Emir Sader

Coalizão pode fragilizar Estado Islâmico, mas terror tende a se repetir

Força rebelde deve se reposicionar em 2016, diante da coalizão a enfrentá-lo. Mas sem abandonar as ações que levem a um cenário de violência não muito distinto do visto ano passado

Alisdare Hickson / Flickr
siria_foto_Alisdare_Hickson_Flickr_CC.jpg

Manifestação nas ruas de Londres: “Bombardeios não matam uma ideologia, eles a alimentam”

São Paulo A primeira notícia de impacto, no começo do ano passado, foram os atentados contra a redação do jornal Charlie Hebdo, em Paris, em 7 de janeiro. O ano fechou com outros atentados, em Paris, na sexta-feira, 13 de novembro, cometidos em nome da mesma organização – o autoproclamado Estado Islâmico. Entre um e outro, 2015 incluiu vários atentados assumidos pelo Estado Islâmico – como a derrubada do avião russo no Egito, as ações terroristas no Líbano, entre tantos outros –, enquanto outra organização similar, o Boko Haram, que atua no norte da Nigéria, foi responsabilizada por mais mortes. Sem contar com a extensão dos conflitos bélicos no Oriente Médio, em que ao Afeganistão e ao Iraque se somou a Síria como epicentro bélico que concentra todas as forças atuantes na região.

Mas o caráter essencialmente bélico do ano também se expressou no plano político. No começo do ano, a Rússia e os Estados Unidos se confrontaram em praticamente todos os temas, a começar pela Ucrânia, mas incluindo a própria Síria.

Conforme a ofensiva do Estado Islâmico se estendia do Iraque para a Síria e ações terroristas se disseminavam por países que participavam da ofensiva militar contra o Estado Islâmico – como Austrália, Japão e Canadá –, e a situação do governo de Bashar Al-Assad ia se tornando muito frágil, a situação começou a mudar. A Rússia, a partir de agosto, desembarcou tropas na Síria e passou a atacar o Estado Islâmico com artilharia pesada.

No início, a reação dos Estados Unidos e de seus aliados foi a de protestar, alegando que a Rússia bombardeava também o que eles chamavam de oposição moderada. Mas a Rússia não se deteve, argumentando que seria fundamental a preservação da unidade territorial da Síria. O próprio governo do Iraque começou a clamar pelo apoio da Rússia em seu território.

Diante dessa situação, os Estados Unidos mudaram sua posição e passaram a apoiar os ataques da Rússia, afirmando que também fariam bombardeios, em operações coordenadas ao lado dos russos. Em seguida, a França passou a participar dos bombardeios contra o Estado Islâmico. Mais recentemente, a Grã-Bretanha discute aderir às operações, enquanto Estados Unidos e Alemanha decidem enviar tropas.

A partir dessas alianças militares, o governo de Al-Assad passou também a ser aceito pelas potências ocidentais, que antes consideravam a saída do poder uma condição indispensável para qualquer solução política para a Síria.

Vladimir Putin recebeu Al-Assad em Moscou, em seguida se reuniu com outros governos, em cuja iniciativa teria proposto uma solução política, a partir da decisão de que seja o povo sírio quem decida sobre o seu destino, por meio de eleições. O que supõe uma derrota militar do Estado Islâmico e um mínimo de normalidade no país, com o retorno de pelo menos parte dos milhões de refugiados sírios, especialmente os que estão no Líbano e na Turquia.

Um complicador para essas negociações é a Turquia. Um governo que tem no comando da Síria e nas comunidades curdas seus principais adversários, é sempre suspeito de conivência com o Estado Islâmico, com quem coincidem na definição dos adversários. Putin o acusa não apenas de haver sido conivente na derrubada do avião russo no Sinai, em novembro, como de comprar petróleo negociado pelo Estado Islâmico e de abrir facilidades em seu território para que essa comercialização se faça também com outros países, entre os quais a Arábia Saudita. Mas os Estados Unidos e a própria Otan – a organização multilateral para assuntos militares das potências do Ocidente pediram moderação ao governo da Turquia nos conflitos com a Rússia, para não enfraquecer a frente comum de luta contra o Estado Islâmico.

Se 2015 foi assim, pode-se prever o que nos reserva 2016, desse ponto de vista?

Muitos fatores estarão presentes, a começar pelas eleições presidenciais nos Estados Unidos e a forma como isso vai interferir no comportamento de Barack Obama. Por outro lado, os conflitos na Ucrânia podem dificultar as relações entre norte-americanos e russos. O destino político da Síria ainda é um tema espinhoso, embora hoje já não se questione o governo de Al-Assad durante a guerra.

Caso o Estado Islâmico desloque muitas forças para o Iraque, os Estados Unidos terão dificuldades em aceitar que a Rússia desempenhe o mesmo papel que tem na Síria, porque cederiam espaço em excesso para Vladimir Putin.

Pelo poderio militar que se concentra nos bombardeios ao Estado Islâmico na Síria, somados às infantarias que várias potências começam a mandar, se pode prever um enfraquecimento do Estado Islâmico, pelo menos na Síria. Podem reconcentrar tropas no Iraque e, ao mesmo tempo, intensificar as ações terroristas. Esse pode ser o quadro, o que não representaria um cenário tão distinto do atual, do ponto de vista da violência.