1929-1996).

Sobrinha de Manoel Eudócio e filha de Zé Caboclo, Marliete Rodrigues, 59, é especialista na produção de peças em miniatura, de dois a três centímetros. A maior parte é destinada a colecionadores e a exposições, como o Salão de Arte de Pernambuco, onde já foi premiada tanto pelo público como pelos jurados. Segundo Marliete, uma de suas peças figura no acervo particular da ex-presidenta Dilma Rousseff. “Gosto de retratar momentos vividos em família. Às vezes também sou pega por um sonho que me marca e retrato isso no barro”, diz.

A artesã começou a trabalhar aos 6 anos, observando os gestos do pai. Tradição mantida pela artista. “A gente estimula as crianças a brincar com o barro. Foi assim que eu comecei. Quando a gente gosta muito do trabalho, quando faz o trabalho com amor, ele faz parte da vida da gente o tempo todo. Desde criança eu descobri isso. Comecei copiando, mas depois percebi que também tinha que criar algo que representasse o que eu sinto e penso”, conta Marliete.

Nascido na vizinha cidade de São Caetano, Manoel Galdino, o Mestre Galdino, como é referendado na cidade, distingue-se dos demais pelo surrealismo de sua obra. Solte Meu Burrico, Ladrão!, A Raposa Come o Macaco, A Viagem de Maria ao Egito, Mané Pãozeiro, são alguns dos títulos dados pelo artista a suas peças. Conta Joel Galdino, filho de Manoel que dá continuidade ao talento do mestre: “Disseram numa exposição em São Paulo que ele não era um artista. Ele ficou muito irritado e resolveu fazer uma peça de improviso. Lembrou de um primo em São Caetano, vendedor de pão, que quando era indagado sobre a vida botava uma mão na cabeça e estendia a outra dizendo: ‘Ah, meu Deus, me ajude!’ Assim nasceu o Mané Pãozeiro”.

A obra é um marco do estilo de Mestre­ Galdino. Lábios enormes e destacados, boca e lábios agigantados, barriga protuberante, um misto de gente e bicho. Tais quais os dentes serrilhados, as escamas, os totens, uma gama de elementos que encontra acolhimento justamente na diversidade carnavalesca de Pernambuco e é sempre presente na composição dos Galdino, pai e filho.

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Dizem os outros mestres que foi Vitalino Pereira dos Santos quem traçou o caminho do reconhecimento dessa arte dentro e fora do Brasil

Tracunhaém

A 67 quilômetros de Recife, na zona da mata, o tamanho das peças e a cor púrpura do barro distinguem os personagens retratados pelos mestres da arte figurativa. Caruaru é feita das cores de tantos são seus folguedos e diversa é sua cultura e a sua gente. Já Tracunhaém é quase lívida, com seus campos queimados e sua agricultura familiar expropriada pela monocultura da cana-de-açúcar.

Aqui rareiam as árvores, mais ainda os frutos, em um império de cinzas que caem do céu sem trégua, rangendo no ar em estalos quentes de folha carbonizada, fruto das queimadas de cana que resistem aos avanços da tecnologia agrícola. É uma cidade extremamente quente, a 10 quilômetros do centro da vizinha Nazar­é da Mata, um dos berços do maracatu rural de Pernambuco.

O Caboclo de Barro de Mestre Sussul­a, Edvaldo José de Andrade, é uma das poucas peças originais dos artesãos de Tracunhaém que recebem acabamento de pintura. É um retrato fiel do colorido e das formas que compõem a fisionomia e a indumentária do caboclo de lança do maracatu rural. Mas a maioria é da cor pura do barro cozido, tons que variam entre o vermelho, o marrom e o amarelo. Os artistas têm predileção por santos, de 50 centímetros a 1,5 metro ou mais, como São Francisco, e também outros personagens religiosos como Moisés, ou ainda a Maria Grávida, imagem que consagra a obra do mestre Joaquim José da Silva, o Zezinho de Tracunhaém.

