Trabalho

Acampados na Karmann-Ghia, funcionários querem produzir

Marca clássica surgida nos anos 1960, a indústria tem futuro incerto. Na luta pela sobrevivência, trabalhadores acampam na fábrica e recebem solidariedade. Esperança é poder retomar a produção

Edu Guimarães/SMABC
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Assembléia na porta da fábrica: ocupação continua

“Wilhelm Karmann Jr. e Luigi Segre celebram a feliz parceria, a união da exigente produção alemã com o sofisticado design italiano.” A frase acompanha fotografia, sem data, exposta em um painel onde ficava a recepção da fábrica da Karmann-Ghia, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Nos últimos meses, o local passou a funcionar como cozinha e depósito de mantimentos para garantir a permanência da ocupação iniciada em 13 de maio. Um movimento surgido da esperança de ver ressurgir a velha fábrica, inaugurada no início dos anos 1960, no ritmo de instalação e expansão da indústria automobilística brasileira naquele período. Neste 2016, a luta dos trabalhadores é pela sobrevivência.

Marcia Minillo/RBAvaltinho
Valtinho, passou a dormir na fábrica desde o início da ocupação: ‘Perdemos clientes importantes por má decisão administrativa’

Presente no imaginário nacional, a Karmann-Ghia deixou de produzir carros há aproximadamente dez anos e passou a se dedicar à fabricação de peças e partes de veículos, além de estamparia e ferramentaria. Mas as lembranças estão em toda parte. A estilista Zuzu Angel dirigia um Karmann-Ghia quando sofreu o mais que suspeito acidente que a mataria, em 1976, em outro episódio obscuro da ditadura. No documentário Meu Tempo é Hoje (2003), Paulinho da Viola mostra um automóvel da marca, que ele guardava em uma área no Rio de Janeiro e pretendia restaurar. O carro está com um mecânico, em São Paulo.

A marca surgiu em meados dos anos 1950, a partir de uma parceria entre o alemão Karmann e o italiano Segre, dono da carroceria Ghia. No Brasil, a primeira unidade saiu da linha de produção de São Bernardo em 1962, em parceria com a Volkswagen local.

Da fábrica visível a quem passa de automóvel, na altura do km 21 da rodovia Anchieta, saíram os cupês esportivos e os conversíveis (neste caso, apenas 177 unidades foram produzidas), e os SP1 e SP2, similares ao Puma. A partir dos anos 1980, outros modelos foram feitos no local, como o Ford Escort XR3 conversível e o Land Rover Defender. A empresa não faz veículos há dez anos, mas ainda figura como associada da Associação dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Marcia Minillo/RBAFábrica
Fábrica já produziu os esportivos SP1 e SP2; mais tarde, o XR3 conversível e o Land Rover Defender. Hoje está escura e silenciosa

Com as mudanças de mercado, os problemas começaram a surgir e foram se acumulando. Desde 2008, foram três trocas de dono – e esperanças renovadas. Hoje não se sabe direito quem é o atual proprietário, já que existe um impasse judicial relativo à última transação: o dono anterior reclama que as parcelas deixaram de ser pagas, e quem comprou diz não ter sido informado de um passivo milionário. Na briga, os prejudicados são os trabalhadores, que ficam sem receber o pagamento e não sabem se a fábrica volta a operar.

Alguns acreditam que a empresa não se preparou para o fim da produção da Kombi e do Gol modelo G4. “Perdemos alguns clientes importantes, por má decisão administrativa”, diz o coordenador do comitê sindical de empresa (CSE), Valter­ Saturnino Pereira, o Valtinho, que está na fábrica há quase 20 anos – entrou em 1997, nas áreas de pintura e funilaria.

A fábrica do ABC chegou a ter perto de 2 mil funcionários. Quando Valtinho entrou, eram aproximadamente 600. Hoje, são 364. Metade se reveza na ocupação, dividindo-se em três turnos. “Estão cuidando da empresa como se fosse a própria casa”, afirma Valtinho. “Eles estão aqui para ver a Karmann-Ghia reviver.”

Para manter essa esperança, os funcionários foram insistentes e criativos. Para garantir o fornecimento de água, por exemplo, descobriram uma fonte nas proximidades. Também contaram com muito apoio anônimo, como o do pai de um trabalhador, que se ofereceu para cuidar dos jardins.

Marcia Minillo/RBADoações
Metalúrgicos de outras fábricas passaram a fazer doações de alimentos e dinheiro. Sindicato ajuda com café da manhã; restaurante cede marmitas

Apoio

Sobretudo, eles recebem solidariedade de outros metalúrgicos, que passaram a fazer doações de alimentos e alguns valores em dinheiro, que serviram, entre outras coisas, para religar a luz na residência de muitos empregados, às voltas com dificuldades financeiras depois que os salários deixaram de ser pagos regularmente, desde o final do ano passado. Uma doação dos trabalhadores da Volkswagen permitiu que 120 funcionários tivessem novamente luz em casa. O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC ajuda com o café da manhã, um restaurante oferece marmitas.

“Já vinha ‘picando’ (o salário) em quatro, cinco vezes”, conta o ferramenteiro Nivaldo Antonio Defavari, 59 anos, há quase 40 na empresa. A situação não é mais complicada porque ele, “graças a Deus”, já está aposentado. E tem casa própria, no bairro Assunção, em São Bernardo, perto da fábrica. O filho Marcelo está na mesma situação: também é funcionário da Karmann-Ghia. E a filha Mayara, nutricionista, está desempregada – no final de junho, foi chamada para uma entrevista de trabalho. A mulher, Sônia, cuida da casa.