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Trabalho de pintura no ateliê do mestre Sussula, em Tracunhaém, PE

Até os 19 anos, Mestre Zezinho trabalhava no corte da cana na cidade próxima de Vitória de Santo Antão, até ter sua arte figurativa elogiada pela cronista Marliete Pessoa, no jornal Gazeta de Nazaré, nos anos 1960. Foi quando tomou coragem e resolveu investir na arte profissionalmente. O sucesso veio com um São Francisco em tamanho natural e com a peça que é tida pelo artista como a sua predileta, uma imagem de Maria grávida, sentada e aconchegada pelo marido José, este com um pássaro pousado em seu ombro esquerdo.

Mais antiga representante da arte figurativa em Tracunhaém, Maria Amélia da Silva, 92 anos, celebrizou as bonecas como a marca de seu trabalho no barro. No papel de santas canonizadas ou de mulheres simples do cotidiano da cidade, as imagens têm em comum as mãos espalmadas, a cabeça inclinada sobre um dos ombros e a face invariavelmente erguida para o céu. Além da delicadeza e harmonia dos traços e formas alcançadas. Arte que começou a desenvolver “ainda menina”, segundo os cálculos dela entre os 6 e os 8 anos, por incentivo do pai.

Das figuras humanas simples e bíblicas à figura feroz e mítica do leão, foi nesse ponto que se destacou o talento de Manoel Borges da Silva, ou Mestre Nuca, morto em fevereiro de 2014. O Leão ­Cacheado é a peça que distingue a obra do artista, produção que hoje é mantida pelos filhos Guilherme e Marcos Borges e pelo sobrinho Zenildo Gomes. É uma das peças mais difundidas em Pernambuco, presentes em praças de Recife e coleções particulares espalhadas por todo o Brasil.

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Mais antiga representante da arte figurativa em Tracunhaém, Maria Amélia da Silva celebrizou as bonecas como marca de seu trabalho no barro

Goiana

“Minha mãe, Joana Isabel de Assunção, artesã, fazia boneco de barro, arte culinária, comida típica do Nordeste, em panela de barro que ela mesma confeccionava. Costureira, bordadeira, desenhava à mão livre qualquer modelo de vestido para as madames da alta sociedade de Goiana. Artesã completa, católica praticante da igreja dos Homens Pretos de Goiana, queria que eu fosse padre. Meu pai, Manoel de Souz­a dos Santos, padeiro, nas horas vagas fazia máscaras de barro, principalmente para brincar o carnaval. Graças a Deus eu sou filho de artesãos.” A fala é do mestre ceramista José do Carmo Souza, representante de Goiana como Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco.

“Todos nós somos anjos”, difunde Zé do Carmo. Dessa filosofia construiu seu arsenal de anjos e santos nas garras e traços de personagens típicos do Nordeste, como cangaceiros, tocadores de pífano, triângulo, sanfona e zabumba. “Um dia, enquanto caçava, era moleque ainda, tinha uns 12 anos, vi um passarinho e observei bem as asas dele, pensei em botar aquelas asas nos bonecos que eu fazia. Comecei a fazer anjos e santos com a cara das pessoas que via nas ruas. Minha mãe não gostou, achou errado e mandou que eu fizesse as imagens com jeito de santo europeu. Eu fiz e foi bom que vendeu bem, todo mundo queria santo com cara bonita. Quando ela faleceu, em 1972, voltei a desenvolver minhas peças com a cara de gente da terra”, conta o artesão.

As peças de todos esses mestres do barro encontram-se espalhadas por várias cidades do Brasil, em museus e coleções particulares, principalmente.

Em Pernambuco, um acervo público pode ser apreciado no Museu do Barro de Caruaru, no centro da cidade. Neste espaço, apenas de Mestre Vitalino existem 66 peças originais do artista. É raro e lindo de ver.

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Filha e sobrinha de mestres, Marliete Rodrigues é especialista na produção de peças em miniatura

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