Nivaldo entrou na fábrica em 1979, saiu durante alguns meses e voltou em 2010. Acha difícil explicar a origem das dificuldades da empresa, que segundo ele não existiam durante a gestão alemã. “Deve ser a tendência do brasileiro de acabar com as coisas, não é possível”, lamenta.

Trabalhar na Karmann-Ghia era sinal de status na categoria. “Ainda é”, corrige Nivaldo. “A gente não tem culpa da gestão da empresa. A gente sempre ganhou salário de montadora. Nunca ficamos sem depósito de Fundo de Garantia.”

No limite

Sebastião Carlos Botelho, 60 anos, fresador CNC, teve de pagar do bolso o exame médico para ser admitido para um trabalho temporário na usinagem, desde novembro. Aposentado pela vizinha Scania, ele procurava um complemento de renda – mas, desde maio, tem se dedicado a ajudar nas atividades da ocupação. Sua mulher, Valéria Clara Benazzi Botelho, foi visitar a fábrica pela primeira vez em 22 de junho. E dá apoio ao movimento. “Fizeram falcatrua com eles. Têm de fazer (a ocupação) mesmo”, diz. O casal, com dois filhos, conta que está “quase quitando” a casa, também em São Bernardo.

A rotina alterna momentos de alegria, desânimo e nervosismo. Quando chega uma doação, trabalhadores formam o mutirão para armazenar os pacotes, trazidos em uma empilhadeira. Para distrair, há mesas de sinuca, pingue-pongue e pebolim, além de uma televisão, no mesmo espaço onde, encostados em uma parede, painéis contam um pouco da história da empresa e da fábrica, cujas obras começaram em 1959. Ali se acumulam panelas, garrafas térmicas, pratos, mantimentos.

Também há horas de desentendimento. Em um desses dias, um trabalhador pediu desculpas publicamente após uma discussão. Depois, todos deram-se as mãos. Alguns choram. O clima tornara-se subitamente tenso depois de a Fiat informar que pretendia retirar seu ferramental da fábrica, o que acabou conseguindo nos dias 28 e 29 de junho, devido a uma liminar obtida na Justiça.

“Sei que vocês estão no limite. Mas precisam ter força”, diz o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos Vânio Guedes, funcionário da Scania, cuja representação havia acabado de doar alimentos e um valor em dinheiro. “A gente se coloca na situação de quem não está recebendo salário. Isso (fábrica) não pode morrer por incompetência de alguns.”

Marcia Minillo/RBAFamília Nivaldo
Nivaldo, a mulher, Sônia, e o filho Marcelo, também funcionário da Karmann-Ghia: difícil explicar dificuldades da empresa

Dramas pessoais

No mesmo 22 de junho, representantes da Associação dos Metalúrgicos Aposentados chegam com mais alimentos e solidariedade. “A gente queria fazer muito mais por vocês”, diz o presidente da AMA, Wilson Ribeiro, ex-funcionário da Mercedes-Benz. No dia seguinte, a Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM) da CUT e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) levaram alimentos produzidos por 50 famílias de seis cidades do Espírito Santo. Também esteve lá o bispo diocesano de Santo André, dom Pedro Carlos Cipollini. Dezenas de representações de fábricas da região já passaram pela fábrica.

Além da preocupação de garantir a sequência do movimento, é preciso também cuidar dos dramas pessoais. São trabalhadores com ameaça de despejo, luz cortada, dificuldade para garantir as despesas básicas. Outros também temem ser presos porque não conseguem pagar a pensão alimentícia.

“Tinha trabalhador sem comida em casa”, conta Valtinho, que passou a dormir na fábrica desde o início da ocupação. Com três filhos, sendo dois pequenos, ele também é cobrado pela mulher e pelas crianças por não passar mais tempo em casa. “Quando posso, trago eles no final de semana. Ontem mesmo fiquei em casa até eles dormirem.” O coordenador do CSE diz que em algumas situações o trabalhador foi duplamente lesado, porque a pensão foi descontada e não repassada. Nesse caso, o jeito é procurar a Vara da Família e tentar explicar o que se passa. “Às vezes, eu mesmo atendo a pensionista.”

Neste mês de julho, o filho mais novo, Gabriel, completa 7 anos. A festa já não vai ser como Valtinho gostaria. “Ele diz: ‘Faz só um bolinho, só um enfeitinho de safári tá bom’”, conta o metalúrgico. “Pelo menos 50% quero fazer ele sorrir.”

Do local onde se concentram os trabalhadores, sobe-se dois lances de escadas e se chega às áreas de produção, agora silenciosas, mas bem conservadas. Prontas para serem reativadas, garantem os trabalhadores. Estão lá as enormes prensas (Clearing, Mahnke, Schuler), furadeiras made in Poland, partes de automóveis.

Depois de tentativas de negociação e diante da dificuldade, inclusive, de identificar o atual proprietário, na última semana de junho o Sindicato dos Metalúrgicos decidiu entrar na Justiça com pedido de falência da Karmann-Ghia, por abandono de patrimônio. A decisão foi aprovada em assembleia realizada no dia 27.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores decidiram manter a ocupação, lembra o diretor da entidade Carlos Caramelo. “Eles estão preservando o que é de um dono que não se pronunciou”, afirma, acrescentando que a fábrica tem todas as condições de voltar a funcionar. “Em termos de know-how, o trabalhador da Karmann-Ghia é altamente qualificado. A marca é muito forte. Agora, precisa de gestão, de pessoas sérias.”

Os metalúrgicos avaliam que a falência é a melhor alternativa para resguardar os direitos dos empregados – nesses processos, o crédito trabalhista tem preferência. Esse é um primeiro passo. Em um segundo momento, pretendem discutir alternativas de produção. A autogestão pode ser uma dessas alternativas, como já ocorreu em outras fábricas. Mas será preciso percorrer um longo caminho.